segunda-feira, setembro 03, 2007

JACQUES PRÉVERT

JACQUES PRÉVERT (Neuilly-sur-Seine, 1900 - Omonville-la-Petite, 1977) foi, entre outros ofícios, poeta, argumentista (de películas dirigidas por Jean Renoir e Marcel Carné, entre outros), letrista (de canções interpretadas por artistas como Juliette Gréco ou Yves Montand), tendo-se popularizado nestas duas artes ainda antes de ser conhecido como poeta. O seu primeiro livro de versos foi um sucesso de vendas e um fracasso de crítica. A editora francesa Gallimard, actual responsável pela reedição da obra poética de Prévert, recusou o seu primeiro livro “Paroles”, na pessoa de Jean Paulhan, com o argumento de que considerava os seus versos quotidianos “repugnantes”. Instigado por Henri Michaux (Namur, Bélgica, 1899 – Paris, 1984), Prévert cedo havia abraçado o surrealismo, no caso concreto, como se verá, com a dose certa de sarcasmo, absurdo e humor. A fotografia que ilustra este post é disso mesmo testemunho. Os poemas que se seguem foram retirados do livro "Poemas de Jacques Prévert”, edição Nova Fronteira (Rio de Janeiro, 2000), numa selecção e tradução de Silviano Santiago. Alguma sensação de estranheza que possa resultar, para o leitor português, da leitura deste ou daquele verso, nesta tradução para português do Brasil, é abundantemente suplantada pela informadíssima introdução e avisada selecção operadas por Silviano Santiago, a quem passo a roubar, com a devida vénia, estas três traduções. A primeira, devolve-me à memória certas telas de René Magritte; a segunda, certos poemas de Daniil Harms. Isto anda realmente tudo ligado.




PARA PINTAR O RETRATO DE UM PÁSSARO

Para Elsa Henriquez


Primeiro pintar uma gaiola
com a porta aberta
pintar depois
algo de lindo
algo de simples
algo de belo
algo de útil
para o pássaro
depois dependurar a tela numa árvore
num jardim
num bosque
ou numa floresta
esconder-se atrás da árvore
sem nada dizer
sem se mexer…
Às vezes o pássaro chega logo
mas pode ser também que leve muitos anos
para se decidir
Não perder a esperança
esperar
esperar se preciso durante anos
a pressa ou a lentidão da chegada do pássaro
nada tendo a ver
com o sucesso do quadro
Quando o pássaro chegar
se chegar
guardar o mais profundo silêncio
esperar que o pássaro entre na gaiola
e quando já estiver lá dentro
fechar lentamente a porta com o pincel
depois
apagar uma a uma todas as grades
tendo o cuidado de não tocar numa única pena do pássaro
Fazer depois o desenho da árvore
escolhendo o mais belo galho
para o pássaro
pintar também a folhagem verde e a frescura do vento
a poeira do sol
e o barulho dos insectos pelo capim no calor do verão
e depois esperar que o pássaro queira cantar
Se o pássaro não cantar
mau sinal
sinal de que o quadro é ruim
mas se cantar bom sinal
sinal de que pode assiná-lo
Então você arranca delicadamente
uma das penas do pássaro
e escreve seu nome num canto do quadro.


de “Paroles” (1945)


§


A PESCA DA BALEIA


À pesca da baleia, à pesca da baleia,
Dizia o pai com voz colérica
Ao seu filho Próspero, deitado ao lado do armário,
À pesca da baleia, à pesca da baleia,
Você não quer ir,
E por quê posso saber?
E por que irei, papai, pescar
Um animal que não me fez nada,
Vá velho, vá você mesmo pescá-la,
se isso lhe dá tanto prazer,
Prefiro ficar em casa com minha pobre mãe
E o primo Gastão.
Então na sua baleeira sozinho o pai se foi
Pelo mar encapelado…
Eis o pai no mar,
Eis o filho em casa,
Eis a baleia enraivecida,
E eis o primo Gastão que vira a sopeira,
A sopeira com caldo.
O mar estava bravo
A sopa estava boa.
E eis que Próspero sentado se entristece:
À pesca da baleia não fui
E por que não fui?
Talvez a gente a tivesse arpoado,
E então teria sido possível comê-la.
Mas eis que a porta se abre e, escorrendo água,
O pai aparece sem fôlego,
Trazendo a baleia às costas.
Joga o animal na mesa, uma bela baleia de olhos azuis,
Um animal como raramente se vê,
E diz com voz queixosa:
Depressa, vamos esquartejá-la,
Tenho fome, tenho sede, quero comer.
Mas eis que Próspero se levanta,
Olhando o pai no branco dos olhos,
No branco dos olhos azuis de seu pai,
Azuis como os da baleia de olhos azuis
E por que vou esquartejar um pobre animal que nada me fez?
Azar o meu, desisto da minha parte.
Depois joga a faca no chão
Mas a baleia pega da faca e, arremessando-se contra o pai,
Fura-o de um pai ao outro.
Ah, ah, diz o primo Gastão,
Isso me lembra a caça, a caça das borboletas.
E eis
Eis que Próspero que redige o aviso fúnebre,
A mãe que fica de luto pelo pobre marido
E a baleia com lágrimas nos olhos, contemplando o lar destruído,
grita de repente:
Por que matei esse pobre imbecil,
Agora os outros vão me caçar numa motogodile
E depois vão exterminar todos os meus.
Então, soltando uma gargalhada inquietante,
Caminha para a porta e diz
Casualmente à viúva:
Ó dona, se alguém me procurar,
Seja gentil e responda:
A baleia saiu,
Queira sentar
E esperar,
Dentro de uns quinze anos talvez esteja de volta…


de “Paroles” (1945)


§


E DEUS EXPULSOU ADÃO…


E Deus expulsou Adão com golpes de cana-de-açúcar
E assim fabricou o primeiro rum na terra

E Adão e Eva cambalearam
pelos vinhedos do Senhor
a Santíssima Trindade os encurralava
mesmo assim continuaram cantando
com voz infantil de tabuada
Deus e Deus quatro
Deus e Deus quatro
E a Santíssima Trindade chorava…
Por cima do triângulo isóscele e sagrado
um biângulo isopicante brilhava
e eclipsava o outro.


de “Histoires” (1963)



§


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