terça-feira, maio 15, 2007

RUY BELO (3)


MORTE AO MEIO-DIA

No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe,
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer


in “Boca Bilingue” (1966)


Poesia & Lda, feito pelos seus leitores - AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT

"Alô, João Luis
conheci o blog Poesia Ilimitada há pouco. Quero dizer, fiz uma única visita e gostei imensamente do conjunto de poemas. Existiu um poeta brasileiro, atualmente meio esquecido pela crítica, que escreveu, creio, um dos mais belos poemas em língua portuguesa. É o AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT e o poema, Visita à Casa Materna. (...) Talvez seja bom dizer algumas palavras sobre seu autor. Nascido em 1906, no Rio de Janeiro, falecido em 1965. Fez parte da "segunda geração dos modernistas", mais por uma questão histórica, ou temporal, do que por estilo ou tendência. Sua poesia muitas vezes é sentimental demais e não se encaixa no "modernismo" brasileiro. Talvez apenas o uso de versos livres, quase que exclusivamente, possa vincular Schmidt a algum modernismo. É, antes disso, um romântico deslocado, com uma voz "messiânica", certamente inédita àquela altura dos acontecimentos. Foi diplomata e com trânsito no métier político de sua época. Não é muito visitado pela crítica e, mesmo em sua época, era considerado, às vezes, como um quase reacionário, ultrapassado, ou algo assim. No entanto, Schmidt produziu passagens que poucos poetas, em qualquer idioma, alcançam. (Evidentemente, a última frase é uma opinião pessoal). O poema a seguir tem a marca de seu estilo condescendente, mas é ingenuidade atribuir a Schmidt alguma ingenuidade. Diga você, João Luis, se estou muito enganado... Bem, vamos ao poema:


VISITA À CASA MATERNA

Neste dia de maio, vim ver-te, Mãe,
Vim a esta tua casa
Construída de pedras cinzentas,
Enfeitada por uma cruz e um coração de mármore.
Vim repousar a cabeça sobre o teto do teu lar.
Não te trago muitas aflições, neste dia de festa,
Não estou em desespero.
Sou um homem maduro, mais velho
Vinte anos do que tu, quando me deixaste nesta terra,
Adolescente entre os homens.
Já vi mais coisas do que viste e tive mais esperanças do que tu,
Que eras lúcida e triste desde a juventude.
Recolhi muitos desenganos; e seguirei até a morte assim
Como sou, incerto, cego, orgulhoso,
Com as desesperanças se acumulando sempre.

Aqui estou, Mãe, diante de ti, homem completo,
De cabelos grisalhos, machucado e exaltado pela vida.
Um homem ferido e estranhamente compensado pela vida,
Um homem já meio do outro lado, vergado,
Curvado ao peso de pecados e erros,
De responsabilidades, de contradições e de amarguras.
Aqui estou diante de ti, Mãe,
Aqui vim
Pedir-te que me perdoes e me justifiques.


Sou quase um velho; durante mais de meio século
Andei pelas estradas da terra, atravessei desertos,
Contemplei paisagens geladas, toquei no fundo
Da minha própria miséria e das misérias alheias.

Durante muitos anos, enquanto dormias aqui,
Fui levado para exílios e encontros de toda a espécie.
Este teu filho é um homem vivido,
É um navio provado por muitos mares,
Um navio batido, curtido por ventos e tempestades.

É um navio perdido na névoa, este homem que aqui está,
Este ser usado que procura sua mãe.
É um velho navio, é um velho homem.
Não se parece, em quase nada,
Com aquele a quem disseste adeus, para sempre,
Na hora da partida, em junho de 1922.

É um ser cansado, um pássaro exausto
Que procura o seu ninho remoto
Nesta casa de pedra em que te escondes,
Em que repousas de uma breve existência.
É um homem este que aqui está,
Em quem mal reconhecerias o filho teu,

O sensível e verde aventureiro, pronto
para os nobres impulsos,
Mas tão incerto e tão fantasioso,
Tão incapaz de perseverar e de crer longamente,
O ser matinal que tremias, Mãe, ao deixá-la, perdido
No mundo, o ser cujo destino te preocupava
Diante da revelação de tantas inconstâncias.


É um homem experimentado este que aqui está, Mãe,
mas é um poeta.
E, porque é um poeta, muito lhe será perdoado.
E, porque é um poeta, não perdeu o dom
De olhar a face da Infância
E de te ver, Mãe,
Como te está vendo nesta hora,
Com os mesmos olhos com que te contemplava
Outrora, quando eras a sua Estrela,
E o seu abrigo, o centro do seu mundo,
A força e a lei que o conduziam,
Quando eras tudo, toda a sua alegria e proteção.

