terça-feira, janeiro 12, 2016

JANNAH LOONTJES

 
 
JANNAH LOONTJES (Copenhaga, 1974). Filha de um casal de hippies que se mudou pouco tempo após o seu nascimento para a Suécia, dividiu os anos de infância entre esse país e a Holanda, até se mudar definitivamente com a mãe para a Holanda, onde estudou Filosofia da Arte na Universidade de Amesterdão. Depois da licenciatura, estudou Filosofia  em Nova Iorque, na New School for Social Research. Em 2012 doutorou-se em Estudos Literários na universidade de Amesterdão.
Poeta, prosaísta, filósofa, docente de análise literária e de filosofia, Jannah Loontjes publicou em 2002 o seu primeiro livro de poesia intitulado  Varianten van nu (Variações  Actuais) . Em 2006 foi publicado o seu segundo livro, também de poesia, Het ongelooflijke krimpen (O encolhimento inacreditável). Estreou-se como romancista em 2007 com o romance Veel geluk (Boa Sorte),  a que se seguiu  em 2011 o romance Hoe laat eigenlijk (Que Horas São Estas?), muito bem acolhido pela crítica e nomeado para o Prémio Literário Halewijn.  O ano de 2013 foi especialmente frutífero, tendo publicado um livro de poesia Dat ben jij toch (És tu porém) e um conjunto de ensaios intitulado Mijn leven is mooier dan literatuur (A Minha Vida é Mais Bonita do que a Literatura). Jannah Loontjes escreve ainda críticas literárias para vários jornais e revistas de referência, assim como ensaios sobre poesia e filosofia.
Embora o tom usado na sua obra poética seja ligeiro e gracioso, os temas que aborda podem envolver questões tão antigas como a Humanidade; questões existenciais que todos nós alguma vez nos colocamos. Loontjes mostra interesse em compreender o que sentimos, o que pensamos, como reagimos em grupo ou individualmente, e, aquilo que nos torna únicos como seres humanos. Muitas poesias incidem sobre a vivência do indivíduo numa situação concreta, utilizando uma linguagem acessível, a que não faltam os sons nem as cores. A sua poesia é sobretudo uma expressão da sua admiração e curiosidade pelo que nos rodeia.
Em mais uma excelente tradução de Maria Leonor Raven-Gomes, quatro poemas.


§ 


TAMBÉM

Mãos inexistentes segurando coisa nenhuma
zero graus talvez existam,
contudo. O leite também azeda
com a trovoada. Os vulcões têm nomes
permanentes, mesmo se não expelem lava.
O mesmo nome não promete que
sejamos semelhantes. Água e fantasmas
conseguem atravessar muitas coisas.
Consegues ver através de nada? Os fantasmas
vivem, sim e não. Ausente é quando estás
não estando. Às vezes sinto a tua ausência
mesmo estando tu presente. Às vezes estás
sem seres  aquele de quem sinto a falta.
Nem todas as nuvens têm um nome.

(de Dat ben jij toch, 2013)

§


TRASEIRAS

Abro a porta, entro na varanda. Noite.
Nos quintais vestígios de pombos. Neve
que jaz ao acaso. Um gato sob um arbusto
sacode o pêlo, embosca uma sombra. 

A lua descansa sobre um telhado. Cortada por vozes
que cantam. Al Jazeera.
Roupa enregelada pendurada num silêncio de morte.
A camada branca ocupa tudo sem vergonha, faz amizade

com ombreiras pálidas, grades de varandas, antenas parabólicas.
Também eu pertenço aqui. Sozinha. Porém,
rodeada de gente e animais.
Porém e porém. Isto é tão inverno, tão noite
como uma noite de inverno. Aspiro. Cheiro. Lixo.
Humidade. Cozinha. Pêlo de gato.

(de Dat ben jij toch, 2013)

§


PANORAMA

A noite paira sobre a cidade
imóvel como numa fotografia,
um filtro de crepúsculo lilás
granula o panorama,
entranha-o como
folhas de chá
em água a ferver
e descolora  a vida
como algo
numa velha fotografia polaróide
que mais tarde
quando espero esquecer
me irá recordar
flâmulas de paixão
nas quais o teu nome ondula
como um cachecol perdido
em dias tímidos de inverno.

(de Varianten van nu, 2002)

§


ENFADO

Como uma ligadura de gesso
o tempo enrolou-se à volta das
minhas pernas,
nada vejo à minha volta
ou parece que tudo desapareceu.
Amanhã e ontem colocam-me
as mesmas questões
hoje dobra-se entre
o papel empoeirado
de um pesado livro enfadonho
em cima da secretária,
aonde me sento
e sento.

(de Varianten van nu, 2002)

1 comentário:

governor disse...

sátiras de um Visconde

Não embaraço em
considerar ser mal
o desempenho.
a imitação dos
que dão à estampa
dos meus escritos,
a formosura sem
indecentes adornos,
adornada de virtudes;
um sábio virtuoso,
entre os inimigos
da verdade não
se lhe apoucam as luzes,
que conduzem para
a glória das majestades
o horror,
com que os justos
sabem ver o
indigno aspecto da lisonja
nem me arrisco a
mentir o errado,
faço bem o meu ofício,
calado,
como tu o teu,
falado
para pintar majestades,
não me faltam
os pincéis de Apeles,
o amor da honra, o
horror da culpa,
a inclinação às ciências,
o perdoar a inimigos,
a compaixão da pobreza,
Oh príncipes
queria vos mostrar com
cânticos,
que as lágrimas
eram nascidas do júbilo,
e a formosura triunfa,
quando a virtude,
é constante...

Carlos Ac Liberal