quinta-feira, abril 19, 2007

Existe um limite para as palavras? Existe um limite nas palavras?

Palestra proferida no dia 9 de Fevereiro de 2007, na 8ª Edição das “Correntes D’Escritas”, na mesa “Poesia: o limite das palavras”, moderada por Luís Adriano Carlos (Portugal), com a participação de Aurelino Costa (Portugal), Eucanaã Ferraz (Brasil), Fernando Pinto do Amaral (Portugal), JLBG (Portugal) e Luis Rafael Hernández (Cuba).



É mais ou menos consensual entre os escritores que as palavras têm limites. “Esternocleidomastóideu”, por exemplo, pode à primeira vista parecer uma palavra ilimitada mas está localizada numa área muito precisa da região cervical, bilateralmente, tendo como limite anterior a letra “e” e como limite posterior a letra “u”...

Obviamente que não é deste tipo de fronteiras que aqui vamos falar hoje. O que aqui nos trouxe – a forma como interpreto a oportunidade desta mesa – é aventar se existe ou não um limite de utilizações a partir do qual as palavras perdem força (ou significado), ou mesmo, um limite de expressão a partir do qual as palavras - o conjunto das palavras de uma língua - não são mais capazes de dizer. Os poetas, em particular, utilizam como matéria-prima a palavra, seria por isso penoso se concluíssemos dentro de duas horas que ao fim de um certo número de utilizações certa palavra perdia interesse enquanto tijolo literário, tanto quanto se realizássemos que não existem palavras suficientes (ou capazes), entre as disponíveis, para dizer, por exemplo, um estado de alma.

Agora que me levaram a pensar nisto, parece-me uma sorte que as palavras tenham pelo menos, uma denotação e várias conotações. É uma sorte que assim seja! Se assim não fosse, se para cada sentido literal e estrito de uma palavra não existisse uma multiplicidade de sugestões associadas ao seu uso, nem valeria a pena escrever. O primeiro autor que a utilizasse teria dito tudo...

Tomemos, como exemplo, a palavra “flor”. A palavra “flor” tem como significado, da botânica, “órgão vegetal de reprodução sexuada das plantas superiores (fanerogâmicas), composto geralmente por sépalas (cálice), pétalas (corola), estames e gineceu”. Concordarão comigo que se poderiam escrever poemas ilimitados com as palavras “sépalas”, “cálice”, “pétalas”, “corola”, “estames” ou “gineceu”. Essa é a flor literal. Mas a verdade é que também se chama "flor" , por exemplo, a uma “pessoa agradável ou bonita”, tanto quanto – veja-se bem – ao “bolor que se forma à superfície de certos líquidos em contacto com o ar”. Duas conotações diametralmente opostas, portanto.

A isto acresce o simbolismo da própria flor. De que flor falamos quando usamos a palavra “flor”? Da rosa de Yeats? Do girassol de Van Gogh? De um cravo de Abril? Um símbolo pode ser definido como uma coisa ou acção que adquiriu um significado próprio, com o qual o leitor e o autor já têm à partida de contar quando a lêem ou utilizam num texto literário.

Outro exemplo clássico é a palavra “maçã”. Quando um autor - ainda que inconscientemente, como a maior parte das vezes, julgo, acontece - opta pela palavra “maçã”, seja ela reineta ou bravo-de-esmolfo, é difícil a um leitor de formação judaico-cristã – ainda que nesse instante esteja somente a morder uma denotativa maçã – não pensar nas conotações do paraíso ou da tentação. Ou em Nova Iorque, a grande maçã. Ou mesmo no seu ipod Apple.

Um exemplo, nos antípodas, é a palavra “osso”, que tem como significado, da anatomia, “cada uma das peças rígidas que entram na constituição do endoesqueleto da maioria dos vertebrados”, mas que também pode significar “contrariedade, dificuldade, embaraço, obstáculo” – como em “um osso muito duro de roer” – tanto quanto pode designar uma “amante, amásia, namorada ou rapariga” – como em “larga o osso...”. Já para não falar na simbologia dos piratas, da morte, dos ortopedistas...

Dir-se-ia, por estes dois, três exemplos, que as palavras não têm limite, pelo menos quanto ao seu significado. Mas os poetas – dizem os da ficção – gostam de complicar tudo e nem de si próprios são amigos. Para agravar as coisas – no que à existência de um limite diz respeito – um poeta tão tutelar e incontornável como Pound escreveu isto: “acredito que o símbolo adequado e perfeito é sempre o objecto natural”.

Gertrude Stein que como ele também abraçou o imagismo, saiu em defesa de Pound: “A rose is a rose is a rose”, com o que queria dizer, nem mais nem menos isto: uma rosa é uma rosa, ponto final! Quando são os próprios poetas a descartarem voluntariamente segundas conotações para as palavras, o alcance ilimitado das mesmas fica seriamente comprometido.

Situação essa que se agrava com a noção geralmente aceite de que certas palavras, pelo seu uso continuado, à força de tanto serem empregues, mal usadas ou maltratadas vão perdendo pelo menos parte do seu sentido original, e são-nos por vezes tão familiares que as pronunciamos, coloquialmente ou em verso, sem as saborearmos convenientemente, sem pararmos um instante que seja para pensar no que realmente estamos a dizer. Falo de clichés. São “chão que deu uvas”, palavras que se usam “do pé para a mão”, “em atalho de foice”, “por dá cá aquela palha”. Nem pensar em usar clichés num poema. Os clichés são, por assim dizer, metáforas mortas.

