quinta-feira, setembro 26, 2013

Notas sobre livros (14)

GOLGONA ANGHEL
Como uma Flor de Plástico na Montra de um Talho
Porto, Assírio & Alvim, 2013


por JOÃO PAULO SOUSA


É como poesia dramática que se oferece ao leitor este volume de Golgona Anghel. Uso o adjectivo no mesmo sentido em que o empregou Pessoa para se referir à sua própria obra, na medida em que ela pressupunha – como também é agora o caso, embora em moldes diferentes – a construção de diversas personae, que respondiam artisticamente pela elaboração dos poemas. No livro agora editado pela Assírio & Alvim, essas figuras dialogam frequentemente com outras, de pendor manifestamente literário e diferentes graus de explicitação; não se trata, porém, de invocações respeitosas, mas de afinidades electivas, e tão delicadamente referidas que o nome é, por vezes, omitido, ficando apenas uma circunstância biográfica ou uma frase para tornar detectável essa cumplicidade:


Tudo o que não é literatura aborrece-me —
queixava-se um checo muito conhecido (p. 14);


ou


Nove anos depois de ter morrido em Barcelona,
na lista de espera para um transplante de fígado,
o poeta continua a ser redescoberto
como a pródiga chegada doutros tempos (p. 60).


O segundo exemplo evidencia a distância entre a literatura como trabalho individual e o aproveitamento que daí faz a grande maioria daqueles que poderíamos designar como promotores culturais (invoco aqui, naturalmente, a célebre noção adorniana de «indústria da cultura»). Ora, a esta distância correspondem, no livro de Golgona Anghel, os contrastes entre palavras ou expressões que apontam para domínios diferentes e até antagónicos. O exemplo do título, entre a suposta ingenuidade Kitsch da «flor de plástico» e a violência da «montra de um talho» (a fazer-nos pensar na pintura de Francis Bacon e na poesia de Luís Miguel Nava), prolonga-se, por exemplo, no título da primeira série de poemas («Fome e pedagogia», entre a urgência e a organização ou o instinto e a racionalidade) ou na relação de paronímia entre «grito» e «greta», que traduz com nitidez o desalento das vozes poéticas deste livro:


O desinteresse acumula-se à minha volta
como as camadas seculares
no tronco de uma sequóia.
Fico imune a queixinhas.
Lavo sozinho a minha roupa.
A minha língua está a ganhar uma espessura lenhosa.
No lugar do grito,
uma greta.
Mãos nos bolsos,
bico calado.
Evito vitrinas e espelhos.
Tenho medo que a verdade
me possa desfigurar o rosto (pp. 53-54).



A desolação é aqui sintomaticamente expressa pela passagem de uma a outra palavra. Se o «grito» representa a intensidade da vida, a plenitude da força humana, a «greta» resulta da «espessura lenhosa» da língua e apresenta-se como um sinal exterior de secura, de retirada da vida. O desalento em segunda mão – porque manifestado, ao longo do livro, pelas diferentes personae –, tão difícil de encarar que obriga a evitar os espelhos, mostra-se, assim, como uma das matérias que enformam a construção poética desta obra.




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