Deus permitiu que em teu filho
Não se perdesse o dom de olhar
O mundo em certos instantes
Com a poesia dos que não foram poluídos,
Dos que não foram enganados pela vida.
Aqui estou, debruçado sobre o teu tÚmulo, Mãe,
E eis que te ergues diante de mim,
E eu te vejo não como adormeceste em Deus,
Pálida, vestida com o burel do Carmo,
Mas matinal e alegre, coroada de flores,
Viva e serena, na primeira e gloriosa maternidade,
Com as tranças repartidas, e no olhar
A luz da beleza intocada.
Assim te pode ver teu filho, de olhos fechados.
Assim te pode ver este homem de gestos cansados,
Este segador no fim da sega,
Este quase velho, debruçado sobre o teu túmulo.
Assim apareces, Mãe, ao filho que deixaste tão cedo,
Entre as perdições do mundo.

Mãe, aqui estou no dia de hoje,
Batendo à tua porta, procurando a tua companhia.
Não me desconheças nem perguntes quem sou.


No fundo de mim mesmo, apesar de tudo o que houve,
Das incompreensões, do pó e da amargura,
Das misérias que pratiquei e que praticaram
Contra mim; apesar da experiência do ódio e do amor,
amargos ambos,

Sou o mesmo filho que deixaste
Na orfandade
Quando partiste,
Estrela materna, flor de beleza,
Que o vento gelado crestou na juventude.


Um abraço e parabéns pelo blog.
Guga Schultze

quarta-feira, maio 09, 2007

RUY BELO (2)





A MÃO NO ARADO

Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará

Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh! como é triste arriscar em humanos regressos
e equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
e haver árvores ao fim da rua

É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro

É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solidário vento e não o conhecemos
e não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã
Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de Novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tudo isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
É muito triste andar por entre Deus ausente

Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente


in "O Problema da Habitação - Alguns Aspectos" (1962)


domingo, maio 06, 2007

Poesia & Lda, feito pelos seus leitores - ROGER McGOUGH

"Caro João,

Como sabemos, não há escrita que se faça no vazio. Enquanto consultava com muito gosto os arquivos do Poesia & Lda, vi-me a confirmar esta ideia através do poema que traduziu, aqui há uns tempos (Janeiro de 2006), do William Carlos Williams. Onde é que eu já tinha lido isto, ou algo parecido com isto?, pensei. A resposta está em The State of Poetry, um pequeno livro do poeta inglês ROGER McGOUGH (Penguin, 2005, não sei se conhece?) e, particularmente, no poema "Dear Scott". Reescrita quase literal, com a introdução de um elemento paródico e humorístico, a presença da ideia do álcool e do alcoolismo na vida de Zelda e de Scott Fitzgerald (em vez das ameixas, o licor de ameixa e o seu efeito final de embriaguez), o poema de McGough surge como homenagem (não como plágio) e comentário irónico, dirigido não só às incidências biográficas do famoso romancista e novelista americano, mas também à natureza familiar, bucólica e luminosa do poema original de Williams. Roger McGough, sem ansiedade da influência, a escrever torto por linhas direitas... ou direito por linhas tortas? Aqui ficam poema e uma tradução possível (?) do poema de McGough:


"Dear Scott

This is just to say
I have drunk
the plum brandy
that was in
the icebox

and which
you were probably
saving
for breakfast

Forgive me
it was delicious
so cold
and so numbing

x Zelda"


***


"Querido Scott

É só para dizer que
bebi
o licor de ameixa
que estava no
frigorífico

e que
provavelmente estavas
a guardar
para o pequeno-almoço

Perdoa-me
estava delicioso
tão fresco
e entorpecedor

bjs. Zelda"


Com os melhores cumprimentos,
Luís."

COLECÇÃO BERNARDO (2)


“VAI PRECISAR DE SACO?”



“VAI PRECISAR DE SACO?”, 2007
técnica mista de gesto e voz / n.º inv. 02-07
adquirido com fundos do fundo do porta-moedas



***

A Colecção Bernardo, em depósito no Poesia Ilimitada, constituída por memorabília quotidiana em homenagem a Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa, orgulha-se de apresentar ao público e pela primeira vez, a sua mais recente aquisição. Enquadrando-se na perfeição na cena artística dos actuais "artistas" nacionais, “Vai precisar de saco?“, peça adquirida por 2 cêntimos (por saco...) na caixa de um Pingo Doce, é uma obra única de contemporaneidade onde se pode ler em todo o seu esplendor, a verdadeira dimensão da “xico-espertisse” lusitana. Na esteira de Tino Segal – artista plástico que coloca na boca (e no corpo) dos assistentes dos museus onde expõe, um conjunto de frases e situações com o intuito de despertar uma reacção da parte do visitante (por exemplo, a frase ouvida da rapariga da bilheteira do Museu SerralvesO terramoto na Indonésia fez milhares de vítimas. Tino Segal, 2006”, à qual respondi estupefacto, “Desculpe, o que disse?”; “O terramoto na Indonésia fez milhares de vitimas. Tino Segal, 2006”; "Ah!..."), - também a instalação “Vai precisar de saco?” exibe a muito portuguesa caracteristica do deixa-cá-ver-se-enrrolo-estes-tipos-mais-um-bocado, tanto quanto a capacidade única de interpelar o visitante, suscitando da sua parte toda uma miríade de reacções:

- “Vai precisar de saco?”
- Não, menina. Estava mesmo a pensar em levar este carrinho cheio de compras num dos bolsos de trás das calças.