Tudo se torna ainda mais difícil se o poeta teima em seguir o conselho do mesmo Pound, quando escrevia: “Go in fear of abstractions”, receia (evita) as abstracções. Para quem prefere, como eu, nestes tempos de pluralismo pós-moderno, usar palavras concretas (mesa, livro, gato), aparentemente mais limitadas, preterindo as abstractas (Tempo, Vida, Glória), aparentemente mais latas, tudo se torna mais difícil. E é seguramente mais difícil ser-se original, surpreender, quando se escreve acerca de um presente concreto...

Ainda há poetas que julgam tornar seus versos intemporais se os polvilharem de palavras abstractas, latas, abrangentes, ou as combinarem entre si resultando isso numa trama hermética mais durável. A mim parece-me que o problema de muita da poesia de pendor abstracto, do ponto de vista de recepção por parte do leitor, é que tantas vezes só mesmo o próprio autor sabe o que significam certos poemas. Iludem-se quando julgam dessa forma ilimitar o sentido das palavras no que são secundados por alguma crítica que tende a prescrever essa poesia como única por resistir à primeira leitura. O que é verdade. Resiste à primeira, à segunda, à terceira, à quinta, resiste até à décima leitura. Esse tipo de poesia falha numa coisa fundamental: não comunica. Não faz leitores. E se é verdade que não tem limites, também é certo que não tem limiar, isto é, porta de entrada. É nada-morta à partida.

Voltamos então ao início. Existe ou não um limite para as palavras? Mais ainda: será que há coisas que as palavras não podem dizer?

Estas questões são primaciais, tão assim que podem bem servir para distinguir a boa da má poesia. A resposta está na licença poética que é conferida ao poeta, permitindo-lhe, por exemplo, desviar-se das regras tradicionais da gramática e da dicção. Citarei apenas um verso que pretendo exemplar. Quando Alexandre O’Neill quis ir mais longe no descrever de uma certa melancolia de Outubro, usou uma estratégia que, por exemplo, e.e.cummings também usou à exaustão, propondo os seguintes versos: “Absinto-me cansado/ na outonalma”.

Dois substantivos (“outono” e “alma”) aglutinam-se, por licença poética, numa nova palavra para formar um terceiro substantivo, “outonalma”. Será “outonalma” mais específico que “melancolia”, por exemplo? Já antes, um substantivo se transformara em verbo: “Absinto-me cansado”. O poeta sente-se exausto mas não de uma forma indefinida: sente-se cansado como após uma ressaca de absinto. É claro - é óbvio - que não é preciso inventar novas palavras para violar os putativos limites das mesmas. Isso representará uma solução limite. Mas a poesia que cria novos sentidos para as palavras e que permite que elas possam pelo menos tentar dizer, é a que persegue a máxima de Coleridge. Samuel Taylor Coleridge escreveu ser a prosa feita de “palavras na sua melhor ordem”, reservando à poesia a árdua tarefa de ser “as melhores palavras na sua melhor ordem”. Nessa subtil diferença reside a precisão e o ofício do poeta, no que constitui, no fundo, a oficina da poesia: metáforas, imagens, métrica, os sons da poesia...

Porque o poeta é também um guardião da língua. O poeta também é um reparador de palavras. Por vezes torna-se necessário lavar a cara às palavras. A escolha da palavra certa revela-se sempre tão importante que o americano Robert Frost escreveu isto, perante o desafio de ter que encontrar um equivalente noutra língua: “Poesia é o que se perde na tradução”.

Se as palavras têm limites cabe ao poeta violá-los. O melhor conselho que posso deixar a um jovem poeta que o queira fazer é que leia muita poesia. Só depois escreva poemas, fazendo-o sempre contra aquilo o que leu. E no final, que siga a recomendação de Osbert Sitwell: “A poesia é como peixe; se é fresco, é bom; se está passado, é mau; se não tens a certeza, experimenta no gato”.


4 comentários:

AF disse...

o tema é, claro, muito interessante. lembrei-me de elizabeth costello, de cotzee, uma das palestras trata desse assunto.

paulo disse...

Tava a precisar de um gato por um dia.

Vida Involuntária disse...

Olá João Luís!

Ontem estive a ler este post e guardei a resposta para hoje. Quando, reparo agora, que já cá está uma "verdeana" leitura, que vai ficar para amanhã devido à hora tardia.

Mas, voltando aos "limites", gostei da abordagem. Mas, seria interessante saber o que outros intervenientes achariam. Alguns defensores da tal poesia "que resiste à décima leitura" - e pelo menos um, devia haver-, não deviam ter concordado muito.rsrsrs...
Que, pessoalmente acho, que os muito bons,sabem ser herméticos q.b.E não o são ao longo de toda a obra. Lembro Ramos Rosa ou Herberto Helder. Os tais "órficos".Os epígonos foleiros é que confundem.
Abraço.

I.

FAG disse...

De acordo, mas os versos de O'neil são irónicos, ou antes, uma paródia ao invencionismo melancólico de certa poesia.