sexta-feira, agosto 13, 2010

EGITO GONÇALVES (2)

Encontrei hoje no You Tube este pequeno filme com Egito Gonçalves (Matosinhos, 1920 - Porto, 2001) a ler um poema seu a 19 de Junho de 1997 (quatro anos antes da sua morte), no Festival Internacional de Poesia de Medellín. De forma que corri a fender a estante ao meio e acendi (de fio a pavio) um dos melhores livros de poesia contemporânea que conheço. Confio que os leitores deste blogue me perdoem a subjectividade inerente a estas avaliações lapidares. Mas senti falta do Egito, como poeta, como editor, como amigo. Aqui estão três poemas de "E no entanto move-se" (Lisboa, Quetzal, 1995), um livro que se encontra há muito esgotado. Ah, se a Quetzal o reeditasse na anunciada colecção de poesia que se avizinha, Francisco...



ALDEBARAN

Toda a tarde colhi amoras num poema de Ginsberg,
mastigando-as com alguns pensamentos desordenados
que em ti se detinham - como numa paragem de autocarro.
Depois fizemos café numa velha cafeteira
arruinada
que Allen encontrara ao limpar as ervas
da sua nova casa de campo
em Berkeley. Enquanto bebíamos
expliquei-lhe as razões que tornavam o teu nome
impronunciável
e o escondiam numa estrela. Falei-lhe disso
e da tua indesmentível energia pélvica.
Sentiamo-nos ambos muito sós
a cortar em fatias sanduiches de realidade.

25.3.91


§


ENGARRAFAMENTO



O dia está triste,
Perséfona deve ter sido hoje forçada por Vulcano.
O inverno derrama-se na cidade
como se tívessemos de pagar
os problemas do Inferno. Os automóveis
engarrafam o trânsito
de Santa Catarina - a rua,
não a santa
que dos gemidos de Perséfona não entende -.
Sejamos pacientes. Saboreemos
este momento em que os motores em ralenti
aguardam o orgasmos dos deuses.


§


BUDAPESTE


Isabel da Hungria nunca atropelaria um gato, nem com o seu
delicado borzeguim, ao olhar o Danúbio do alto da cidadela.
Isabel fazia milagres e transmitiu os genes à sua neta para
fazer com que aparecessem rosas no avental que D. Dinis
comprara uma manhã na feira de Coimbra.

Isabel olhou as pontes do Danúbio, uma das quais tinha o seu
nome, exclamou extasiada Oh! Ah! e arrancou no Opel no momento
em que o gato atravessava, correndo, para apanhar a melhor
réstea solar na vetusta muralha. Senti o inesperado sobressalto
do pneu e pensei, amargurado: Turismo oblige!

Mas vi o felino sair do outro lado e percebi que o lugar se
mantinha marcado pelo espírito de Isabel da Hungria
- ou então
o gato saíra de um poema de György Somlyó.

9.10.86


Outro poema de Egito Gonçalves no Poesia Ilimitada.

1 comentário:

Cláudia disse...

Excelente.