terça-feira, outubro 22, 2013

NOTAS SOBRE LIVROS (16)


MIGUEL MARTINS
Lérias
Lisboa, Averno, 2011
 
 
por JOÃO PAULO SOUSA
 
 
Na aparente atitude de desvalorização do que nomeia, o título desta obra de Miguel Martins (dotada de um grafismo raro e belo, da responsabilidade do também poeta Rui Pires Cabral) escapa por instantes à ingenuidade que contamina alguns dos seus textos. São poemas em prosa, que oscilam entre um registo a roçar o desvelamento de traços biográficos do sujeito poético e a manifestação de opiniões ou de opções existenciais. Neles constata-se, por vezes, uma força e uma segurança assinaláveis, mas não menos vezes tem-se a impressão de que o poema se estendeu para lá do que seria desejável – perdendo o fulgor que a contenção lhe poderia ter dado – ou que não ultrapassou o mero registo dos sinais inerentes a uma atitude contestatária. Assim, se há momentos bem conseguidos, que abrem ao leitor uma perspectiva menos expectável acerca de um determinado assunto, outros há que, alheados da ironia, se ficam pela manifestação de um olhar em que um certo tom de revolta não chega para dissimular a candura, que é a sua característica mais marcante. Veja-se, a título de exemplo do primeiro caso, a abertura do poema 13, «Do tacto», e repare-se como ela nos conduz até uma ideia de libertação habilmente enunciada:
 
Do tacto pouco se fala, e quase sempre em sentido figurado. O tacto é, contudo, o mais interessante dos cinco sentidos, o menos embotado por excessos de informação, o menos sujeito a ideias de gosto, pré-concebidas por outros, o que ainda nos pode dar prazeres em estado mais puro, menos sujeitos a racionalizações, na fronteira entre o medo e a entrega. (p. 21)
 
No fundo, é talvez sobre esta oscilação entre o medo e a entrega que se constroem os poemas em prosa deste livro de Miguel Martins. Se é notório que todo o seu apoio recai sobre o segundo termo, também não deixa de ser verdade que uma entrega carregada de autenticidade está longe de ser o melhor ingrediente para uma construção poética. Um texto como «Bartleby Bar (Lisboa, década de 2010)», por exemplo, não chega sequer a parecer um manifesto de intenções, antes se assemelha a uma declaração de pertença a um grupo (edição Averno oblige?), nimbada de uma ingenuidade talvez tocante (alguns, claro, diriam autenticidade, esquecendo a dimensão irremediavelmente artificial da arte):
 
Um projecto que, para mais, não tem plano de acção, calendário ou objectivos que não os que ele mesmo comporta. A recompensa de o ir pondo em prática confina-se, precisamente, ao prazer de pô-lo em prática. E isso basta-nos. (p. 25)
 
Ainda bem. Já para fazer literatura, no entanto, é que isso não basta, e esse, ao que parece, até era o principal propósito deste livro.

Sem comentários: