terça-feira, Dezembro 26, 2006

WALT WHITMAN

O desejo de WALT WHITMAN (Huntington, 1819 - Camden, 1892) foi sempre o de cantar em verso livre o homem moderno, o “homem novo”, com uma voz alegre, livre de inibições, enérgica e optimista, humana e humanitária, em contacto íntimo com a natureza e com a grandiloquência da América. “Leaves of Grass“, porém, foi considerado à época escandaloso, o que levou os seus leitores europeus a considerar Whitman bom demais para os americanos. William Butler Yeats, Ezra Pound, Hart Crane, William Carlos Williams, Fernando Pessoa, admiraram-no, como o louvaram mais tarde Allen Ginsberg ou Pablo Neruda, o chileno que lhe prestou tributo como pai fundador da poesia continental: Whitman fôra dos primeiros a trazer para a poesia o não-poético, o vulgar, o profano, em verso livre tomado hoje pela crítica especializada como tendo inaugurado o género Épico Subjectivo. Uma importante característica da personalidade de Walt Whitman menos vezes referida, é a importância que o americano deu em vida à caridade e ao altruísmo: em 1862, um ano após o início da Guerra Civil, seguiu para a frente de batalha para se encontrar com o irmão, George, que havia sido ferido em combate, e o que era para ser uma rápida visita de algumas semanas, cedo se transformou numa estada de cerca de dois anos em Washington, trabalhando em part-time para o exército, servindo como enfermeiro voluntário em hospitais militares, administrando cuidados de penso aos feridos, angariando dinheiro para caridade, confortando os soldados, escrevendo-lhes cartas para enviarem aos familiares, trazendo-lhes flores, frutos, tabaco e lendo-lhes poesia para os confortar - embora se diga, nunca os seus próprios poemas. O poema que a seguir traduzo – lido pela primeira vez numa versão de José Agostinho Baptista para a Assírio & Alvim (Lisboa, 1984), – é um dos mais belos poemas de amor que conheço, e foi retirado do livro “Calamus”, onde Whitman celebra o sentimento homossexual e a amizade masculina.



WHEN I HEARD AT THE CLOSE OF THE DAY

When I heard at the close of the day how my name had been
receiv’d with plaudits in the capitol, still it was not a
happy night for me that follow’d;
And else, when I carous’d, or when my plans were accomplish’d,
still I was not happy;
But the day when I rose at dawn from the bed of perfect health,
refresh’d, singing, inhaling the ripe breath of autumn,
When I saw the full moon in the west grow pale and disappear
in the morning light,
When I wander’d alone over the beach, and undressing, bathed,
laughing with the cool waters, and saw the sun rise,
And when I thought how my dear friend, my lover, was on his
way coming, O then I was happy;
O then each breath tasted sweeter – and all that day my food
nourish’d me more – and the beautiful day pass’d well,
And the next came with equal joy – and with the next, at evening,
came my friend;
And that night, while all was still, I heard the waters roll
slowly continually up the shores,
I heard the hissing rustle of the liquid and sands, as directed to
me, whispering, to congratulate me,
For the one I love most lay sleeping by me under the same cover
in the cool night,
In the stillness, in the autumn moonbeams, his face was inclined
toward me,
And his arm lay lightly around my breast – and that night I
was happy.



§



QUANDO OUVI PELO FIM DO DIA

Quando ouvi, pelo fim do dia, como o meu nome havia sido
recebido com aplausos no Capitólio, ainda assim não foi
feliz para mim, a noite que se seguiu;
E, quando festejei, ou, quando os meus planos foram atingidos,
assim mesmo não me senti feliz;
Mas, no dia em que cedo me levantei, de perfeita saúde,
renovado, cantando, inalando o maduro fôlego outonal,
Quando vi a lua cheia, a oeste, ficando pálida e a desaparecer
na luz da manhã,
Quando vagueei sozinho sobre a praia e, despindo-me, me banhei,
rindo com as águas frias, e vi o sol nascer,
E quando pensei em como o meu querido amigo, o meu amante, estava a
caminho, Oh, então senti-me feliz;
Então, cada fôlego me foi mais doce – e todo o dia, meu alimento
me nutriu mais – e o belo dia passou bem,
E o seguinte chegou com igual alegria – e com o próximo, pelo fim da tarde,
chegou o meu amigo;
Naquela noite, quanto tudo estava calmo, ouvi as águas rolar
continuamente, lentas sobre as margens,
Ouvi o assobio sussurrado do líquido e das areias, como que dirigindo-se a
mim, cochichando, felicitando-me,
Porque aquele que amo dormia comigo sob a mesma coberta
na noite fria,
No sossego, nos outonais raios de luar, seu rosto inclinado
sobre mim,
Seu braço em redor do meu peito, suavemente – e naquela noite
fui feliz.



9 comentários:

rafael disse...

ultimamente tem-me subido à boca, quase como uma suave música ou perfume:
'porque aquele que eu mais amo dormia a meu lado sob a mesma manta na noite fria. na quietude daquele luar de outono o seu rosto estava inclinado para mim e o seu braço repousava levemente sobre o meu peito - e nessa noite eu fui feliz.'

é do mais bonito que já ouvi para dizer o mesmo que amor.

kubrick disse...

Engraçado. Ia escrever um comentário no seu post sobre o Sam Sheppard, porque é também um dos livros em destaque na minha bibliotecazinha pessoal quando vi o nome do Whitman em baixo.

Quando me casei, eu e a minha esposa decidimos que a temática da festa seria a poesia e demos a cada uma das mesas da boda o nome de um poeta, oferecendo como recordação do casamento, um poema do autor da mesa a cada convidado nela sentado. Penso que era 10 ou 11 mesas, já não me recordo bem, mas uma delas era, obviamente, a do Whitman, e o poema que nela foi oferecido foi o poema que aqui traduziu, também para mim, um dos mais belos poemas de amor que já li!

Nuno Gouveia disse...

Os leitores deste blog são extraordinarios.

Almeida disse...

Legal o post que vc fez sobre Whitman .Tava navegando pelo grande oráculo que tudo sabe,grande google,pra tentar encontrar alguma poesia do Whitman pra eu me alegrar e me deparei com seu blog
Parabéns!

Nutty disse...

Adorei o poema, um dos poemas mais bonitos que já li :D

Kika Pagano disse...

" I Sing the body electric".
Olá meu nome é Kika e, que grata surpresa encontrar o blog de vocês.
Amo este barbudo altivo da America.
Estava escrevendo um post no meu blog: viladesaosebastiao.blogspot.com, citei Whitman e queria um link sobre ele, daí em diante já sabem.

Eliana Gerânio Honório. disse...

02/10/09

É UMA GRANDE HONRA VIR AQUI!


Muito obrigada.

Adriana Godoy disse...

Belo poema, belíssimo!

rosihappy disse...

Ah, o maravilhoso sentimento de Withman!
Procurava um Blog de leitores de Walt Withman e aqui entrei.
Desejo conhecer melhor este poeta da liberdade.
Parabéns a todos vocês!