domingo, abril 23, 2006

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE - 2



Hoje gostava que conversassemos acerca deste poema de João Miguel Fernandes Jorge (Bombarral, 1942), retirado de “Porto Batel”, o segundo título da sua obra poética, disponível na Editorial Presença, em “Obra Poética, Volume 1”, Lisboa, 1987.


29


Depois de ter falado toda a manhã
com um estranho acerca daquela anónima
cabeça de rapaz do século dezasseis

sinto que é de matéria breve que
tenho composto todos os meus objectos
todos ordenados à vida e sem aquela

alegria que devemos encontrar
no que tentamos reduzir ao tempo.
Uma só hora daquela cabeça não
caberia em toda a manhã

porque ela é lisa como vidro
e nenhuma dissertação de arte
a poderá tornar densa e as suas ideias
essas somos nós que

as fabricamos.



terça-feira, abril 18, 2006

PHILIP LEVINE

(actualizado)
PHILIP LEVINE nasceu em Detroit em 1928. Está editado em português na Quetzal (1992), na colecção "Poetas Em Mateus", edição colectiva revista e apresentada por Maria de Lourdes Guimarães. "M. Degas Teaches Art & Science At The Durfee Intermediate School - Detroit, 1942", foi para mim uma agradável surpresa quando o li no Abrupto há umas semanas atrás. Pequena homenagem àquele blogue e ao espaço que tem dedicado à poesia, esta minha tradução contou com a colaboração de Vasco Graça Moura.



M. DEGAS TEACHES ART & SCIENCE AT THE
DURFEE INTERMEDIATE SCHOOL – DETROIT, 1942


He made a line on the blackboard,
one bold stroke from right to left
diagonally downward and stood back
to ask, looking as always at no one
in particular, "What have I done?"
From the back of the room Freddie
shouted, "You've broken a piece
of chalk." M. Degas did not smile.
"What have I done?" he repeated.
The most intellectual students
looked down to study their desks
except for Gertrude Bimmler, who raised
her hand before she spoke. "M. Degas,
you have created the hypotenuse
of an isosceles triangle." Degas mused.
Everyone knew that Gertrude could not
be incorrect. "It is possible,"
Louis Warshowsky added precisely,
"that you have begun to represent
the roof of a barn." I remember
that it was exactly twenty minutes
past eleven, and I thought at worst
this would go on another forty
minutes. It was early April,
the snow had all but melted on
the playgrounds, the elms and maples
bordering the cracked walks shivered
in the new winds, and I believed
that before I knew it I'd be
swaggering to the candy store
for a Milky Way. M. Degas
pursed his lips, and the room
stilled until the long hand
of the clock moved to twenty one
as though in complicity with Gertrude,
who added confidently, "You've begun
to separate the dark from the dark."
I looked back for help, but now
the trees bucked and quaked, and I
knew this could go on forever.



§



O SENHOR DEGAS ENSINA ARTE E CIÊNCIA NA
ESCOLA INTERMEDIÁRIA DE DURFEE – DETROIT, 1942


Ele fez uma linha no quadro,
um traço negro da direita para a esquerda
a descer e recuou
para perguntar, sem olhar para ninguém em particular
como de costume: "O que é que eu fiz?"
Do fundo da sala Freddie
exclamou: "Quebrou um pedaço
de giz." O senhor Degas não sorriu.
"O que é que eu fiz?" repetiu.
Os alunos mais inteligentes
concentraram o olhar nas escrivaninhas
excepto Gertrude Bimmler, que levantou
a mão antes de falar. "Senhor Degas,
o senhor criou a hipotenusa
de um triângulo isósceles." Degas meditou.
Toda a gente sabia que Gertrude não podia
estar errada. "É possível,"
precisou ainda Louis Warshowsky,
“que tenha começado a representar
o telhado de um celeiro." Lembro-me
de que passavam exactamente vinte das
onze, e eu pensei que na pior das hipóteses
isto continuaria por mais quarenta
minutos. Era o inicio de Abril,
a neve não tinha ainda derretido nos
pátios do recreio, os olmos e o ácer
bordejando passeios rachados
tremiam com o vento novo, e ocorreu-me
que antes que me desse conta estaria
a caminho da loja de doces
para comprar um Milky Way. O senhor Degas
enrugou os lábios e a aula
acalmou até que o braço longo
do relógio se moveu para o vinte e um
como que em cumplicidade com Gertrude,
que acrescentara confidente: "O senhor começou
a separar o escuro do escuro."
Voltei-me a pedir ajuda mas agora as
árvores resistiam e tremiam e eu
percebi que isto podia durar eternamente.



quarta-feira, abril 12, 2006

Conversa com VASCO GRAÇA MOURA

Durante a última semana, Poesia Ilimitada tem mantido uma interessante conversa com VASCO GRAÇA MOURA (Porto, 1942) que vale a pena partilhar. Uma conversa a pretexto de nada. Uma vez mais, um pretexto apenas para falar de poesia.


