sábado, maio 09, 2009

BÉNÉDICTE HOUART

BÉNÉDICTE HOUART (Bélgica, 1968) acaba de publicar o seu terceiro livro de poemas "Aluimentos" (Cotovia, 2009) e é, para dizer o mínimo, muito original a sua proposta poética. Os assomos de Bénédicte - entre a ironia e o sarcasmo - dão-se a ler dando a ver seu esqueleto, como se de artes poéticas se tratassem, permitindo a autora que o leitor tenha acesso às hesitações da sua voz - à progressão dos próprios poemas, - desembocando estes habitualmente num efeito de surpresa gorando, e bem, as expectativas do leitor. Já assim era em “Reconhecimento” (Angelus Novus, Cotovia, 2005) e em “Vida: Variações” (Cotovia, 2008), numa linguagem que tanto acontece aproximar-se da erudição no mais puro diálogo intertextual com a tradição (de Camões a Pessoa, de Elisabeth Bishop a Sylvia Plath, de Sophia, a Florbela, a Adília, inclusive a Daniel Maia-Pinto Rodrigues, passando por alguma da poesia contemporânea brasileira), como pode assentar em laborações sobre jargões, vernáculo, clichés, provérbios ou o linguarejar popular, estratégia consciente que cria efeitos quer de reconhecimento quer de estranhamento, ainda mais se atentarmos que Bénédicte foi docente universitária de Estética na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Mero preconceito meu. A personna destes poemas são mulheres, (hereges, vividas, velhas, mães, prostitutas), que falam através de poemas que a melhor parte das vezes parece que não querem ser poemas, de tanto simularem desleixo e destilarem irrisão. O jogo, porém, é precisamente esse: desafiar a instituição poética na sua propagada eloquência, com a inteligência de quem sabe manusear a palavra, matéria-prima do poema. Aqui ficam 3 poemas do seu último livro, com a devida vénia:


§


falou-me com duas pedras na mão
eu atirei-lhas de volta
por pouco não lhe rachei a cabeça
parti o vidro duma montra
ficou parecida com uma teia de aranha
chovesse, então, era uma maravilha
veio um polícia e levou-me
bem lhe expliquei a situação
visivelmente não compreendeu
que uma metáfora por vezes
tem consequências pouco legais
multou-me e aconselhou-me
a não reincidir
coisa que fiz logo de seguida


§


o meu cão parece um coelho
eu pareço uma pessoa
por vezes, raras, as coisas parecem ser o que são
há quem se dedique a descortinar
vida fora tal contradição e
no fim, morra, como todos
sem ter percebido nada afinal

é a vida, a própria vida, queira ou não, deus ou outro qualquer


§


a pedicure disse-me que
os meus pés eram bonitos
apeteceu-me saltar-lhe
para os braços, mas
em vez disso, observei-a
não sem admiração
desconhecia que havia tantas
limas para a mesma ocasião
no fim, recusei pagar-lhe pois
o que ela havia dito
não tinha preço
falando, tirou-me uns calos que
há séculos me atormentavam


(aliás, as palavras são de graça
quanto mais beleza
a ninguém pertencem
a ninguém cabe vendê-las)




4 comentários:

Rute disse...

Maravilha.

:)

manuel disse...

Caros,

Algumas vezes citei o vosso blogue com muito apreço. É dos poucos que valem a pena. Isto apenas para dizer que tenho todo o prazer em que vão buscar ligações ao meu blogue; mesmo orgulho. Mas, tal como está na página de apresentação do blogue, não custa nada citar a fonte, coisa que sempre faço e me parece bonita.

Enfim, coisas sem importância.

Abraço, parabéns pelo vosso blogue.

Manuel Margarido
asfolhas ardem.blogspot.com

joaquim disse...

muito obrigado!

governor disse...

a poesia não se faz pelo
simples ensejo de
desejar ser poeta...
a poesia faz se de uma obra feita...
Para se fazer poesia
precisaria de ter 90 anos.. mil anos
e uma vida notável
tudo o resto para trás
são ensaios ou tentivas

carlos Ac liberal