terça-feira, janeiro 12, 2016

LIEKE MARSMAN



LIEKE MARSMAN (Zaltbommel, 1990). Jovem poeta holandesa que começou por publicar poemas na  revista literária Tirade, onde tem um blog e faz tradução de jovens poetas americanos contemporâneos. Em 2010 publicou o livro Wat ik mezelf graag voorhoud (Do que eu gosto de me convencer) que ganhou de imediato três prémios literários, entre os quais o prestigiado Prémio C. Buddingh para melhor estreante de poesia. Em 2014 foi editado o seu segundo livro, De eerste letter (A primeira letra). Ainda numa viagem de descoberta da sua voz, a poesia de Lieke Marsman é acessível, introvertida, sensível e analisa o interior do indivíduo, não descurando o que o rodeia. Os tópicos giram em torno da incerteza e da dúvida, qualquer que ela seja: insegurança social, a infância, questões existenciais, grandes e pequenas dúvidas sobre comportamentos, medos e relacionamentos humanos. Isso repercute-se num eu que interroga, sonha, por vezes analisa. Numa entrevista dada à (também ela) jovem crítica literária Marleen Louter, diz Lieke Marsman: “Um poema meu não é necessariamente um poema sobre a minha pessoa. O início do poema tem a ver comigo, mas depois aumento coisas, escrevo sobre outras pessoas a partir da minha perspectiva”. E, noutra parte da entrevista diz: “É uma espécie de contraste (...) pôr sob a forma de um enunciado bonito coisas que talvez não o sejam na realidade.” Lieke Marsman é considerada uma grande promessa das letras holandesas.
Eis alguns poemas, em mais uma tradução de Leonor Raven.
 
 
ENTRETANTO
Às vezes, somente penso
que devo escrever o mais depressa possível
um conto sobre uma paisagem de neve. Enterrar-me até à relva,
calçada de botas de neve e, escavar avalanches ocas. Se olhar,
conheço os nomes de todas as plantas de cor
sobre elas cantarei em tons de dança
até ficarem de novo a descoberto.
 
Deixarei pedaços da minha úvula no ar,
vazia a minha garganta. Devagarinho, a minha voz
amarrotará estas paredes de neve
até haver tanto lodo
que não conseguiremos caminhar.
 
Ser levada lentamente pela corrente
com as rochas e os ratos, os pinheiros e
os campos, capelas, as imagens da Virgem
que usam os altares como navios.
 
Cantarei tão alto que
o musgo liquefar-se-á.
 
Cantarei tão alto que
a montanha derreter-se-á.
 
Cantarei tão alto que
voltará a ser possível afogarem-se
cavalos no pântano aos meus pés.
 
(De Wat ik mijzelf graag voorhoud, 2010)
 
 
§
 
 
COMO PALAVRAS
Não preciso de pôr um ponto final
a algo que está irrevogavelmente suspenso.
 
Não me devo esconder no rosto de outra pessoa ou
ficar desanimada com isso. Devo projectar algo
que irá descobrir-se ser um mapa, iniciar uma viagem
bela e inesgotável como palavras, como palavras.
 
Não preciso de abrir uma porta
para a deixar entrar.
 
Tão-só fechar uma janela
que ela irá querer arrombar.
 
(De De eerste letter, 2014)
 
 
§
 
 
5
 
Se a palavra angústia começasse pela primeira letra do alfabeto em cada língua
Se eu acordada pensasse que iria despertar de repente
Se eu visse constantemente algo mexer-se no canto do olho,
Sendo contudo sempre uma árvore existente
Se eu tivesse medo de repentinamente começar a pensar que
tudo girava à volta da minha pessoa
Se tudo girasse à minha volta
Se eu esperasse que a minha respiração recuperasse espontaneamente
porque me tinha esquecido que já o fazia, como uma criança
que pensa que vai deixar de ter oxigénio durante o sono
Se eu fosse novamente essa criança
Se eu tivesse medo que a partir de agora o tempo deixasse de passar,
o que me obrigaria a ficar neste momento para sempre
Se me culpasse de ser paradoxal, seria logicamente obrigada
a perdoar-me ao mesmo tempo
Se eu pensasse que de repente o mundo se abriria
Sob a forma de um olho de gato ou de uma vagina:
 
Aqui
ergue-te, abre uma janela
com uma mão que sentes, à vista
de alguém que queres sentir,
no reflexo da janela fechada.
 
( de De eerste letter, 2014)