sábado, dezembro 30, 2006

SAM SHEPARD

(Este post é para o Rui Pires Cabral)

Em 1994 e 1995, enquanto escrevia “Lugares Comuns” (Mariposa Azual, Lisboa, 2000), procurei ler - ou reler - uma matilha de autores que, de alguma forma, explorassem a pequena crónica quotidiana ou a prosa poética como géneros literários de eleição: recordo-me de revisitar abundantemente uma cópia antiga do “Livro do Desassossego”, de Bernardo Soares ou, mais vezes ainda, “O Spleen de Paris - pequenos poemas em prosa” (Relógio d'Água, Lisboa, 1991, tradução de António Pinheiro Guimarães), de Charles Baudelaire. Porém, as duas leituras que mais informaram a minha vontade de registar semanalmente, durante um ano, o espaço humano e urbano de um Café como se de um micro-cosmos de solidões se tratasse, foram as traduções que Luís Miguel Nava publicou na Hífen n.º5 (Cadernos Semestrais de Poesia, Março 1990, dir. Inês Lourenço) dos poemas em prosa poética do francês Alain Morin, e as “Motel Chronicles” de Sam Shepard (“Crónicas Americanas”, Difel, 1982, tradução de José Vieira de Lima). Não me custa aqui revelar que esse é um dos livrinhos da minha vida.

SAM SHEPARD (Fort Sheridan, Illinois, 1943), argumentista de “Paris-Texas”, de Wim Wenders, é um dos mais importantes dramaturgos americanos de sempre. Galardoado com o Prémio Pulitzer para o Teatro, em 1979, com “Buried Child”, passou parte da sua adolescência no Canadá e o universo da sua escrita é povoado pela errância de viajantes fortuitos, cantores de rock, cow-boys, motoristas de camião, e toda uma extraordinária plêiade de personagens que deambulam ao acaso pelas planícies interiores do deserto americano, em cidadezinhas que mal se avistam no mapa. Já em 1997, a Difel publicou “Cruising Paradise” (“Atravessando o Deserto”, tradução de José Vieira de Lima), e em 2004, a Relógio d’Água editou “Great Dream of Heaven: Stories” (“O Grande Sonho do Paraíso: Histórias”, traduzido por Margarida Periquito). Mas desta vez é a “Hawk Moon” (“Lua Falcão”, Quetzal, 1988, tradução de José Luís Luna), e ao sublime “Motel Chronicles”, que vamos roubar duas crónicas. Roubar com a devida vénia, é claro. É um pouco como levantar o véu ao DNA dos autores dos anos 80. Eu próprio cheguei a fotocopiar as duas páginas da crónica “Por volta dos anos 70”, para enviar ao Álvaro Costa, na altura na Antena 3, pedindo-lhe que a lesse no ar imediatamente antes dos primeiros acordes da guitarra de Adams rasgarem o ar com “Summer of 69”. Ele ignorou o meu pedido, provavelmente bem... Aqui está de novo “Por volta dos anos 70”. Para aqueles que tiverem por aí o disco de Brian Adams, deixo hoje isso ao vosso critério.



POR VOLTA DOS ANOS 70

A malta pedia a Deus um salão de bilhar e andava à pancada todas as sextas-feiras à noite mesmo no meio da estrada, impedindo o tráfego. Sem facas, armas de fogo ou correntes. Só ao murro. Ninguém estava ali para levar aquilo a sério. Não era como os combates de rua nas grandes cidades. Os bailes em Diligent River atraíam sempre imensa gente e, como nos velhos tempos do El Monte Legion Stadium, por dá cá aquela palha rebentavam violentas brigas entre vilórias rivais. O grande culpado disto tudo era o tédio. Nem empregos nem salões de bilhar, dez gajos para uma miúda que, regra geral, era um coiro, péssimas estações de rádio, só velhos a morrer e bêbados, festas de caridade, um baile por mês onde nem sequer se dançava rock, uma máquina de discos que nunca mudava de repertório, invernos cobertos de neve em que fazia um frio de rachar e verões encobertos. A coisa mais empolgante que podia acontecer era alguém matar um alce ou um urso, mas até isso era muito raro. Foi então que chegaram os americanos. Primeiro a conta-gotas e, depois, uma autêntica enxurrada. Desertores, criminosos, tipos fugidos das cidades que cresciam por toda a parte. Estranhas publicações pornográficas começaram a circular pelas aldeias. Páginas inteiras, às cores, cobertas de pichas e conas, mamas e cus. O cheiro a drogas impregnou a atmosfera como uma brisa marítima. A música de rock and roll vibrou baixinho e acabou por explodir estrondosamente do lado das florestas, abafando o ruído das serras mecânicas. Surgiram cabanas de índios e esquisitas construções em cúpula de cores berrantes. Estandartes com longas fitas esvoaçavam nos campos para grande espanto dos corvos. Monstruosas motas pretas todas cromadas chafurdaram nas picadas. Estampidos de choppers e hogs rugindo através das aldeias de pescadores. Cartazes dos Rolling Stones colocados nas paredes dos celeiros e das igrejas. Raparigas da terra tatuadas em sítios que nunca nos teriam passado pela cabeça. A Polícia Montada foi alertada, mas as coisas já iam demasiado longe. Já não se conseguia distinguir a rapaziada canadiana da americana. Toda a gente a foder e a chupar, a fumar charros, a chutar e a dançar. E, muito ao longe, podia-se ouvir o barulho da América a rachar e a despenhar-se no mar.



