domingo, maio 06, 2007

RUY BELO


RUY BELO nasceu em 1933 (S. João da Ribeira) e faleceu em 1978 (Queluz). Em 1951, ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra tendo concluído aquele curso em Lisboa em 1956, ano em que partiu para Roma onde se vem a doutorar em Direito canónico, em 1958, na Universidade de S. Tomás de Aquino.

De regresso a Lisboa, trabalhou na área editorial. Em 1961, foi admitido na Faculdade de Letras de Lisboa. Nesse mesmo ano abandonou a Opus Dei – a que pertencia desde 1951 – e publicou o seu primeiro livro de poemas “Aquele Grande Rio Eufrates”. Na “Explicação que o autor houve por indispensável antepor a esta segunda edição”, que antecede a reedição de 1972 deste título, Ruy Belo distancia-se do ambiente teológico daquele conjunto de poemas.

Em 1967 concluiu a licenciatura em Filologia Românica, partindo em 1971 para Madrid onde se torna leitor de português até 1977, ano do regresso a Lisboa. Morre aos 45 anos. O seu nono e último livro de poesia, publicado em 1977, um ano antes de falecer (Ruy Belo teria preferido que se escrevesse morrer…) foi “Despeço-me da Terra da Alegria”. Os três poemas que se seguem foram retirados do seu primeiro título.


§


POEMA QUOTIDIANO

É tão depressa noite neste bairro
Nenhum outro porém senhor administrador
goza de tão eficiente serviço de sol
Ainda não há muito ele parecia
domiciliado e residente ao fim da rua
O senhor não calcula todo o dia
que festa de luz proporcionou a todos
Nunca vi e já tenho os meus anos
lavar a gente as mãos no sol como hoje
Donas de casa vieram encher de sol
cântaros alguidares e mais vasos domésticos
Nunca em tantos pés
assim humildemente brilhou
Orientou diz-se até os olhos das crianças
para a escola e pôs reflexos novos
nas míseras vidraças lá do fundo

Há quem diga que o sol foi longe demais
Algum dos pobres desta freguesia
apanhou-o na faca misturou-o no pão
Chegaram a tratá-lo por vizinho
Por este andar… Foi uma autêntica loucura
O astro-rei tornado acessível a todos
ele que ninguém habitualmente saudava
Sempre o mesmo indiferente
espectáculo de luz sobre os nossos cuidados
Íamos vínhamos entrávamos não víamos
aquela persistência rubra. Ousaria
alguém deixar um só daqueles raios
atravessar-lhe a vida iluminar-lhe as penas?

Mas hoje o sol
morreu como qualquer de nós
Ficou tão triste a gente destes sítios
Nunca foi tão depressa noite neste bairro

§


DESENCANTO DOS DIAS

Não era afinal isto que esperávamos
Não era este o dia
Que movimentos nos consente?
Ah ninguém sabe
como ainda és possível poesia
neste país onde nunca ninguém viu
aquele grande dia diferente


§


O PERCURSO DIÁRIO

Eu vou por este sol além
e ele é quotidiano até ao fim
como se até hoje ninguém
tivesse no sol e fora do sol também
morrido a morte por mim


3 comentários:

Adriana disse...

Gostei desse blog recheado de belos e variados poemas. Parabéns. Continue.

daniel disse...

muito bom

http://strewsea.blogspot.com

daniel disse...

http://strawsea.blogspot.com