sábado, dezembro 30, 2006

SAM SHEPARD

(Este post é para o Rui Pires Cabral)

Em 1994 e 1995, enquanto escrevia “Lugares Comuns” (Mariposa Azual, Lisboa, 2000), procurei ler - ou reler - uma matilha de autores que, de alguma forma, explorassem a pequena crónica quotidiana ou a prosa poética como géneros literários de eleição: recordo-me de revisitar abundantemente uma cópia antiga do “Livro do Desassossego”, de Bernardo Soares ou, mais vezes ainda, “O Spleen de Paris - pequenos poemas em prosa” (Relógio d'Água, Lisboa, 1991, tradução de António Pinheiro Guimarães), de Charles Baudelaire. Porém, as duas leituras que mais informaram a minha vontade de registar semanalmente, durante um ano, o espaço humano e urbano de um Café como se de um micro-cosmos de solidões se tratasse, foram as traduções que Luís Miguel Nava publicou na Hífen n.º5 (Cadernos Semestrais de Poesia, Março 1990, dir. Inês Lourenço) dos poemas em prosa poética do francês Alain Morin, e as “Motel Chronicles” de Sam Shepard (“Crónicas Americanas”, Difel, 1982, tradução de José Vieira de Lima). Não me custa aqui revelar que esse é um dos livrinhos da minha vida.

SAM SHEPARD (Fort Sheridan, Illinois, 1943), argumentista de “Paris-Texas”, de Wim Wenders, é um dos mais importantes dramaturgos americanos de sempre. Galardoado com o Prémio Pulitzer para o Teatro, em 1979, com “Buried Child”, passou parte da sua adolescência no Canadá e o universo da sua escrita é povoado pela errância de viajantes fortuitos, cantores de rock, cow-boys, motoristas de camião, e toda uma extraordinária plêiade de personagens que deambulam ao acaso pelas planícies interiores do deserto americano, em cidadezinhas que mal se avistam no mapa. Já em 1997, a Difel publicou “Cruising Paradise” (“Atravessando o Deserto”, tradução de José Vieira de Lima), e em 2004, a Relógio d’Água editou “Great Dream of Heaven: Stories” (“O Grande Sonho do Paraíso: Histórias”, traduzido por Margarida Periquito). Mas desta vez é a “Hawk Moon” (“Lua Falcão”, Quetzal, 1988, tradução de José Luís Luna), e ao sublime “Motel Chronicles”, que vamos roubar duas crónicas. Roubar com a devida vénia, é claro. É um pouco como levantar o véu ao DNA dos autores dos anos 80. Eu próprio cheguei a fotocopiar as duas páginas da crónica “Por volta dos anos 70”, para enviar ao Álvaro Costa, na altura na Antena 3, pedindo-lhe que a lesse no ar imediatamente antes dos primeiros acordes da guitarra de Adams rasgarem o ar com “Summer of 69”. Ele ignorou o meu pedido, provavelmente bem... Aqui está de novo “Por volta dos anos 70”. Para aqueles que tiverem por aí o disco de Brian Adams, deixo hoje isso ao vosso critério.