*****



O meu pai tem uma colecção de discos metidos em caixas de papelão, arrumadas contra a parede do quarto, que se vai enchendo da poeira do Novo México. Nesta colecção, o campeão é um Al Jolson original, em 78 rotações, com a capa colada com fita adesiva e até a fita está meio rasgada. Da última vez que o vi, tentou convencer-me a levar o disco para L.A. e a vendê-lo por uma boa maquia. Está convencido de que vale, pelo menos, mil dólares. Talvez mais, consoante o mercado. Diz que, nos últimos tempos, tem perdido o contacto com os negócios.
O meu pai tem um quadro, na parede da cozinha, por cima do lava-loiças, que mostra uma señorita espanhola toda empoada. Tem mesmo. Leva-me a ver o quadro e ficamos ambos a apreciá-lo. «As pessoas pensam que ela deve estar nua, debaixo daquilo, mas aposto que tem alguma coisa vestida», diz ele.
Uma vez, guiou-me numa visita a todas as suas paredes. Todas as suas paredes estão cobertas por quadros e gravuras. Recortes de revistas de uma ponta a outra das paredes. Cada quadro ou recorte é um ponto de vista. Como se nos debruçássemos de várias janelas sobre paisagens emaranhadas. Observo os quadros. Uma queda de água com rochas verdadeiras coladas em primeiro plano. Rochas que achou que ficavam bem no quadro. Um cão branco com um peixe verde na boca. Cactos Saguaro ao pôr do sol, recortados de uma Arizona Highways de 1954. Um orangotango cor de laranja brincando com os órgãos genitais. Uma esquadrilha de bombardeiros B-52 em pleno voo. Uma colagem de rostos salpicada de manchas de gordura.
O meu pai tem uma colecção de beatas numa lata de café Yutan. Compro-lhe um maço de Old Golds mas nem lhe toca. Continua a vasculhar tabaco nas beatas e enrola tudo o que encontra, em cima de um saco de mercearia, de forma a não perder o mais ínfimo bocadinho. Olha desdenhosamente para o meu maço de cigarros, vermelhos e brancos e enrolados na fábrica.
Gastou em Bourbon todo o dinheiro que eu lhe tinha dado para comida. Encheu o frigorífico de garrafas. Tinha o cabelo cortado rente, tal qual um piloto da segunda guerra mundial. Brilhavam-lhe os olhos de contentamento sempre que passava a mão pelo cabelo rente e duro que nem cerda. Dizia que costumavam cortá-lo assim rente para que os capacetes pudessem encaixar bem nas cabeças. Mostrava-me as cicatrizes dos estilhaços ainda nítidas na nuca.
O meu pai vive sozinho no deserto. Não se dá com gente, diz.

4/79
Santa Fé, Novo México



4 comentários:

Simone Oliveira Lima disse...

muito interessante esse "poesiailimitada".
ousei colocar teu blog em meus links.

abraço,

simone

manuel a. domingos disse...

é um autor de quem muito gosto

António Oliveira disse...

Um Bom 2007, com muita e boa poesia.

Mary disse...

por acaso não tens os livros de poemas dele? ou sabes de alguém que os queira reeditar? fazem-me falta. muita falta