João Luís Barreto GuimarãesO real tem constituído, ao longo dos tempos, uma (pre)ocupação permanente dos poetas. Regressa-se agora a um real de onde, eventualmente, nunca se partiu por completo. Que apelo é esse que a realidade exerce sobre o escritor que o leva a escrever? Que vício é esse que leva o poeta a ousar apreendê-lo, por palavras?


Vasco Graça Moura – As palavras estão presas ao real. Não há praticamente nenhuma poesia, nenhuma literatura, que sobreviva se não houver uma especial coerência entre elas e a realidade. Talvez o mesmo se possa dizer em relação a todas as outras artes, sendo certo que, na música, estas coisas se põem em termos qualitativamente diferentes (provavelmente na música, e no Ocidente, o sistema tonal tende a exercer a mesma força de atracção que o real). Estas coisas para mim põem-se em termos de uma extrema simplicidade, sem altos voos filosóficos, num plano prático e corrente dos significados. É claro que a espessura do real é múltipla: tanto inclui o onírico como o pensamento abstracto. Eppure... é sempre o real. Hoje, assim como nas artes o fim do século XX parece ter ficado assinalado por um "neo-figurativismo" (outra vez o real...), também na poesia se regressa ao real (subjectivo e objectivo) em muitas modalidades. O escritor é um ser humano que utiliza as palavras com um certo nível de exigência qualitativa. Capturar o real, mesmo que seja para fazê-lo "inflectir", é um dos seus objectivos. É provável que o cinema e a fotografia tenham contribuído para acentuar essa necessidade. Não penso que se trate de um vício, mas de uma condição inelutável. A literatura é uma forma de criação artística pela palavra, mesmo quando tenta convocar outras áreas (veja-se, por exemplo, a ekphrasis). A sua relação com o real decorre naturalmente desta condição verbal.

JLBGAgrada-me pensar a poesia contemporânea à imagem de um funil onde de um lado se caldeassem cinema e fotografia, como referiu, mas também pintura, escultura, música, filosofia, sociologia, e do outro se desse a beber uma bebida plural. Não lhe vou perguntar, naturalmente, se o rótulo dessa garrafa traz escrito “Pós-modernidade”, antes o seguinte: Agora que as diversas disciplinas da arte experimentaram o verdadeiro sabor da interdisciplinaridade, alguma vez voltará, em sua opinião, essa noção de arte pura e impoluta, no sentido clássico do termo?

VGM – Penso que não. De resto, talvez uma arte pura de "contaminações" nunca tenha existido, a não ser para algumas teorias do segundo quartel do século XX. As artes tiveram sempre pontes entre si. Na literatura, isto vem desde Homero e o escudo de Aquiles no canto XVIII da Ilíada. Passa por Dante e pela presença das artes na Divina Comédia, sobretudo no Purgatório. E estou a pensar em Ficino, que forneceu ao Boticcelli programas iconológicos inteiros (como a obra de Dante lhos forneceu), ou em Camões, que tem incursões "plásticas" perfeitamente do seu tempo: o retrato de Tritão, nos Lusíadas, é feito à maneira de Arcimboldo. As ninfas da Ilha dos Amores antecipam algumas formas de Rubens, assim como as flores e frutos ali descritos lembram a natureza morta holandesa e flamenga de finais do séc. XVI, princípios do séc. XVII. E o que faz o Cesário com o piquenique de burguesas? A pós-modernidade não será o regresso, mais em bruto, da citação e da colagem, de modo a "refigurar" um real que correntes anteriores do séc. XX tinham simulado esquecer ou feito por esquecer? O que há é maneiras diferentes de procurar essas correspondências, seja recorrendo à metáfora, seja à descrição, seja ainda a imitações ou simulações de processos estruturais. Por exemplo, o Eugénio de Andrade recorre predominantemente às metáforas para encontrar equivalências, enquanto o Sena da Arte da Música é mais descritivo. Não lhe parece?

