terça-feira, dezembro 26, 2006

MAX AUB e JOSÉ RICARDO NUNES


O recente post sobre Edgar Lee Masters levou-me a procurar na Estante dois autores em cujo tom encontro afinidades pontuais com o americano, designadamente na utilização de personae literárias, uso de outra identidade que fala através do poeta, permitindo-lhe maior liberdade e criatividade.

MAX AUB nasceu em Paris em 1903, filho de pai alemão e de mãe francesa. Mudou-se para Valencia em 1914, com o eclodir da primeira grande guerra, tendo então adoptado o espanhol como língua de criação. Viveu no México mais de trinta anos, onde faleceu em 1972. Novelista, dramaturgo, ensaista e poeta, escreveu "Crimes Exemplares" (Antigona, Lisboa, 1995), onde - diversamente de Lee Masters que coloca a confissão na boca de mortos, - Aub transforma depoimentos de prisioneiros em poemas: hinos à indiferença, à impaciência mas, principalmente, à intolerância. Com tradução de Jorge Lima Alves, eis, com a devida vénia, alguns destes poemas em prosa poética. "Crimens Ejemplares", foi publicado originalmente no México em 1956.



Sou barbeiro. É uma coisa que pode acontecer a qualquer pessoa. Quero dizer que até esse dia fui um bom barbeiro. Cada qual tem as suas manias, eu não gosto de borbulhas.
Aconteceu assim: comecei a barbeá-lo calmamente, ensaboei-o com habilidade, afiei a navalha no braço da cadeira e suavizei-a na palma da mão. Sou um bom barbeiro! Nunca cortei ninguém e ainda por cima esse tipo não tinha uma barba muito espessa. Mas tinha borbulhas. Devo reconhecer que nas suas borbulhas não havia nada de especial, no entanto, incomodavam-me, enervavam-me, revolviam-me as tripas.
A primeira, contornei-a bem, sem grande dificuldade, mas a segunda começou a sangrar. Então, não sei o que me deu, acho que é uma coisa muito natural, aprofundei a ferida e depois, sem poder deixar de o fazer, com um só golpe, cortei-lhe a cabeça.


*****


Começou a mexer o café com leite com a colherzinha. O líquido quase transbordava da chávena empurrado pelo movimento do utensílio de alumínio (o recipiente era vulgar, o sítio era ordinário e a colher estava arredondada pelo uso). Ouvia-se o barulho do metal contra o vidro. Tim, tim, tim, tim. E o café com leite girava, girava com uma cova no meio. Um maelstrom. E eu encontrava-me sentado mesmo à frente. O café estava à pinha. O homem continuava a mexer, a mexer, imóvel, e sorria ao olhar-me. Senti uma coisa subir por mim acima. Fitei-o de tal maneira que se viu na obrigação de se explicar:
- O açúcar ainda não está derretido.
Para mo provar, bateu com a colher várias vezes no fundo do copo. Recomeçou a mexer metodicamente a beberagem, com uma energia redobrada. Voltas e mais voltas, sem parar, eternamente. Voltas e mais voltas e mais voltas. E continuava a olhar para mim, sorrindo. Então puxei da pistola e disparei.


*****


Era de caras! A única coisa que tinha a fazer era empurrar a bola, com o guarda-redes completamente fora da baliza... E atirou-a por cima da trave! Um golo que teria sido decisivo! Nós estávamo-nos absolutamente nas tintas para esses miseráveis da Napolera. Espero, pelo menos, que o pontapé que lhe dei, e que o mandou para os anjinhos, o tenha ensinado a rematar como Deus manda.

JOSÉ RICARDO NUNES (Lisboa, 1964) é licenciado em Direito e exerce funções no Ministério da Justiça. Mestre em Literatura e Cultura Portuguesas (Época Contemporânea), publicou "Na Linha Divisória" (Campo das Letras, 2000), obra à qual foi atribuido o Grande Prémio Eugénio de Andrade 2000, e "Novas Razões" (Gótica, 2002). O seu primeiro livro, porém, foi "Rua 31 de Janeiro (algumas vozes)" (&etc, Lisboa, 1998), que resultou, adivinhamos, de uma experiência literária directamente influenciada pela sua actividade profissional, dado o autor trabalhar no Instituto de Reinserção Social de Reclusos de Caldas da Rainha. Alguns poemas:



quando o guarda abre de manhã a minha cela
dizendo as horas sempre à mesma hora
as mãos tremem por uma dose
de pó um sol para queimar
o tempo vendido aos pacotes

desde que me transferiram para aqui
condenado injustamente a dezoito anos
deixei de sonhar com a liberdade

mas antes de em vão tentar provar a minha inocência
de me ter esgotado nos recursos
eu era um outro homem
recebia visitas e correspondência da família
confiante sonhava com os olhos da patrícia


