sábado, maio 10, 2008

BORIS VIAN

BORIS VIAN (1920-1959) viveu poucos anos, o suficiente porém para alcançar a notoriedade como músico de jazz, autor e actor de teatro, tradutor, cronista, entre muitos outros ofícios onde se conta também a engenharia. Mais conhecido como autor de ficção (“A Espuma dos Dias”, “O Outono em Pequim”, “Morte aos feios”, entre outros títulos), foi igualmente o notável autor de poemas onde a ironia é quase sempre o passaporte para o absurdo. Admirador e amigo de Jacques Prévert (1900-1977), admirado e lido por Alexandre O’Neill (1924-1984), publicou em 1949 “Cantilènes en gelée”, poemas e cartas que Margarida Vale de Gato agora traduziu com elegância e engenho, e a Relógio d’Água editou, em Fevereiro de 2004. Trois poèmes, do melhor que as franjas do surrealismo francês nos ofereceu. Com a devida veniá



… AS MÃOS CHEIAS
[…LES MAINS PLEINES]


Aos inocentes

Se vos perguntassem, à queima-roupa
A inocência é uma virtude?
Eu cá não respondia
Tentava desconversar
Diria: «— Vossemecê já leu Cézanne?»

Algumas pessoas esquecem-se de mentir
E afirmam: «— Não faço ideia!»
Não podemos obrigá-las a todas.

Naturalmente, a inocência não é uma virtude
Porque, passado tempo, seria de desconfiar
A minha tia tinha imensas virtudes.
Ainda as tem. E ela é velha.

Os Gregos também tinham virtudes
E os Gregos não eram inocentes
Visto que guilhotinaram Sócrates.

É difícil de julgar, claro, nós não estávamos lá
Mas o mais seguro, em semelhante circunstância
É abster-nos de responder
E tentar desconversar...

Caso não se consiga, podemos sempre suicidar-nos.

9 de Fevereiro de 1948


§


BOM-DIA, CÃO
[BONJOUR, CHIEN]

Avisto na rua um cão
Digo-lhe: como vais, cão?
Pensa que me responde?
Não? Pois bem, mas ele responde-me
E isso não é da sua conta
Agora quando se vêem pessoas
Que passam sem sequer reparar nos cães
Sentimos vergonha pelos seus pais
E pelos pais dos seus pais
Porque uma tão má educação
É coisa que requer pelo menos... e não estou a ser generoso
Três gerações, com uma sífilis hereditária
Mas, para não vexar ninguém, devo acrescentar
Que um número considerável de cães não falam com
muita frequência

9 de Fevereiro de 1948


§


DE TANTO SE VEREM
[A FORCE DE LES VOIR]

De tanto se verem
Há palavras que vos poriam doentes
Palavras conhecidas mas muito perigosas de manejar
A não ser que sejam rodeadas de música
Também há quem meta açúcar nas amêndoas amargas
Palavras como areia, erva
Como sol, como deitados lado a lado
Como pele dourada, como cabelos louros
Como dentes brilhantes e lábios salgados
E depois outras palavras, ainda mais perigosas
«Ninguém à vista, podemos seguir»
E as mais perigosas de todas:
«É ainda melhor à quinta vez.»
Felizmente, que há carradas de aeronaves
A fabricarem fenomenologia a granel
E a meterem-vos bombas atómicas de atravesso pela goela...
Peço desculpa… o sopro da inspiração...
Não é todos os dias que a musa nos visita.



11 comentários:

L. disse...

é, é uma personagem que se insinua facilmente a muita gente de muitos mundos.

inominável disse...

adorei "morte aos feios"...

se saúdo os caes na rua? sim, sou mal-educada...

Pupila deambuladora disse...

Adorei..

Poesia :)

Pupila deambuladora disse...

Adorei..

Poesia :)

Manuel Pereira da Silva disse...

Viver é rum

Estou onde não estou
para estar onde estou
pensando o que sou.

Migalha é pão
do pão que nós somos!...

Estás como estou.
A diferença é estar ou não estar
de ser ou pensar
de perder ou ganhar.

Para onde vais
Para onde vou
Viver ou vegetar
O algo que mudou!!...

Manuel Pereira da Silva

Ana Pena disse...

:) Estou quase a terminar a leitura da "Erva Vermelha". No início confesso que estava a ler pequenas maravilhas, noutras fui tomadas de momentos de aborrecimento mas isto até chegar possivelmente à parte essencial do livro, onde me tenho deliciado nos últimos dias. Veio em boa hora toda a reflexão que esta história me fez levantar sobre a importância que poderá ter cada um de nós parar um pouco para conversar consigo mesmo sobre o seu passado, sobre quem é e de onde veio. Talvez este esforço nos apazigue e reconcilie inesperadamente, muitas vezes com o que não suspeitavamos, porque se calhar sobre isso nunca nos disposemos a pensar, serem afinal coisas que determinaram de alguma forma a nossa vida.
Fiquei alegremente surpreendida e com os poemas que nos dá a conhecer mais curiosa ainda de conhecer o resto da obra deste artista:)
Obrigada
e já agora, tem um blog muito interessante!

Ana Pena disse...

ups, "dispusemos" quis dizer:)

Fragmentos Culturais disse...

Boris Vian marcou efectivamente a paisagem literário-cultural francesa!

Alexandre O'Neill (o nosso escritor surrealista mais importante) e seu admirador, também pugnou por isso! Mas, não foi reconhecido em tempo próprio!

Apreciei sinceramente este espaço!
Jorge de Sousa Braga... conhecia-o do livro de literatura infanto-juvenil, 'Herbário'!

Ricardo Pulido Valente disse...

volta depressa, Joao;)

alberte momán disse...

Um saudo dende a Galiza.

Coido que estao no certo quando asseguram que Boris Vian fiz da literatura um arte do divertimento e da comunicaçao. na Galiza apenas ten sucesso, mais, grazas a outros sistemas literarios, como o portugues ou o espanhol, posso achegar-me ainda mais a esta figura, pra min indispensavel, da literatura universal.

JORGE disse...

o vian é das melhores coisas que me aconteceram.