JLBGDe facto, quando relembro a rapariga de Cesário, em “Num Bairro Moderno”, por exemplo, com o seu cabaz de frutos, legumes e hortaliças, ocorre-me sempre a imagem de certas figuras de Arcimboldo. O que me leva a colocar-lhe a questão da poesia enquanto jogo, lúdico e virtuoso, oficinal e formalista: O lado mais lúdico da poesia será incompatível com a sua espessura reflexiva? Existirá mesmo uma poesia séria, dos grandes temas como a fugacidade do tempo e a inevitabilidade da morte, por oposição a uma poesia menor, das pequenas coisas quotidianas? Mais ainda: Essa eventual mudança de paradigma reflectirá contemporaneamente a perda de referentes, de valores, do divino?

VGM – Lúdico, aqui, não coincide necessariamente com situações bem-humoradas. Um dos poemas mais lúdicos da nossa literatura é o labirinto de Camões "Corre sem vela e sem leme / a nau que se vai perder", primeiro (creio eu) grande exercício combinatório das nossas letras e que tem mais a ver com o trágico do que com outras categorias. O mesmo se diga dos "violons longs" do Verlaine ou das "arcadas / do violoncelo" do Camilo Pessanha, em que o patético resulta de um jogo musical de sonoridades. Há, decerto, grandes temas que podem contrapor-se a uma poesia do quotidiano mais imediato e corriqueiro. Assim como há poesia de grandes voos filosóficos e poesia de grandes mergulhos eróticos (e nesta contraposição até o adjectivo "grandes" tem implicações diferentes). Mas um minúsculo poema pode conter (e contar) muita coisa. E a categoria de poesia menor é muito discutível. O Eugénio dizia, com muita injustiça, do Pedro Homem de Mello que este era "um grande poeta menor"... Olhe o Carlos Queirós: "Português e vivo / é diminutivo. / Só fazemos bem / Torres de Belém". Ou o José Fernandes Fafe: "Compreende-se tudo / de repente: / São oito séculos a ver o sol morrer / afogado no mar / diariamente" (cito de memória e não garanto a pontuação...). Também não penso que a mudança de paradigma reflicta a perda de valores. A perda de valores, a angústia perante ela e o sentimento de uma irrecuperabilidade deles, também tem sido uma constante em certos lamentos poéticos desde há muitos séculos. A mudança de paradigma está talvez em que, hoje, se vê o "poético" em realidades ou situações a que antes não se atribuía essa qualidade, o que também acontece na cultura em geral.

JLBGEstou correcto se inferir que, na sua opinião, tudo ou quase tudo pode ser matéria de um poema? Ou, existirá um limite formal, de linguagem, a partir do qual já não se pode chamar à “coisa”, poesia? E ainda isto: Na sua actividade como escritor – perante a matéria-prima em estado bruto, tem desde logo a clara noção se o instante lhe vai exigir um poema, uma crónica ou um texto em prosa? Por outras palavras: é a matéria-prima que determina o género literário ou o virtuosismo do escritor que o impõe?

VGM – O ideal seria que o poeta tivesse uma tal oficina que pudesse escrever um poema sobre o que quer que lhe apetecesse. Na prática, est modus in rebus… Na minha actividade, é frequente achar que uma ideia pode converter-se em poema, ensaio, ficção ou crónica. Aí, entra em funcionamento uma espécie de “sentido estratégico” relativamente ao texto: O que é que eu quero dizer? Como é que posso dizê-lo melhor ou mais eficazmente? Mas também acontece que certas virtualidades só surjam in actu, no próprio momento da escrita, e aí podem obrigar a uma inflexão de um género para o outro. De qualquer maneira, eu não me programo para escrever isto ou aquilo. Funciono mais ao sabor do que me apetece fazer e o texto que resulta é um desenvolvimento desse apetite… Se, a partir de dois ou três decassílabos, pode acontecer que não se saiba ainda se aquilo vai dar um soneto ou não, a verdade é que o virtuosismo pode suscitar uma opção específica: Por exemplo, se eu resolver escrever uma sextina, ou um labirinto à boa maneira maneirista, ou um soneto em espelho, que possa ser lido indiferentemente do princípio para o fim ou do fim para o princípio, ou umas “voltas a mote”, ou uma canção de estrutura canónica, normalmente tenho de começar pela escolha da forma e ir acertando o tratamento da matéria com as exigências do espartilho escolhido. Mas enfim, em nada disto há regras absolutas.

JLBGSerá isso que explica que certos poemas em verso branco, em forma livre, nos pareçam por vezes mais perfeitos do que, por exemplo, alguns sonetos ou sextinas? A sua noção de poema compreende o conceito oficinal de "poema perfeito"? O que poderá ser isso de “poema perfeito”?

