domingo, agosto 06, 2006

LANDEG WHITE

LANDEG WHITE nasceu no sul do País de Gales em 1940 e - pelo que me posso aperceber - vive em Portugal desde 1994. Passou a infância entre Cheshire, Glasgow e Hertfordshire, tendo-se formado na Universidade de Liverpool. Foi professor em Trindade e Tobago, no Malawi (onde conheceu Maria Alice, sua esposa), na Serra Leoa e na Zâmbia. Em 1989 regressou a York, no Reino Unido, onde foi director do Centro de Estudos Sul-Africanos, tendo em 1994 chegado a Portugal, onde lecciona actualmente na Universidade Aberta. Publicou sete livros de poemas, bem como uma rara tradução para o inglês, já premiada, da obra maior de Luís de Camões, “Os Lusíadas”. Confesso que não me tinha cruzado com a existência deste poeta britânico de 66 anos até Junho deste ano, a pretexto de uma estadia em Praga, quando durante uma daquelas intermináveis esperas no Aeroporto de Frankfurt, para grande surpresa minha deparei com uma versão do poema de Camões “Aquela Cativa”, no The Times Literary Supplement de 9 de Junho. Aí se dava grande destaque à sua versão "from the Portuguese of Luis de Camões", “On the Slave, Barbara”. Aqui segue na integra, com a devida vénia, por curiosidade:



ON THE SLAVE, BARBARA

This slave I own
Who holds me captive,
Living for her alone
Who scorns to live,
I never saw woven
In bright bouquets
One dog rose lovelier
To my gaze.

The flowers in the field,
And the stars above
In their beauty, yield
To my love.
Distinct in feature,
Eyes dark and at rest,
Tired creature,
But not of conquest.

Here dwells the sweetness
By which I live,
She being mistress
Of whom she is captive.
Her hair is raven,
And the fashion responds,
Forgetting its given
Preference for blonde.

Love being Negro
At so sweet a figure,
The blanketing snow
Vows to change colour.
Gladly obedient
And naturally clever,
This may be expedient,
But barbarous never!

Quiet presence
That silence storms,
All my disturbance
Finds peace in her arms.
This is the vassal
Who makes me her slave,
Being the muscle
That keeps me alive.



Sem pretender - nem ousaria - tirar mérito à tradução de Landeg White (que saudo...), aí se prova o bastante que as dificuldades com que deparamos ao tentar verter para português poemas de língua inglesa, são naturalmente as mesmas com que poetas e tradutores daquele idioma se deparam ao tentar resgatar para a sua lingua textos originarariamente escritos na nossa. Tive recentemente oportunidade de participar num animadíssimo colóquio na Feira do Livro do Porto com os excelentes Manuel António Pina e Pedro Mexia, moderado pelo jornalista e (deixem-me insistir nisto) poeta Luís Miguel Queirós, em que o desafio que nos era proposto era, na esteira de Derrida, que esgrimissemos acerca do que é isso da poesia. Uma das “definições” que maior consenso reuniu foi a do poeta americano Robert Frost (1874-1963) quando escreveu isto: “poetry is what is lost in the translation”. Percebo bem o que Frost queria dizer. Poesia é, antes de mais, coisa de linguagem... Bem poderia o americano, acaso fosse vivo, vir aqui colher amparo que corroborasse a sua definição. É que na versão inglesa de Landeg White, por competente que seja - e é, - também se perde alguma coisa. Perde-se, por exemplo, poesia, quando o galês é obrigado a abrir mão do imperecível jogo de palavras com que o génio de Camões imortalizou os dois primeiros versos do seu poema na versão original:


"Aquela cativa
que me tem cativo…"


2 comentários:

Marco Martins disse...

Belos dois versos estes... versos que encantam pela sua simplicidade. Tao simples e tanta coisa nos dizem...

"Aquela cativa
que me tem cativo..."

Cumprimentos,
Marco Martins

João Luís Barreto Guimarães disse...

Na sequência da publicação deste post, recebi de Landeg White uma versão actualizada do poema:

AQUELA CATIVA

To a captive who became his lover in India, called Barbara

That slave I own
Who holds me captive,
Living for her alone
Who scorns I should live,
No hybrid rose
Drenched in dew
Was ever to these eyes
Half so lovely.

The flowers in the field,
And the stars above
In their beauty, yield
To my love.
Distinct in feature,
Eyes dark and at rest,
Tired creature,
But not of conquest.

Here dwells the sweetness
By which I live,
She being mistress
Of whom she is captive.
Her hair is raven,
And the fashion responds,
Forgetting its given
Preference for blonde.

Love being Negro
At so sweet a figure,
The blanketing snow
Vows to change colour.
Gladly obedient
And naturally clever,
This may be expedient,
But barbarous, never!

Quiet presence
That silences storms,
All my disturbance
Finds peace in her arms.
This is the vassal
Who makes me her slave,
Being the muscle
That keeps me alive.


This is included in my Collected Lyrical Poems of Camões to be published by Princeton U.P., probably some time next years.