quarta-feira, janeiro 11, 2006

FRANK O' HARA

FRANK O'HARA (1926-1966)



WHY I AM NOT A PAINTER

I am not a painter, I am a poet.
Why? I think I would rather be
a painter, but I am not. Well,

for instance, Mike Goldberg
is starting a painting. I drop in.
«Sit down and have a drink» he
says. I drink; we drink. I look
up. «You have SARDINES in it.»
«Yes, it needed something there.»
«Oh.» I go and the days go by
and I drop in again. The painting
is going on, and I go, and the days
go by. I drop in. The painting is
finished. «Where’s SARDINES?»
All that’s left is just
letters, « It was too much», Mike says.

But me? One day I am thinking of
a color: orange. I write a line
about orange. Pretty soon it is a
whole page of words, not lines.
Then another page. There should be
so much more, not orange, of
words, of how terrible orange is
and life. Days go by. It is even in
prose, I am a real poet. My poem
is finished and I haven’t mentioned
orange yet. It’s twelve poems, I call
it ORANGES. And one day in a gallery
I see Mike’s painting, called SARDINES.



§



PORQUE NÃO SOU UM PINTOR

Eu não sou pintor, sou um poeta.
Porquê? Penso que preferia ser
um pintor, mas não sou. Bem,

Mike Goldberg, por exemplo,
está a começar um quadro. Apareço.
«Senta-te aí e toma uma bebida» diz.
Eu bebo; bebemos. Olho para
cima. «Tens SARDINHAS aí escrito».
«Sim, precisava ali de qualquer coisa.»
«Oh.» Eu saio e os dias passam
e eu apareço outra vez. O quadro
está a avançar, eu saio, e os dias
passam. Apareço. O quadro está
acabado. «Onde está SARDINHAS?»
O que resta são apenas
letras. «Era demasiado», diz Mike.

E eu? Um dia estou a pensar numa
cor: laranja. Escrevo uma linha
acerca do laranja. Em breve é uma
página cheia de palavras, não apenas linhas.
Depois outra página. Devia haver
muito mais, não de laranja, de
palavras, de como é terrível o laranja
e a vida. Os dias passam. Até está em
prosa, sou um verdadeiro poeta. O meu poema
está acabado e eu ainda nem sequer mencionei
o laranja. São doze poemas, chamo-lhes
LARANJAS. E um dia numa galeria
vejo o quadro de Mike, chamado SARDINHAS.



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6 comentários:

Reboliço disse...

Comentário-telegrama:
Leio-o como um poema sobre poesia e sobre alusões na arte, das palavras ou da pintura. Leio-o como ekphrasis, poema escrito a partir de uma obra de arte não (apenas) verbal.

Rui Manuel Amaral disse...

Sim. Excelente poema e excelente tradução.

rui disse...

Desculpe, caro JLBG, mas não resisti a comparar com a tradução de José Alberto Oliveira e parecendo-me ambas muito correctas, a verdade é que «Tu tens SARDINHAS aí» e «Tens SARDINHAS aí escrito» dão um ambiente muito [não direi completamente] diverso ao poema.

João Luís Barreto Guimarães disse...

É verdade Rui. E nem sequer lá está o verbo "escrever". Eu devia ter traduzido, não devia ter explicado...

rui disse...

Bem... o meu comentário não era uma censura...
Aliás, não me sinto defraudado com o uso do verbo "escrever", acho até q traduziu o q legitimamente pode ser lido, por isso disse q me parecem ambas muito correctas.

Nancy Brown disse...

a simplicidade... a aparente simplicidade das palavras... é isto a poesia... parece tudo tão absolutamente óbvio... não é?