VGM – A questão, com toda a franqueza, não me parece muito bem colocada. O sentido da perfeição sobrepõe-se a quaisquer conceitos oficinais. Por exemplo, é discutível que as redondilhas "Sobre os rios que vão", de Camões, sejam oficinalmente perfeitas. Há quem tenha feito a análise de toda uma série de características do poema (repetições, hipérbatos, anacolutos, cacófatos, etc.) para considerá-los "tiques de velhice". A este respeito, já uma vez citei o Adorno, quando ele diz, a propósito do estilo de maturidade em Beethoven, que nos grandes artistas as obras de maturidade representam as catástrofes. Ele refere-se também às regras de "escola" que são transgredidas pelo artista face à pressão daquilo que precisa de exprimir ante o pressentimento de uma aproximação da morte. Ou seja, no plano oficinal, o poema de Camões está longe de ser perfeito. E todavia o poema parece-me "perfeito" no plano de que estamos a falar. É mesmo, para mim, o maior poema lírico da literatura ocidental... Por outro lado, todos conhecemos poemas oficinalmente perfeitos que valem muito pouco. A questão coloca-nos perante o mistério da arte, aquilo que escapa a toda a dissecação, que tem a ver com um certo sentido de inefabilidade e com uma fenomenologia da fruição estética. Para mim, a oficina, a técnica, o que se lhe quiser chamar são meras condições, é certo que condições sine quibus non, mas, para além delas, tem de haver mais alguma coisa no resultado. A perfeição pode ser atingida pela transgressão das regras. Sentimos que um poema é "perfeito" quando da sua leitura nos resulta uma plenitude que não alcançaríamos de outro modo. Mas isto também é uma perífrase que não resolve nada...

JLBGEra esse sentido de "perfeição", pela transgressão das regras, a que me referia: Um "poema perfeito" pode bem ser essa rosa que se ergue pelo caule, em toda a sua harmonia, mas que devolvida à jarra nos deixa os dedos a sangrar. Um "poema perfeito" terá que ter arestas, independentemente do seu tema, a questão estará, parece-me, em não as limar em demasia, antes torcer a palavra até ao osso. O que me sugere esta derradeira pergunta: Que papel antevê para a poesia nos dias de hoje? A mesma secreta arte de alguns, para alguns? O regresso do poeta às preocupações sociais? Mais ainda: O poeta, os escritores em geral, terá o direito – é uma pergunta provocadora, bem sei – de se manter autista perante os sinais que a sociedade envia diariamente?

VGM - Não antevejo para a poesia um papel muito diferente daquele que pode caber às outras formas de expressão literária ou artística. O que se espera de um escritor é que faça literatura. O criador está colocado perante a necessidade de se exprimir, na sua singularidade humana e num domínio que não é propriamente utilitário (a não ser nas indústrias do best-seller...), utilizando determinados recursos que a sua capacidade e a sua orientação lhe proporcionam. A mesma singularidade humana que o faz ser criador determinará as modulações específicas da sua produção: intimismo, poesia "pura", intervenção social, reflexão filosofante, aproximação de outras áreas da criação, poesia do quotidiano, poesia concreta, etc., etc., mesmo, se disso carecer, um certo "autismo" alheado de tudo o mais - tudo isso é um problema que só diz respeito a ele e à sua liberdade e ele tem o direito inalienável de resolvê-lo como muito bem entender. As sociedades e o tempo encarregar-se-ão de validá-lo ou não. O criador propõe-se e expõe-se. Mas impõe-se? A resposta não é ele quem pode dá-la...


sexta-feira, abril 07, 2006

VASCO GRAÇA MOURA

Vasco Graça Moura nasceu no Porto, em 1942. Licenciado em Direito, actividade que chegou a exercer, é autor de diversas obras de ensaio, poesia, romance, teatro, crónica, e ainda de traduções. O poema "ofício de morrer" foi publicado no seu livro de 1984, "Os Rostos Comunicantes".


ofício de morrer

eu imagino assim a morte de pavese:
era um quarto de hotel em turim,
decerto um hotel modesto, de uma ou duas
estrelas, se é que havia estrelas.

uma cama de pau, de verniz estalado,
rangendo de encontros fortuitos, um colchão mole e húmido
com a cova no meio, a do costume.
corria o mês de agosto com sua terra escura

encardindo as cortinas. nada ia explodir
naquele mês de agosto àquela hora da tarde
de luz adocicada. e alguém pusera
três rosas de plástico num solitário verde.

