quarta-feira, fevereiro 01, 2006

A música da poesia: eufonia, cacofonia e onomatopeia


Como facilmente se compreenderá – e como demonstra em abundância o post de ontem, – uma coisa é um poema, outra bem diferente é a letra de uma canção. Poesia e canção foram, em tempos, uma e a mesma arte mas desde há alguns séculos que se tornaram artes distintas, embora aparentadas. Assim, não é infrequente atentarmos à beleza de um texto poético elogiando a sua “música” - como acontece com praticamente toda a poesia de Eugénio de Andrade, - do mesmo modo que podemos gostar de uma grande canção e elogiarmos a sua letra mais “poética” - como ocorre com “Rattlesnakes”, de Lloyd Cole ou diversas letras de Bob Dylan, Sérgio Godinho ou Jorge Palma, entre outros. Mas, uma canção é feita para ser cantada – com excepção do rap, que regressa um pouco às origens na medida em que a letra é, em parte, para ser dita, – e um poema é para ser dito ou lido, e não cantado. Tem portanto de se aguentar - o poema - sem uma música de base que o sustente. Ora, há poetas que não dão isso por garantido, daí que deitem mão a diversos mecanismos para “dar música” aos seus poemas. E que mecanismos são esses? Basicamente efeitos de som e ritmo. Desde logo ao nível da palavra, o atómo do poema. A escolha do léxico do poema é fundamental. Há poetas que têm um "dicionário" próprio. As "dunas" de Fão pertencem ao Eugénio de Andrade, por exemplo. As "ilhas" gregas a Sophia. O "mar" de Timor a Cinnati. E por aí fora... (As "tabernas" de Lisboa ao Manuel de Freitas, já me esquecia...). Depois, a forma como as palavras se combinam entre si. Chama-se eufonia ao agradável efeito sonoro que produzem palavras justapostas num poema. Ao efeito oposto chama-se cacofonia. Há algo de subjectivo nesta avaliação, no sentido em que – como tanta coisa em poesia, – cabe ao leitor decidir - sentindo - se esse efeito sonoro lhe é agradável ou desagradável. Devemos a Luís de Camões (1526?-1580) o exemplo mais famoso de cacofonia na poesia portuguesa:


“Alma minha gentil que te partiste”


que para alguns pode ser uma cacofonia mas para mim é uma eufonia. Este é, aliás, um dos artifícios mais usados em certas frases anedóticas, do género:


O meu nome é Passos Dias Aguiar Mota.

ou

Jamais chamaria ao meu filho Adolfo Dias.


(esse exemplo era mesmo necessário, João Luís???)

No entanto, a eufonia e a cacofonia podem estar presentes sem que da justaposição de palavras surja uma nova palavra com sentido autónomo. Tudo se passa ao nível do som e o factor determinante são as consoantes. Há consoantes fáceis de pronunciar e outras mais difíceis. Algumas parece que deslizam, que se dizem com os lábios entreabertos e com o nariz como o “m”, o “n”, o “p”, e outras mais agrestes que se dizem com os dentes e com a língua como “r”, o “t” ou o “x”, e outras ainda que se pronunciam com a boca toda como o “h” ou o “j”. Umas são ditas em inspiração, outras em expiração. Tudo isto - e mais - resulta em música. Quando se escreve um poema acaba por estar atento ao modo como o poema soa. Nem que não se leia em voz alta, está-se permanentemente a ouvi-lo na mente. A grande maioria das vezes esse processo é subconsciente, note-se. Mas a verdade é que as consoantes das palavras que se usa, sejam mais suaves ou mais agrestes, concorrem – e isto é o importante, – para o sentido e contexto do poema. Quando Inês Lourenço (Porto, 1942) escreve em “Carta de Agosto


objectos ressequidos

ou

cortejo carvoro


obtém um efeito cacofónico agreste – em que as consoantes quase se atropelam sequencialmente umas às outras, – mas que serve na perfeição o sentido mais sarcástico do poema, bem diferente do suave efeito eufónico do primeiro verso de “À boca do Cântaro” de Eugénio de Andrade (1923-2004), onde as consoantes quase que deslizam:


Caminha sílaba a sílaba


Tudo isto é lido e “ouvido” pelo leitor como música, e idealmente soma-se ao sentido do poema, servindo-o. A onomatopeia opera por um processo diferente. Aí há uma tentativa de representar uma coisa ou uma acção através do uso de uma palavra que imita o som a ela associado. Há palavras que são por natureza “onomatopaicas”, e isso tem tudo a ver com a sua origem semântica. Experimente por exemplo pronunciar a palavra “múrmurio” com os lábios semicerrados: note como está desde logo a murmurar. Também o vocábulo “serpente”, graças ao “s” inicial, me parece rastejar sozinho, do mesmo modo que a palavra “borboleta” me parece a mim, por duas vezes, que bate asas e voa:


A serpente esconde-se
(Luíza Neto Jorge, Dos Répteis, 1966)


Borboleta diurna
(António Osório, Zoo de Homens, 1990)


Porém, o termo onomatopeia aplica-se mais correctamente a palavras como “zás”, “crash”, “bang”, “splash” que transportam em si o som que significam:


“Aves devoram o lixo.
Debatem-se sob o peso da gula
investindo ciladas, disposições

de onde se isenta a alma.
Flap, flap, flap, fazem asas
no negro plástico.”

(Luís Quintais, Uma Inocência, 2002)


4 comentários:

Anónimo disse...

Brilhante post, o de hoje! Senti-me regressar aos bancos da escola, a ouvir a professora de português a explicar as cacofonias, as onomatopeias, as eufonias, que descobriamos deliciados, entre o espanto e a aventura da descoberta das coisas novas...

Mr. D disse...

Excelente post! Só um comentário sobre um exemplo citado. O verso de Camões, "Alma minha gentil que te partiste" só é cacofonia para a moral salazarista. É uma das ideias feitas que ficaram dessa altura. Face à tua definição (e face à sólida argumentação), tal verso não seria nunca uma cacofonia, como não é... e tu di-lo.
Há outras ideias feitas que vêm desde então e que urge destruir. Outro exemplo? Que _Os_Lusíadas_ são uma grande obra porque é um vastíssimo e complexo corpus linguístico a pedir para ser dividido em orações.

Vasco Pontes disse...

Ele há poemas e poemas, poetas e poetas. Um mesmo poeta pode "apetecer-lhe" brincar um pouco com as palavras e sacrificar um pouco a mensagem (digo, note-se, a mensagem, mas não o sentido que, concordo, é condição cine qua non do poema) ou concentrar-se, comunicar uma mensagem de forma mais eficaz.
Mas, para mim, o poeta, é-o por dis motivos: porque quer comunicar algo de forma a conseguir uma reacção emocional, um momento de êxtase, como dizia uma das minhas três leitoras, e porque quer transmiti-lo de um forma artística (digo artística para não dizer bela que é assumidamente a minha opção).
Esta forma artística tem, naturalmente a ver com o "como" é dita a mensagem; e no "como" estão, então os elementos de ritmo e harmonia, os significados evidentes e sugeridos, as associação surpreendentes,enfim, o dizer algo de uma forma que consiga a "adesão" emocional do leitor.
Sendo que, muitas vezes, a melhor forma de chamar a atenção para uma musicalidade pode ser introduzir nela dissonâncias...

Anónimo disse...

Gostei muito do post. Gosto muito de poesia e foi bom ficar com algumas destas importantes ideias. Obrigada!