POR VOLTA DOS ANOS 70

A malta pedia a Deus um salão de bilhar e andava à pancada todas as sextas-feiras à noite mesmo no meio da estrada, impedindo o tráfego. Sem facas, armas de fogo ou correntes. Só ao murro. Ninguém estava ali para levar aquilo a sério. Não era como os combates de rua nas grandes cidades. Os bailes em Diligent River atraíam sempre imensa gente e, como nos velhos tempos do El Monte Legion Stadium, por dá cá aquela palha rebentavam violentas brigas entre vilórias rivais. O grande culpado disto tudo era o tédio. Nem empregos nem salões de bilhar, dez gajos para uma miúda que, regra geral, era um coiro, péssimas estações de rádio, só velhos a morrer e bêbados, festas de caridade, um baile por mês onde nem sequer se dançava rock, uma máquina de discos que nunca mudava de repertório, invernos cobertos de neve em que fazia um frio de rachar e verões encobertos. A coisa mais empolgante que podia acontecer era alguém matar um alce ou um urso, mas até isso era muito raro. Foi então que chegaram os americanos. Primeiro a conta-gotas e, depois, uma autêntica enxurrada. Desertores, criminosos, tipos fugidos das cidades que cresciam por toda a parte. Estranhas publicações pornográficas começaram a circular pelas aldeias. Páginas inteiras, às cores, cobertas de pichas e conas, mamas e cus. O cheiro a drogas impregnou a atmosfera como uma brisa marítima. A música de rock and roll vibrou baixinho e acabou por explodir estrondosamente do lado das florestas, abafando o ruído das serras mecânicas. Surgiram cabanas de índios e esquisitas construções em cúpula de cores berrantes. Estandartes com longas fitas esvoaçavam nos campos para grande espanto dos corvos. Monstruosas motas pretas todas cromadas chafurdaram nas picadas. Estampidos de choppers e hogs rugindo através das aldeias de pescadores. Cartazes dos Rolling Stones colocados nas paredes dos celeiros e das igrejas. Raparigas da terra tatuadas em sítios que nunca nos teriam passado pela cabeça. A Polícia Montada foi alertada, mas as coisas já iam demasiado longe. Já não se conseguia distinguir a rapaziada canadiana da americana. Toda a gente a foder e a chupar, a fumar charros, a chutar e a dançar. E, muito ao longe, podia-se ouvir o barulho da América a rachar e a despenhar-se no mar.



*****



O meu pai tem uma colecção de discos metidos em caixas de papelão, arrumadas contra a parede do quarto, que se vai enchendo da poeira do Novo México. Nesta colecção, o campeão é um Al Jolson original, em 78 rotações, com a capa colada com fita adesiva e até a fita está meio rasgada. Da última vez que o vi, tentou convencer-me a levar o disco para L.A. e a vendê-lo por uma boa maquia. Está convencido de que vale, pelo menos, mil dólares. Talvez mais, consoante o mercado. Diz que, nos últimos tempos, tem perdido o contacto com os negócios.
O meu pai tem um quadro, na parede da cozinha, por cima do lava-loiças, que mostra uma señorita espanhola toda empoada. Tem mesmo. Leva-me a ver o quadro e ficamos ambos a apreciá-lo. «As pessoas pensam que ela deve estar nua, debaixo daquilo, mas aposto que tem alguma coisa vestida», diz ele.
Uma vez, guiou-me numa visita a todas as suas paredes. Todas as suas paredes estão cobertas por quadros e gravuras. Recortes de revistas de uma ponta a outra das paredes. Cada quadro ou recorte é um ponto de vista. Como se nos debruçássemos de várias janelas sobre paisagens emaranhadas. Observo os quadros. Uma queda de água com rochas verdadeiras coladas em primeiro plano. Rochas que achou que ficavam bem no quadro. Um cão branco com um peixe verde na boca. Cactos Saguaro ao pôr do sol, recortados de uma Arizona Highways de 1954. Um orangotango cor de laranja brincando com os órgãos genitais. Uma esquadrilha de bombardeiros B-52 em pleno voo. Uma colagem de rostos salpicada de manchas de gordura.
O meu pai tem uma colecção de beatas numa lata de café Yutan. Compro-lhe um maço de Old Golds mas nem lhe toca. Continua a vasculhar tabaco nas beatas e enrola tudo o que encontra, em cima de um saco de mercearia, de forma a não perder o mais ínfimo bocadinho. Olha desdenhosamente para o meu maço de cigarros, vermelhos e brancos e enrolados na fábrica.
Gastou em Bourbon todo o dinheiro que eu lhe tinha dado para comida. Encheu o frigorífico de garrafas. Tinha o cabelo cortado rente, tal qual um piloto da segunda guerra mundial. Brilhavam-lhe os olhos de contentamento sempre que passava a mão pelo cabelo rente e duro que nem cerda. Dizia que costumavam cortá-lo assim rente para que os capacetes pudessem encaixar bem nas cabeças. Mostrava-me as cicatrizes dos estilhaços ainda nítidas na nuca.
O meu pai vive sozinho no deserto. Não se dá com gente, diz.