- “Vai precisar de saco?”
- Não, muito obrigado. Vim prevenido com sacos do Continente.

A Colecção Bernardo convida os visitantes (!) a reagir na caixa de comentários a mais esta extraordinária aquisição, doravante em exibição permanente neste blog.

RUY BELO


RUY BELO nasceu em 1933 (S. João da Ribeira) e faleceu em 1978 (Queluz). Em 1951, ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra tendo concluído aquele curso em Lisboa em 1956, ano em que partiu para Roma onde se vem a doutorar em Direito canónico, em 1958, na Universidade de S. Tomás de Aquino.

De regresso a Lisboa, trabalhou na área editorial. Em 1961, foi admitido na Faculdade de Letras de Lisboa. Nesse mesmo ano abandonou a Opus Dei – a que pertencia desde 1951 – e publicou o seu primeiro livro de poemas “Aquele Grande Rio Eufrates”. Na “Explicação que o autor houve por indispensável antepor a esta segunda edição”, que antecede a reedição de 1972 deste título, Ruy Belo distancia-se do ambiente teológico daquele conjunto de poemas.

Em 1967 concluiu a licenciatura em Filologia Românica, partindo em 1971 para Madrid onde se torna leitor de português até 1977, ano do regresso a Lisboa. Morre aos 45 anos. O seu nono e último livro de poesia, publicado em 1977, um ano antes de falecer (Ruy Belo teria preferido que se escrevesse morrer…) foi “Despeço-me da Terra da Alegria”. Os três poemas que se seguem foram retirados do seu primeiro título.


§


POEMA QUOTIDIANO

É tão depressa noite neste bairro
Nenhum outro porém senhor administrador
goza de tão eficiente serviço de sol
Ainda não há muito ele parecia
domiciliado e residente ao fim da rua
O senhor não calcula todo o dia
que festa de luz proporcionou a todos
Nunca vi e já tenho os meus anos
lavar a gente as mãos no sol como hoje
Donas de casa vieram encher de sol
cântaros alguidares e mais vasos domésticos
Nunca em tantos pés
assim humildemente brilhou
Orientou diz-se até os olhos das crianças
para a escola e pôs reflexos novos
nas míseras vidraças lá do fundo

Há quem diga que o sol foi longe demais
Algum dos pobres desta freguesia
apanhou-o na faca misturou-o no pão
Chegaram a tratá-lo por vizinho
Por este andar… Foi uma autêntica loucura
O astro-rei tornado acessível a todos
ele que ninguém habitualmente saudava
Sempre o mesmo indiferente
espectáculo de luz sobre os nossos cuidados
Íamos vínhamos entrávamos não víamos
aquela persistência rubra. Ousaria
alguém deixar um só daqueles raios
atravessar-lhe a vida iluminar-lhe as penas?

Mas hoje o sol
morreu como qualquer de nós
Ficou tão triste a gente destes sítios
Nunca foi tão depressa noite neste bairro

§


DESENCANTO DOS DIAS

Não era afinal isto que esperávamos
Não era este o dia
Que movimentos nos consente?
Ah ninguém sabe
como ainda és possível poesia
neste país onde nunca ninguém viu
aquele grande dia diferente


§


O PERCURSO DIÁRIO

Eu vou por este sol além
e ele é quotidiano até ao fim
como se até hoje ninguém
tivesse no sol e fora do sol também
morrido a morte por mim


sábado, maio 05, 2007

TADEUSZ RÓŻEWICZ

TADEUSZ RÓŻEWICZ nasceu em Radomsko em 1921. Estudou História da Arte na Universidade de Jagueloniana, em Cracóvia. Viveu em Wroclaw durante trinta anos. Poeta, dramaturgo e novelista foi traduzido em numerosos idiomas, sendo considerado um precursor da vanguarda em poesia e drama, um inovador firmemente arraigado na recriação incessante da tradição romântica. Independente, diz-se convencido de uma missão artística que considera um estado de concentração interna, agilidade interior e sensibilidade ética. Różewicz pesquisa as instâncias contemporâneas da crueldade humana. É o fundador de uma tendência chocante da literatura polaca que se concentra na existência, concebida como o esforço para existir, como a luta contra o nada. Jorge Sousa Braga colabora uma vez mais no Poesia Ilimitada, com a tradução de "A Poesia nem sempre...":


A POESIA NEM SEMPRE…

a poesia nem sempre
adopta a forma
de um poema

depois de cinquenta anos
a escrever
a poesia
pode apresentar-se
ao poeta
na forma de uma árvore
de um pássaro
que voa
de luz

adopta a forma
de uma boca
refugia-se no silêncio

ou vive no poeta
livre de forma e de conteúdo