*****


quando os meus pais souberam
que fora eu quem assaltara a igreja
roubando o dinheiro das esmolas
para pagar aos amigos copos de vinho
e que até desfigurara o rosto dos santos
em meu nome pediram desculpa ao padre
e mandaram rezar missa
como se estivesse morto


*****


chegava a roubar oito automóveis só
numa noite ao volante apertava
outras mãos nas minhas e sobrepondo
as impressões digitais imaginava
o nome a idade quem seria
o condutor e guiava como ele
por momentos vivendo a sua vida

3 comentários:

Rita disse...

Uma amiga minha representou alguns destes poemas na Comuna, há uns anos atrás. Acho-os absolutamente fabulosos, exactamente pelo que o João diz: que são hinos à impaciência, à intolerância, àquele momento em que uma torrente nos invade e não conseguimos travá-la. A linha é tão ténue...

Unknown disse...

Este poema é do william jackson certo?

Deslavado cambaleio descalço nas
exoferomonas dos coitadinhos, ameijoas
defende-me do musgo escorregadiço por
contracto contrapartidário, com voz grossa
nada ameaçadora, é antes humidade endividada
ao sílex que já javardou riso sobre a distorção
das guitarras eléctricas, isto quando compete em
palco pela sonolência de tripas anti-inflamatórias
na mais procurada lixeira deserta em
forma de ilha, com alemãs tatuadas claro –
CDS/PressãoPosta – vou magoando-vos os
caules dos pés alagadiços, lambendo
os restos de estufado de entrecosto
deixado vomitado num beco sem jeito,
vizinhança de kits acarinhados para poucas
bases de amoníaco e detergentes aFIMs,
manchas de cadela chichizáda territorial,
untuosa esporra de aviador com vertigens
e, ainda, complexados cortes que arrastam
herpes roubada, como estou, pouco afectam;
vamos é deitar-nos descerebrados,
esmagados um no outro aguardando
deixarmos de adorar onde estamos e
podermos remar do fundo do lar até à
superfície dos amanhãs, onde voltaremos a
espraiar-nos neste colo de esconsa exultação,
nem nos lembraremos é o que vale, murchar
despegados em depressões desembainhadas
desde a primeira vez em que nos enevoámos
com as raias e faisões engatilhados, há bocado,
contra as recauchutagens obrigatórias dos
trémulos estratagemas do sucesso social,
mais logo, apoderado níquel estafermo
fragmentado em envergonhada confiança de
insolente penitente; no cartão solitário
nenhuma lei conquisto, força foi expulsa
e só resulta se alguém recusa o que o corpo
N-E-C-E-S-S-I-T-A, troquei de auges
pela inanidade dum túgurio anoréxico
à espera de explicações para a salvação
discuto com as unhas que deixei de roer
e empurro o braço trémulo em direcção
ao honda civic já estacionado, cujo
condutor foi lesto demais para ser cravado,
enquanto a anchova andante revirava os
olhos, atingia o típico nirvana tóxico,
balbuciava entregengivas, com tom de
professor, o glaucoma que demora a vir
requisitar tal tarte a emoldurar em galeria
de arte viva e jurava ser bom, nem merecer
estar apontado por injustas crianças ensinadas
a evitar imitar as mímicas de quem já fui;
actualmente, misónico, calafeto catrefadas
de redis em remorsos na minha teia de cordel
a tiracolo que se enquistou na auto-estima
lentamente, até nada ser depreciativo e
meu objectivo ser conseguir levitar assério;
mas é que em todos, por debaixo do sobrado,
habita arreigada e tantaDORa personagem em
catálise devido à sua ervanária de trato fácil e
recompensa sobranceira, pois sempre que te
picas a colher rosas de artemísia, ou dúzias
de pétalas com desdém se despedem de ti,
ou plantas anualmente algarobas na campa
inexistente da tua família arco-íris
que nem sequer nunca te quis bater,
Aconteço, e o tempo goza do reinado
sem consciência de suas dobradiças,
poucas são penincilinas tão saudáveis
como é leres minhas desgraças insolentes
para prevenir consumo de anfetaminas
quando a personalidade é argamassa ainda,
podes ser presenteado com urticária que
qualquer chapada na cara arremessa para
uma serrania barata denomiNADA de casa.

joão meirinhos 2004 in
QUIMICOTERAPIA - algures em nenhures deitado a caminhar para onde nos disserem que estaremos mais inconscientemente completos ou vice-versa.

Unknown disse...

www.motoratasdemarte.blogspot.com