4/79
Santa Fé, Novo México



terça-feira, dezembro 26, 2006

WALT WHITMAN

O desejo de WALT WHITMAN (Huntington, 1819 - Camden, 1892) foi sempre o de cantar em verso livre o homem moderno, o “homem novo”, com uma voz alegre, livre de inibições, enérgica e optimista, humana e humanitária, em contacto íntimo com a natureza e com a grandiloquência da América. “Leaves of Grass“, porém, foi considerado à época escandaloso, o que levou os seus leitores europeus a considerar Whitman bom demais para os americanos. William Butler Yeats, Ezra Pound, Hart Crane, William Carlos Williams, Fernando Pessoa, admiraram-no, como o louvaram mais tarde Allen Ginsberg ou Pablo Neruda, o chileno que lhe prestou tributo como pai fundador da poesia continental: Whitman fôra dos primeiros a trazer para a poesia o não-poético, o vulgar, o profano, em verso livre tomado hoje pela crítica especializada como tendo inaugurado o género Épico Subjectivo. Uma importante característica da personalidade de Walt Whitman menos vezes referida, é a importância que o americano deu em vida à caridade e ao altruísmo: em 1862, um ano após o início da Guerra Civil, seguiu para a frente de batalha para se encontrar com o irmão, George, que havia sido ferido em combate, e o que era para ser uma rápida visita de algumas semanas, cedo se transformou numa estada de cerca de dois anos em Washington, trabalhando em part-time para o exército, servindo como enfermeiro voluntário em hospitais militares, administrando cuidados de penso aos feridos, angariando dinheiro para caridade, confortando os soldados, escrevendo-lhes cartas para enviarem aos familiares, trazendo-lhes flores, frutos, tabaco e lendo-lhes poesia para os confortar - embora se diga, nunca os seus próprios poemas. O poema que a seguir traduzo – lido pela primeira vez numa versão de José Agostinho Baptista para a Assírio & Alvim (Lisboa, 1984), – é um dos mais belos poemas de amor que conheço, e foi retirado do livro “Calamus”, onde Whitman celebra o sentimento homossexual e a amizade masculina.



WHEN I HEARD AT THE CLOSE OF THE DAY

When I heard at the close of the day how my name had been
receiv’d with plaudits in the capitol, still it was not a
happy night for me that follow’d;
And else, when I carous’d, or when my plans were accomplish’d,
still I was not happy;
But the day when I rose at dawn from the bed of perfect health,
refresh’d, singing, inhaling the ripe breath of autumn,
When I saw the full moon in the west grow pale and disappear
in the morning light,
When I wander’d alone over the beach, and undressing, bathed,
laughing with the cool waters, and saw the sun rise,
And when I thought how my dear friend, my lover, was on his
way coming, O then I was happy;
O then each breath tasted sweeter – and all that day my food
nourish’d me more – and the beautiful day pass’d well,
And the next came with equal joy – and with the next, at evening,
came my friend;
And that night, while all was still, I heard the waters roll
slowly continually up the shores,
I heard the hissing rustle of the liquid and sands, as directed to
me, whispering, to congratulate me,
For the one I love most lay sleeping by me under the same cover
in the cool night,
In the stillness, in the autumn moonbeams, his face was inclined
toward me,
And his arm lay lightly around my breast – and that night I
was happy.