vejo como pavese entrou, como pousou a maleta
com indiferença, dobrou alguns papéis
e despiu o casaco (como nos filmes
italianos da época). depois foi aos lavabos

no corredor, ao fundo. talvez tenha pensado
que esta vida é uma mijadela ou que.
voltou ao quarto, havia
uma fétida alma em tudo aquilo.

ele abriu a janela
e pediu a chamada telefónica.
a noite ia caindo sem palavras, memo sem businas
excessivas. encheu um copo de água. e esperou.

quando a campainha tocou, havia muito pouco
a dizer e ele já o tinha dito:
já tinha dito quanto amar nos torna
vulneráveis; e míseros, inermes;

que é precisa humildade, não orgulho;
e parar de escrever;
e que dessa nudez é que morremos.
foi mais ou menos isto – a nossa condição

demasiado humana, a voz humana, a frágil
expressão disso tudo, uma firmeza tensa.
«e até rapariguinhas o fizeram».
tinham nomes obscuros e nenhum

remorso lancinante, ninguém pra falar delas.
a mais temida coisa é a coragem
do que parecia fácil: tudo o que não se disse
carregado num acto de súbitas fronteiras.

foi mais ou menos isto. não sei se ele a seguir
pôs do lado de fora um letreiro
com do not disturb ou coisa assim,
nem se tomou as pastilhas uma a uma, ou se as contou.

não sei se o encontrou uma criada,
se a polícia veio logo, se deixou uma carta
ao seu melhor amigo, se apagou a luz,
nem se pousou ao lado a carteira, o relógio, a esferográfica.

não sei se entrou na morte como quem
traz imagens pungentes na cabeça,
palavras marteladas de desejo, ou como quem friamente
está no avesso do sono e vai calar-se e é justo.

não sei se foi assim, se existe uma outra
verdade imaginável ou vedada. sei que ele tinha
um olhar decidido, alguma instigadora, e quarenta e dois anos,
e sei que nessa altura há já poucas verdades

e nenhuma dimensão biográfica na morte.
já vem nas escrituras. eu prefiro
dizer que ele fechou a porta à chave
e sei que era viril a sua transparência.

quinta-feira, abril 06, 2006

JOSÉ MARÍA ÁLVAREZ

JOSÉ MARÍA ÁLVAREZ nasceu em Cartagena, Espanha, em 1942. A sua principal obra é "Museo de Cera", que tem conhecido sucessivas edições (1970, 1974, 1978, 1984, 1990, 1993 y 2002), dada a intenção manifestada pelo autor em criar um livro único à maneira de "Leaves Of Grass", de Walt Whitman, ou "Les Fleures du Mal", de Charles Baudelaire. "Peça de Museu", aqui reproduzido com a devida vénia, foi traduzido por Joaquim Manuel Magalhães e editado pela Relógio d'Água em "Poesia Espanhola de Agora", Volume 1.



PEÇA DE MUSEU

Voluptuosidad incomparable, inefable embriaguez,
Yo te canto

Paul Verlaine


Um escultor, um dia – Augusto Clésinger
se chamava – entregou ao mundo
essa «mulher mordida por uma áspide»
que um museu hoje conserva.
Os turistas
passam junto dela; se um deles se detém
lê a inscrição e continua
a sua visita. Ou com frequência
são grupos de miúdos, dirigidos
por um professor que lhes explica
os efeitos da terrível mordedura,
como o autor captou a dor,
a angústia, o medo.
E contudo
bastar-lhes-ia contemplar o voo desses olhos,
esse rosto, escuta os suspiros
que saem da sua boca, desse peito
pelo amor dilatado, esse flanco que se curva,
essas coxas que cerra
o gozo,
para entenderem
que não é a Morte que toma
essa mulher, mas o prazer,
o êxtase, o absoluto
aniquilamento do orgasmo.
Se o bom Auguste Clésinger
se viu forçado pela censura do seu tempo
a inventar uma história trivial
que permitisse às suas fantasias
serem expostas no Salão de 47,
que subtil, sedutor, inteligente
foi, para nos legar essa beleza apaixonada:
o instante supremo
em que uma mulher entrega a sua carne
à História.

terça-feira, abril 04, 2006

CARLOS BESSA

CARLOS BESSA nasceu em 1967.

