quarta-feira, outubro 09, 2013

NOTAS SOBRE LIVROS (15)

HORÁCIO
Arte Poética (Epistola ad Pisones, c. 14-8 a. C.)
Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2012
 
 
por JOÃO PAULO SOUSA
 
Quem tiver presente na memória a passagem de Raul Miguel Rosado Fernandes pela política há-de recordar-se de um homem determinado, com algum sentido de humor, embora associado a um ou outro momento de alguma truculência, na aparência pouco compatível com um cuidado tradutor de Tucídides e de Horácio. Ora, a lembrar-nos esse rigoroso trabalho, a Fundação Calouste Gulbenkian colocou recentemente nas livrarias uma nova edição (a quarta), revista e aumentada, da Arte Poética do autor latino. Na verdade, esta tradução de Rosado Fernandes, em assinalável edição bilingue, comporta, para além da célebre Epístola aos Pisões (que a tradição entendeu renomear mais em consonância com o assunto de que se ocupa), três outros textos: a Sátira IV do Livro I, a Epístola I do Livro II, dirigida a Augusto, e a Epístola II do Livro II, endereçada a Floro. Se acrescentarmos o prefácio, a introdução, as abundantes notas, a bibliografia e o índice onomástico, temos uma ideia da qualidade do pequeno volume, que apenas fraqueja na pontuação dos textos em português (as traduções e os outros), com demasiadas vírgulas mal colocadas ou por colocar.
 
Na primeira das referidas epístolas, Horácio (ou Quinto Horácio Flaco, de seu nome completo, devidamente traduzido para o português contemporâneo) defendeu o valor da obra de arte como independente do tempo histórico em que tivesse sido produzida; ao mesmo tempo, afirmou a necessidade de um aprofundado conhecimento técnico para se praticar a arte literária. Na outra epístola, que talvez fosse uma resposta ao pedido de versos por parte de Floro, o autor romano esquivou-se a essa provável solicitação com humor e audácia, mostrando a sua indisponibilidade para escrever poemas apenas porque alguém lhe solicitava tal, e defendeu que o importante, na verdade, consistia em produzir algo de qualidade.
 
Finalmente, na epístola que dirigiu aos Pisões – personalidades romanas cuja identificação rigorosa e consensual ainda não foi possível –, Horácio teorizou mais amplamente sobre literatura, e fê-lo de um modo que resistiu à passagem dos séculos, tornando o seu texto uma referência incontornável, nem sempre bem citada, da reflexão poética. Principiando com a defesa da unidade da obra de arte, através do exemplo inicial da pintura de um ser híbrido, prosseguiu com a afirmação categórica da necessidade de equilíbrio na criação artística, a que juntou outra ideia não menos importante:
 
 
Vós, que escreveis, escolhei matéria à altura das vossas forças e pesai no espírito longamente que coisas carregam e as que eles não podem suportar. A quem escolher assunto de acordo com as suas possibilidades nunca faltará eloquência nem tão-pouco ordem luzida. (pp. 109-111)
 
 
Eis aqui um tópico que tantos autores parecem esforçar-se por esquecer, escrevendo, não de acordo com aquilo a que, provisoriamente – à falta de melhor definição –, poderíamos classificar como verdade interior, mas em sintonia com o que entendem ser mais próprio desse fantasma a que chamam espírito da época, acabando assim por falsificar e arruinar irremediavelmente a sua produção artística (e não cabe aqui discutir se quem assim procede não o faz precisamente para esconder a inexistência de qualquer verdade interior que pudesse sustentar uma obra de arte digna desse nome).
 
A este princípio de adequação soube Horácio associar a defesa da técnica como elemento decisivo para a criação poética, assinalando desde logo a importância de um factor que, ao longo dos séculos, tantos zombeteiramente desprezaram:
 
 
Se não posso nem sei observar as funções prescritas e os tons característicos dos diversos géneros, por que hei-de ser saudado como poeta? Qual a razão por que prefiro, com falso pudor, desconhecê-los a aprendê-los? (p. 119)
 
 
A consequência que daí retirou o poeta romano é bem clara: a literatura é um trabalho árduo, e quem disso não se convencer perde o seu tempo a compor versos, que deles não ficará memória. Para além de recomendar que se censure todo o poema que não tiver sido longamente retalhado e aperfeiçoado, sem que o cansaço possa, em algum instante, justificar o desânimo do autor, Horácio traçou uma apologia da excelência na criação literária que deveria fazer corar de vergonha todos aqueles (e não só) que desatam a juntar frases porque lhes ocorreu, de passagem, que tinham algo para dizer, confundindo obtusamente a arte com esse lamentável «algo para dizer»:
 
 
Tu, (…) conserva bem na memória o que te digo: nas coisas positivas se concebe tolerável mediania e qualquer jurisconsulto ou advogado mediano, se não chegou à habilidade do eloquente Messala ou à ciência de Aulo Cascélio, nem por isso deixa de ter o seu valor. Mas os poetas medianos, esses não os admitem nem os deuses nem os homens, nem as estantes dos livreiros. (p. 151)
 
 
 

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