§



QUANDO OUVI PELO FIM DO DIA

Quando ouvi, pelo fim do dia, como o meu nome havia sido
recebido com aplausos no Capitólio, ainda assim não foi
feliz para mim, a noite que se seguiu;
E, quando festejei, ou, quando os meus planos foram atingidos,
assim mesmo não me senti feliz;
Mas, no dia em que cedo me levantei, de perfeita saúde,
renovado, cantando, inalando o maduro fôlego outonal,
Quando vi a lua cheia, a oeste, ficando pálida e a desaparecer
na luz da manhã,
Quando vagueei sozinho sobre a praia e, despindo-me, me banhei,
rindo com as águas frias, e vi o sol nascer,
E quando pensei em como o meu querido amigo, o meu amante, estava a
caminho, Oh, então senti-me feliz;
Então, cada fôlego me foi mais doce – e todo o dia, meu alimento
me nutriu mais – e o belo dia passou bem,
E o seguinte chegou com igual alegria – e com o próximo, pelo fim da tarde,
chegou o meu amigo;
Naquela noite, quanto tudo estava calmo, ouvi as águas rolar
continuamente, lentas sobre as margens,
Ouvi o assobio sussurrado do líquido e das areias, como que dirigindo-se a
mim, cochichando, felicitando-me,
Porque aquele que amo dormia comigo sob a mesma coberta
na noite fria,
No sossego, nos outonais raios de luar, seu rosto inclinado
sobre mim,
Seu braço em redor do meu peito, suavemente – e naquela noite
fui feliz.



MAX AUB e JOSÉ RICARDO NUNES


O recente post sobre Edgar Lee Masters levou-me a procurar na Estante dois autores em cujo tom encontro afinidades pontuais com o americano, designadamente na utilização de personae literárias, uso de outra identidade que fala através do poeta, permitindo-lhe maior liberdade e criatividade.

MAX AUB nasceu em Paris em 1903, filho de pai alemão e de mãe francesa. Mudou-se para Valencia em 1914, com o eclodir da primeira grande guerra, tendo então adoptado o espanhol como língua de criação. Viveu no México mais de trinta anos, onde faleceu em 1972. Novelista, dramaturgo, ensaista e poeta, escreveu "Crimes Exemplares" (Antigona, Lisboa, 1995), onde - diversamente de Lee Masters que coloca a confissão na boca de mortos, - Aub transforma depoimentos de prisioneiros em poemas: hinos à indiferença, à impaciência mas, principalmente, à intolerância. Com tradução de Jorge Lima Alves, eis, com a devida vénia, alguns destes poemas em prosa poética. "Crimens Ejemplares", foi publicado originalmente no México em 1956.



Sou barbeiro. É uma coisa que pode acontecer a qualquer pessoa. Quero dizer que até esse dia fui um bom barbeiro. Cada qual tem as suas manias, eu não gosto de borbulhas.
Aconteceu assim: comecei a barbeá-lo calmamente, ensaboei-o com habilidade, afiei a navalha no braço da cadeira e suavizei-a na palma da mão. Sou um bom barbeiro! Nunca cortei ninguém e ainda por cima esse tipo não tinha uma barba muito espessa. Mas tinha borbulhas. Devo reconhecer que nas suas borbulhas não havia nada de especial, no entanto, incomodavam-me, enervavam-me, revolviam-me as tripas.
A primeira, contornei-a bem, sem grande dificuldade, mas a segunda começou a sangrar. Então, não sei o que me deu, acho que é uma coisa muito natural, aprofundei a ferida e depois, sem poder deixar de o fazer, com um só golpe, cortei-lhe a cabeça.


*****


Começou a mexer o café com leite com a colherzinha. O líquido quase transbordava da chávena empurrado pelo movimento do utensílio de alumínio (o recipiente era vulgar, o sítio era ordinário e a colher estava arredondada pelo uso). Ouvia-se o barulho do metal contra o vidro. Tim, tim, tim, tim. E o café com leite girava, girava com uma cova no meio. Um maelstrom. E eu encontrava-me sentado mesmo à frente. O café estava à pinha. O homem continuava a mexer, a mexer, imóvel, e sorria ao olhar-me. Senti uma coisa subir por mim acima. Fitei-o de tal maneira que se viu na obrigação de se explicar:
- O açúcar ainda não está derretido.
Para mo provar, bateu com a colher várias vezes no fundo do copo. Recomeçou a mexer metodicamente a beberagem, com uma energia redobrada. Voltas e mais voltas, sem parar, eternamente. Voltas e mais voltas e mais voltas. E continuava a olhar para mim, sorrindo. Então puxei da pistola e disparei.


