terça-feira, abril 04, 2006

CARLOS BESSA

CARLOS BESSA nasceu em 1967.

Publicou “Legenda” (Atlas, 1995), “Termómetro. Diário” (Black Sun, 1998), “Olhos de Morder Lembrar e Partir” (Black Sun, 2000), “Lançam-se os Músculos em Brutal Oficina” (& etc, 2000) e “Em Trânsito” (& etc, 2003). O seu último livro intitula-se “Em Partes Iguais” (Assírio & Alvim, 2004).

Os poemas de Carlos Bessa, onde descrição e narração se enlaçam num registo prosaico, organizam-se como que por estratos, resultando a sua leitura numa cadência expressionista, muitas vezes deliberadamente despoetizada porque próxima da fala, e com inúmeras quebras gramaticais que se dão a ler de forma descontínua e alusiva, sincopada e metonímica.

O tom dominante é o de uma aguda crítica à vida em sociedade, tanto rural quanto urbana, à rotina, ao tédio, procurando - por exemplo através da dissonância dos títulos - menos a adesão emocional do leitor do que o esforço da sua consciência. É frequente o uso do nonsense e da derisão, através do emprego de efeitos subversivos, surrealizantes, e de originais e inesperados efeitos de linguagem que frequentes vezes apelam para uma leitura descontruída e sabotada. Uma poesia fragmentária, portanto, deliberadadamente crua.

O poema “lista de compras” foi retirado do seu livro de 2003 “Em Trânsito”, e “a marmita, todas as noites a marmita" da sua colecção de 2000 “Lançam-se os Músculos em brutal Oficina”.


lista de compras (2003)

Fazia a lista de compras com um ar ligeiramente
Sonhador. Amachucava pedacinhos de papel
Que nos fim pareciam smarties.
- Estou sempre contigo, sempre.
- E tu pesas-me.
- Sem ti, sinto-me num vácuo.
- És de chumbo.
E na lista de compras lá vinha um quilo de arroz
Um litro de azeite, duas latas de atum.
O sol, como uma flor, fazia da cozinha
Uma festa, a que as cortinas conferiam ar de templo.
No fogão ardia o leite, ouvia-se o chiar
Da máquina de café e o coração
Como um atleta, cada vez mais pálido
Cada vez mais longe.



a marmita, todas as noites a marmita (2000)

De alumínio e, do tanto uso, de um cinza
Baço, encardido. Talvez por isso um dia disse-o
Em voz alta com as lágrimas, ali, longe de tudo
Num banco de Lisboa.

O frio que passou do carro para o autocarro.
As tardes de chuva quando chegava no chão
Sentado ao lado do condutor, ao lado do deus
Que o trazia no mesmo frio, na mesma posição de chinês.

Sem nos dizer do que passava, das suas alegrias
ou tristezas. Assim até o b.i.
A lei portuguesa acenar e dizer dos estigmas
Do trabalho que se deve em nome da mesa.

Não produzia molas suficientes e a marmita
Arrumada para sempre no fundo do armário
Ficou esquecida, mas não o sofrimento.


16 comentários:

formol disse...

Se me permites JLBG (arrisco que me permitas o tu, sobretudo) gostaria de te perguntar até que ponto as polémicas no teu blogue têm influenciado ultimamente a tua linguagem crítica.

Eu acho que nos primeiros posts utilizavas ferramentas de análise mais próximas do poema (i.e. menos preocupadas com o fundamento conceptual e mais próximas do texto), e para mim mais sinceras da forma como lês os poemas.

Não estou a dizer que não o faças ainda, mas notei nesta tua nota um tom mais preocupado de fundamento, talvez por causa da bagunça que se foi criando. Posso estar errado, mas seja como for creio que tu não precisas de conceptualismo nenhum; as tuas ideias sobre o texto (a coisa em-si, digamos) são justificação suficiente para os leitores honestos e interessados do teu blogue.

Isto para dizer que os versos da marmita talvez (para mim) não sejam relevantes nem interessantes, mas que sem dúvida a "lista de compras" é um poema cheio de lirismo, de coisas essenciais, e que independentemente dos conceitos que se encontrem sobre ele, existe ali um conjunto de coisa verdadeiras que para mim o validam como um poema: isto é, algo que representa significativamente algo sobre alguma coisa.

abraço.

Invenção e Verdade (imagino que repliques que são conceitos previsíveis) constituem ainda o modo como as pessoas lêem um poema O facto de estar alguém (presumivelmente o poeta) numa cozinha com outra pessoa (presumivelmente o amante) e que exista uma realidade banal dos objectos e o dilema

Gosto especialmente do sugestivo "ar de templo" e da crueza do último verso. Desse tipo de palavras que sabemos instintivamente sabemos que são verdade.

Abraço.

formol disse...

peço desculpa. houve aqui uma grande confusão de copy+paste e sei lá mais o quê. cumprimentos.

laerce disse...

Pela leitura que faço acho que os dois poemas têm substância poética suficiente. Tanto a lista de compras como a marmita são objectos que servem de pretexto para um determinado sentir. Na 'lista de compras' é um sentir amoroso amargo e doloroso ' pesas-me'/vazio; na 'marmita' a questão social a exclusão e o isolamento. O pormenor das molas que já não existem e que inutilizam a marmita, não deixa de ser interessante.

No fundo, digamos que a modernidade está mesmo no motivo que origina o poema, uma lista, uma marmita.

Agradeço esta oportunidade de partilhar opiniões sobre uma ssunto tão delicado como a pesia.

laerce disse...

Na última frase do comentário anterior: assunto e poesia, claro.

formol disse...

sem dúvida, não há muitos espaços assim onde se possa falar sobre estas coisas. Mas mantenho que a "lista" tem algo que a "marmita" não tem.

laerce disse...

Será por essa tensão dentro do poema muito visível nesse ' amachucava pedacinhos de papel'. Esse algo mais pode muito bem ser essa vida, esse movimento silencioso que depois aparece no ' ouvia-se o chiar/ da máquina do café' e depois o atleta e o coração pálido. uma grande prova pois claro.

No 'marmita essa tensão não existe porque não pode, nem mesmo o próprio sabe que é , digamos assim, um objecto poético, é tudo tão doloroso e ali ' no banco.... disse-o em voz alta, o sofrimento que não pode ser arrumado como a marmita. Por isso, por essa anulação forçada do ser humano, quando uma sociedade não o reconhece e o mantém como estrangeiro ilegal, acho que o poema tem também, digo, verdadeira matéria poética.

Anónimo disse...

Acho ambos os poemas bastante bons, mesmo sem os entender por completo. Há ali qualquer coisa de tenso e vibrante que passa por nós durante a leitura. Como se as iamgens de cada um deles, aliadas à brevidade com que são enunciadas nos atirasse para uma dimensão irreal, embora os poemas estejam cheios de referências concretas.
Gosto. Obrigado, JLBG por mos dar a conhecer e parabéns pelo blog.
Octávio Oliveira

João disse...

Por acaso ainda na semana passada estive com esse livro na mão. Acabei por trazer Os Livros do Manuel António Pina.

Anónimo disse...

Eu também, ascético, saí da livraria com um pouco mais de azul e fui beber um gin tónco.

Anónimo disse...

Ó João, fizeste muito bem em levar os livros desse magnífico pina, que é o único em portugal a denunciar o proselitismo do senhor magalhães. Já agora,para esses gajos que acham que «realidade e «quotidiano» são invenção do magalhães, leiam por favor o O´neill e o Assis Pacheco

Anónimo disse...

Que modo tão sutil da natureza,
para fugir ao mundo, e seus enganos,
permite que se esconda em tenros anos,
debaixo de um burel tanta beleza!

soneto 35 (edição A. Costa Pimpão)

Anónimo disse...

Quem não me deu Amor, não me deu nada. / Encontro-me parado... / Olho em redor e vejo inacabado / O meu mundo melhor.
d' O Livro do Nómada Meu Amigo

obrigado JLBG. obrigado CB

Anónimo disse...

Tudo avança lentamente, posto que avança. Vai indo entre rodas, rumo ao húmido. É o passeio. Rumo ao mais fresco.

in raso como o chão (estampa, 1977)

Anónimo disse...

é um mal que não é mal,
é lutar contra o bonito.

in Bom e expressivo (Tomai lá do O'Neill)

Anónimo disse...

Há aqui uma transparência que ninguém nota

Harry Martinson

Raul Castro disse...

Há aqui muita lamúria desnecesária.Há também alguma poesia. E pomada para os calos!