Publicou “Legenda” (Atlas, 1995), “Termómetro. Diário” (Black Sun, 1998), “Olhos de Morder Lembrar e Partir” (Black Sun, 2000), “Lançam-se os Músculos em Brutal Oficina” (& etc, 2000) e “Em Trânsito” (& etc, 2003). O seu último livro intitula-se “Em Partes Iguais” (Assírio & Alvim, 2004).

Os poemas de Carlos Bessa, onde descrição e narração se enlaçam num registo prosaico, organizam-se como que por estratos, resultando a sua leitura numa cadência expressionista, muitas vezes deliberadamente despoetizada porque próxima da fala, e com inúmeras quebras gramaticais que se dão a ler de forma descontínua e alusiva, sincopada e metonímica.

O tom dominante é o de uma aguda crítica à vida em sociedade, tanto rural quanto urbana, à rotina, ao tédio, procurando - por exemplo através da dissonância dos títulos - menos a adesão emocional do leitor do que o esforço da sua consciência. É frequente o uso do nonsense e da derisão, através do emprego de efeitos subversivos, surrealizantes, e de originais e inesperados efeitos de linguagem que frequentes vezes apelam para uma leitura descontruída e sabotada. Uma poesia fragmentária, portanto, deliberadadamente crua.

O poema “lista de compras” foi retirado do seu livro de 2003 “Em Trânsito”, e “a marmita, todas as noites a marmita" da sua colecção de 2000 “Lançam-se os Músculos em brutal Oficina”.


lista de compras (2003)

Fazia a lista de compras com um ar ligeiramente
Sonhador. Amachucava pedacinhos de papel
Que nos fim pareciam smarties.
- Estou sempre contigo, sempre.
- E tu pesas-me.
- Sem ti, sinto-me num vácuo.
- És de chumbo.
E na lista de compras lá vinha um quilo de arroz
Um litro de azeite, duas latas de atum.
O sol, como uma flor, fazia da cozinha
Uma festa, a que as cortinas conferiam ar de templo.
No fogão ardia o leite, ouvia-se o chiar
Da máquina de café e o coração
Como um atleta, cada vez mais pálido
Cada vez mais longe.



a marmita, todas as noites a marmita (2000)

De alumínio e, do tanto uso, de um cinza
Baço, encardido. Talvez por isso um dia disse-o
Em voz alta com as lágrimas, ali, longe de tudo
Num banco de Lisboa.

O frio que passou do carro para o autocarro.
As tardes de chuva quando chegava no chão
Sentado ao lado do condutor, ao lado do deus
Que o trazia no mesmo frio, na mesma posição de chinês.

Sem nos dizer do que passava, das suas alegrias
ou tristezas. Assim até o b.i.
A lei portuguesa acenar e dizer dos estigmas
Do trabalho que se deve em nome da mesa.

Não produzia molas suficientes e a marmita
Arrumada para sempre no fundo do armário
Ficou esquecida, mas não o sofrimento.


domingo, abril 02, 2006

LUIS ALBERTO DE CUENCA

Poeta, tradutor e ensaista espanhol, LUIS ALBERTO DE CUENCA nasceu em Madrid em 1950. Interrompeu os estudos de Direito para se licenciar em Filologia Clássica. O poema "A Mal Casada", apareceu no seu livro “El Outro Sueno”, de 1987, e foi traduzido pelo poeta Jorge Sousa Braga para o Poesia Ilimitada.


A MAL CASADA (1987)

Dizes-me que Juan Luis não te compreende,
que só pensa nos seus computadores
e que não faz caso de ti de noite.
Dizes-me que os teus filhos não te ajudam,
que só te dão problemas, que se aborrecem
com tudo e que estás farta de aturá-los.
Dizes-me que os teus pais estão velhos
que se tornaram tacanhos e egoístas
e que já não és a sua menina como dantes.
Dizes-me que já fizeste trinta e cinco
e que não é fácil começar de novo,
que os únicos homens que conheces
são os colegas de Juan na IBM
e não gostas de executivos.
E eu, o que é que eu faço nesta história?
Que queres que eu faça? Que mate alguém?
Que dê um golpe de estado libertário?
Amei-te como um louco. Não o nego
mas isso foi há muito, quando o mundo
era uma reluzente madrugada
que não quiseste compartilhar comigo.
A nostalgia é um passatempo grosseiro.
Volta a ser a que foste. Vai ao ginásio,
Pinta-te mais, disfarça as tuas rugas
e veste roupa sexy, não sejas tonta,
que talvez Juan Luis te volte a mimar,
e os teus filhos vão para um acampamento
e os teus pais morram.