*****


Era de caras! A única coisa que tinha a fazer era empurrar a bola, com o guarda-redes completamente fora da baliza... E atirou-a por cima da trave! Um golo que teria sido decisivo! Nós estávamo-nos absolutamente nas tintas para esses miseráveis da Napolera. Espero, pelo menos, que o pontapé que lhe dei, e que o mandou para os anjinhos, o tenha ensinado a rematar como Deus manda.

JOSÉ RICARDO NUNES (Lisboa, 1964) é licenciado em Direito e exerce funções no Ministério da Justiça. Mestre em Literatura e Cultura Portuguesas (Época Contemporânea), publicou "Na Linha Divisória" (Campo das Letras, 2000), obra à qual foi atribuido o Grande Prémio Eugénio de Andrade 2000, e "Novas Razões" (Gótica, 2002). O seu primeiro livro, porém, foi "Rua 31 de Janeiro (algumas vozes)" (&etc, Lisboa, 1998), que resultou, adivinhamos, de uma experiência literária directamente influenciada pela sua actividade profissional, dado o autor trabalhar no Instituto de Reinserção Social de Reclusos de Caldas da Rainha. Alguns poemas:



quando o guarda abre de manhã a minha cela
dizendo as horas sempre à mesma hora
as mãos tremem por uma dose
de pó um sol para queimar
o tempo vendido aos pacotes

desde que me transferiram para aqui
condenado injustamente a dezoito anos
deixei de sonhar com a liberdade

mas antes de em vão tentar provar a minha inocência
de me ter esgotado nos recursos
eu era um outro homem
recebia visitas e correspondência da família
confiante sonhava com os olhos da patrícia


*****


quando os meus pais souberam
que fora eu quem assaltara a igreja
roubando o dinheiro das esmolas
para pagar aos amigos copos de vinho
e que até desfigurara o rosto dos santos
em meu nome pediram desculpa ao padre
e mandaram rezar missa
como se estivesse morto


*****


chegava a roubar oito automóveis só
numa noite ao volante apertava
outras mãos nas minhas e sobrepondo
as impressões digitais imaginava
o nome a idade quem seria
o condutor e guiava como ele
por momentos vivendo a sua vida

segunda-feira, dezembro 25, 2006

ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA

ONÉSIMO TEOTÓNIO DE ALMEIDA (Pico da Pedra, S. Miguel, Açores, 1946) é um dos melhores cronistas da língua portuguesa. Estudou em Lisboa, e vive desde 1972 nos Estados Unidos. Doutorado em Filosofia pela Brown University, é Professor Catedrático no Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros da Brown University, Providence, Rhode Island. Do seu livro “Viagens na Minha Era, Dia-Crónicas” (Temas e Debates, Lisboa, 2001), retirei a crónica (proema?) “Perde-se na Tradução”:



PERDE-SE NA TRADUÇÃO


Dia de regresso. Fizera as malas e pedira à recepcionista do hotel que mas guardasse até à tarde; quando terminasse a aula passaria lá a caminho do aeroporto. Chego ao carro e dou com uma garrafa de aguardente da Graciosa oferecida na véspera por um amigo. Volto a correr ao hotel e, apressadíssimo, tento pedir à recepcionista que ma ponha junto às malas para eu depois arrumar. Ao menos era essa a intenção, mas as palavras devem-me ter saído num jacto incompreensível. Muito sorridente e com graciosa vénia a senhora disse-me: «Olhe, muito obrigada! É muito gentil. Mas não precisava fazer nada disto…»
Faltou-me a coragem de tirar a máscara de hóspede gentil e agradecido.







