terça-feira, janeiro 10, 2006

SIMON ARMITAGE

SIMON ARMITAGE nasceu em West Yorkshire, Reino Unido, em 1963. Por diversas vezes premiado, é um dos poetas da nova poesia britânica que reúne mais consenso. Eis um poema capaz de gerar dois tipos de reacção opostas.



POEM

Frank O’Hara was open on the desk
but I went straight for the directory.
Nick was out, Joey was engaged, Jim was
just making coffee and why didn’t I

come over. I had Astrud Gilberto
singing "Bim Bom" on my Sony Walkman
and the sun was drying the damp slates on
the rooftops. I walked in without ringing

and he still wasn’t dressed or shaved when we
topped up the coffee with his old man’s Scotch
(it was only half ten but what the hell)
and took the newspapers into the porch.

Talking Heads were on the radio. I
was just about to mention the football
when he said "Look, will you help me clear her
wardrobe out?" I said "Sure, Jim, anything."


§


POEMA

Frank O’Hara estava aberto na secretária
mas eu fui directo à lista telefónica.
Nick estava para fora, Joey ocupado, Jim ia
mesmo fazer café e porque é que eu não

aparecia. Eu tinha Astrud Gilberto
a cantar “Bim Bom” no meu walkman da Sony
e o sol secava a ardósia húmida dos
telhados. Entrei por ali dentro sem tocar

e ele ainda não estava vestido nem barbeado quando
atestamos o café até cima com o Scotch do velhote dele
(ainda eram só dez e meia mas que se lixe)
e levamos os jornais para o alpendre.

Os Talking Heads estavam na rádio. Eu
ia mesmo para falar do futebol
quando ele disse: “Ouve, ajudas-me a esvaziar o
guarda-roupa dela?” Eu disse: “Claro, Jim, o que quiseres.”


Eis um poema que rasga as convenções da - geralmente rígida - poesia britânica. Nada no texto é deixado ao acaso por muito que tudo nos pareça ocasional, como aliás costuma acontecer com o trabalho dos grandes poetas. Reparem como o tom do poema é propositadamente solto e despreocupado para responder à necessidade de narrar uma manhã também ela errática e casual, servindo assim excelentemente o contexto e a situação narradas. Através de uma linguagem coloquial, – que chega a incluir calão (“que se lixe”), discurso directo ambíguo e uma interrogação sem pontuação, – há, da parte do autor, a preocupação de plasmar a contemporaneidade ("walkman da Sony") bem com de optar por uma economia verbal num poema que abusa das metonímias (“Frank O’Hara estava aberto na secretária”, "Eu tinha Astrud Gilberto/ a cantar", “Os Talking Heads estavam na rádio”). Os únicos elementos – vamos dizer – naturais no meio da malha urbana (lembram-se de “Transpointing”?) são a referência à lousa molhada dos telhados e ao alpendre. Tudo o resto transpira a alusão juvenil. O tom fortuito e desprendido da acção é-nos, assim, transmitido por uma série de imagens que se vão sucedendo com grande descomprometimento, desde o acordar tarde (numa residência para jovens? num apartamento partilhado?) ao aparecer assim em casa de Jim por acaso, passando por escutar música a toda a hora ou por ingerir álcool logo pela manhã. E quando parece que o poema se esgota na descrição de uma manhã igual a tantas outras, eis que a poesia acontece porque Armitage contorna habilmente o facto do poema se oferecer demasiado – por ser expressivamente quotidiano e real, – e tem o rasgo de propor ao leitor um mistério, tornando o poema críptico e elíptico, obrigando-nos a um conjunto de perguntas que ficam no ar (“ela” quem? a namorada de Jim? mas vivia ali? e porque se foi embora de vez? acabaram? morreu de overdose?). Um nível de leitura alusivo conduz-nos ao poeta americano Frank O’Hara e os seus célebres “Lunch Poems”. Frank O’Hara (1926-1966), traduzido para português por José Alberto Oliveira (“Vinte e Cinco Poemas À Hora do Almoço”, Assírio & Alvim, 1995), trabalhou no MoMA de Nova Iorque durante grande parte da sua vida. Muitos dos seus poemas foram escritos em momentos livres à hora do almoço e como resultado disso são textos geralmente curtos e bastante alusivos à contemporaneidade urbana nova-iorquina (O’Hara morreu cedo, aos 40 anos, atropelado por um buggy, nas dunas de Fire Island). No seu poema, Armitage segue o estilo errático e descritivo que caracteriza a escrita de O’Hara, facto que Simon não encobre: o primeiro verso de “Poema” (“Frank O’Hara estava em cima da secretária”) tanto se pode referir à personae do poema como ser uma arte poética de Armitage.

1 comentário:

Patty disse...

Obrigada, gostei muito da sua analise sobre esse poema de Simon Armitage. Estava procurando (ou a procurar, melhor?) textos dele em portugues e cheguei aqui no seu blog. Jah estah nos meus favoritos.
Eu gosto de poesia e adoro a lingua portuguesa, vou voltar aqui para ler tudo com mais calma.

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