domingo, dezembro 24, 2006

RUI LAGE

Depois de “Antigo e Primeiro” (Quasi Edições, 2002) e de “Berçário” (Quase Edições, 2004), RUI LAGE (Porto, 1975) surgiu neste Outono com livro novo, “Revólver” (Quasi Edições, 2006).
Apetece saudar a maior firmeza desta voz, numa poesia musical onde o abundante uso da rima interna cimenta versos de uma maior força temática, a que não é estranho o esboço de uma cosmogonia pessoal. A contemporaneidade dos media, certas preocupações sociais (à semelhança de outros poetas contemporâneos de que é exemplo superior Jorge Gomes Miranda), como também a religião e a ciência, informam a primeira parte do livro intitulada “Licença de porte de arma”, onde está presente, em poemas de um expressionismo livre de espartilhos, um pessimismo irónico e provocador. Esta é também uma poesia atenta ao detalhe, ao mais insuspeito pormenor, à “pedra que rola da vertente / segundos depois de passares”, aos jogos de palavras (“fabrica o passado/ e pressente o futuro”; “a teus lábios darei ouvidos”), e ainda, algo que tanto prezo, à tradição (Pina, O'Neill, Assis Pacheco, Cesariny, Eugénio, Inês Lourenço, entre tantas outras leituras).
A segunda parte do livro “Carreira de tiro”, convoca a cidade através dos locais onde o uso do revólver poético é frequente, tendo-me agradado particularmente a sequência de poemas sobre cafés. “Caça Furtiva”, de onde retirei o poema que se segue, “O País à Porta” constitui a terceira parte da obra, onde se materializa a metáfora que toma o poder da palavra poética por arma letal. Por último, a quarta e última parte “O revólver vazio”, coloca em perspectiva poemas onde a noite é, também ela, um eufemismo da morte.



O PAÍS À PORTA

Se pudesses, O'Neill, ver hoje o teu país,
(ou tu, Assis Pacheco, filho pródigo
destes quintais floridos
)
velho de oito séculos e pouco mais velho
desde que o deixaste,
país que secretamente não vota
para não se maçar
enquanto furta com arte as gaiolas vizinhas
a cantar nas paredes caiadas,
país com mais que fazer
(futebol para ver
e mato para queimar);

se pudesses vê-lo agora
não levarias a peito,
mas confirmarias, estou certo,
que tem defeito de nascença
ou de fabrico,
mais valendo, por isso,
como em vida tua valeu,
deitar por terra a lança do ódio,
fechar a navalha do tédio,
sacudir o ombro amigo da solidão
e rir sonoramente de tudo,
talvez não tanto à porta da pastelaria
como, hoje em dia, à porta dos chineses,

mas rir sonoramente de tudo, dizia,
- de ti mesmo,
sobretudo.

EDGAR LEE MASTERS

O livro mais conhecido de EDGAR LEE MASTERS (1868-1950) é “Spoon River Anthology”, e uma boa parte foi vertida para português pelo poeta José Miguel Silva, numa tradução bem representativa da antologia e que respeita sempre o coloquialismo da escrita do americano. Em “Spoon River Anthology” (edição de 1915, recebida com entusiasmo por Ezra Pound), Lee Masters defolha uma extensa galeria de personagens de uma pequena cidade rural das margens do rio Spoon, retratos esses, porém, tomados sempre como epitáfios: é que é já enquanto mortos que as personae dos poemas falam de suas vidas, das suas ilusões, dos seus segredos, dos seus casos amorosos, dos seus crimes, das suas traições, dos seus conflitos, num tom de inevitabilidade tão lógica quanto absurda, tão humorística quanto filosófica. Admirador confesso de Whitman – de quem chega a escrever uma biografia e de cuja poesia pede emprestado um gosto assumido pelo verso livre expressivo e o tema implícito de uma América genuína e grandiloquente – Lee Masters faz-nos mergulhar num realismo doloroso comum a outros escritores da Escola de Chicago, nas profundezas de uma América de província, agrícola, onde a ideia é levar o leitor a identificar-se em vida com algum dos aspectos da vida que foi a dos mortos que agora falam: padres, advogados, juízes, prostitutas, tanoeiros, entre tantos outros. É no mínimo irónico que ele próprio, Lee Masters, repouse também, à sua morte, nesse mesmo campo santo de Petersburg de onde deu voz a tantos arquétipos. A vontade era deixar aqui cinco ou dez dos poemas que José Miguel Silva tão bem soube verter para português, para melhor espelhar a forma como o livro se encontra organizado e o modo como certos poemas dialogam entre si: aqui e ali, a mesma situação é contada em dois poemas consecutivos pelas duas personagens envolvidas na situação, em versões completamente distintas. Tal não é possível e dos 75 poemas que o nosso poeta traduziu (edição “Spoon River – Uma Antologia”, Relógio d´Água, Lisboa, 2003) seleccionei estes três como appetizer. Mas fica o recado: este é um dos modernistas americanos que vale a pena ter e ler de costa a costa.



A. D. BLOOD

Se vocês aí na vila acreditam que fiz bem
em ter fechado as tabernas, acabado com o jogo
e em ter arrastado a velha Daisy Fraser à presença do juiz Arnett,
entre tantas outras cruzadas para purgar os pecados do povo:
então, por que permitis que Dora, a filha da chapeleira,
mais o inútil do filho de Benjamin Pantier
venham à noite fazer de minha campa a sua ímpia almofada?



...



FRANKLIN JONES

Se pudesse ter vivido mais um ano,
teria acabado a minha máquina voadora,
tomando-me com isso um homem rico e famoso.
Faz sentido, portanto, que ao artesão que adorna a minha lápide
lhe tenha saído algo mais parecido com um frango.
O que é a vida, no fundo, senão sair do choco
para correr no quinteiro
até ao dia da degola?
A diferença é que o homem tem um cérebro de anjo
e desde o princípio vê o machado.



...



BARNEY HAINSFEATHER

Se o comboio regional para Peoria
tivesse apenas descarrilado, talvez eu escapasse com vida;
e nesse caso escaparia deste sítio.
Mas como ardeu, eles confundiram-me
com John Allen, que foi enviado para o cemitério judeu
de Chicago, e confundiram o John comigo. Eis a razão por que estou aqui.
Já era mau gerir uma loja de roupa nesta cidade,
mas ser cá sepultado - que horror!



... (E mais este, e vocês prometem que encomendam o livro…)



SEARCY FOOTE

Eu queria ir para a universidade,
mas a minha tia Persis, que era rica, não me ajudava.
Dediquei-me, por isso, a arranjar jardins e relvados.
Com o dinheiro que ganhei comprei os livros de John Alden
e tive que lutar para sobreviver.
Eu queria casar-me com Delia Prickett;
mas como podia fazê-lo, com o pouco que ganhava?
E lá estava a tia Persis, com mais de setenta anos,
sentada na cadeira de rodas, meia morta já,
com a garganta paralisada. Quando comia
parecia um pato, a sopa a escorrer-lhe da boca.
Porém era gulosa, e investia o dinheiro
em hipotecas, sempre consumida
com as contas, mais as rendas e as letras.
Nesse dia estava eu a serrar lenha para ela
e, nos intervalos, ia lendo Proudhon.
Entrei dentro de casa para beber um copo de água
e lá estava ela adormecida na cadeira.
O livro do Proudhon estava em cima da mesa,
e em cima do livro o frasco de clorofórmio
que ela por vezes tomava contra as dores de dentes.
Embebi em clorofórmio um lenço de mão
e pressionei-o contra o seu nariz até ela morrer.
Oh, Delia, Delia, foste tu e Proudhon
quem me deram forças para isso, e o médico legista
concluiu que a morte se devera a uma paragem cardíaca.
Casei com Delia e fiquei com o dinheiro –
Enganei-te bem, Spoon River, ou não?





sexta-feira, dezembro 22, 2006

A receita do dr. MANUEL ANTÓNIO PINA


Receita "médica" passada pelo poeta MANUEL ANTÓNIO PINA ao autor deste blogue: Rilke, Pound, Eliot e... Winnie-the-Pooh !