domingo, janeiro 08, 2006

Ainda acerca de imagens


Um dos níveis onde julgo que o poema se decide, - mais até do que ao nível das figuras de estilo ou da linguagem, - é ao nível das imagens que é capaz de gerar na mente do leitor, aquilo a que Shakespeare chamava “the mind’s eye”. O termo imagem, em poesia, refere-se a uma palavra ou sequência de palavras capazes de gerar uma experiência sensorial no leitor, seja de tipo visual, auditivo, olfativo, ou outro. Para tanto concorrem, como matéria-prima basilar, as palavras, a criteriosa selecção de palavras com suas denotações e conotações. A denotação ou significado de uma palavra refere-se ao seu sentido literal. A conotação diz respeito ao conjunto das associações e sugestões que a palavra suscita em cada leitor. João Miguel Fernandes Jorge sugere-o muito bem em “Poemas”, retirado de “O Regresso dos Remadores”:


POEMAS (1982)

Aspectos perdidos
pequenas sombras ao redor de poderosa imagem.

Aquilo que
distingue a palavra ave da palavra pássaro.


Quando um poeta nos dá a ler a palavra “Setembro”, à maioria de nós não nos ocorre pensar apenas no nome do nono mês, de 30 dias, lá para o final do ano, mas em todo um conjunto de imagens que associamos a essa altura do ano desde a cor castanha das folhas de árvore, aos casacos de gola alta, certos frutos, o tempo frio, tudo quanto concorre para a formação de uma imagem mental. E se de uma só palavra advem este efeito, uma associação de palavras usada com mestria pode construir uma imagem formidável. Ezra Pound (1885-1972), - que recomendava "Go in fear of abstractions", - relata ter escrito “In a Station of the Metro”, após ter saído de uma estação em Paris:


IN A STATION OF THE METRO (1916)

The apparition of these faces in the crowd;
Petals on a wet, black bough.


NUMA ESTAÇÃO DE METRO

A aparição desses rostos na multidão;
Pétalas num ramo preto e molhado.


É claro que este pequeno poema encerra duas metáforas - as faces partilham a cor clara, a forma oval e a disposição alinhada com as pétalas bem como a multidão partilha com o ramo de árvore a cor escura, - mas no exemplo o que interessa realçar é enfatizar a forma como a imagem de Pound é capaz de nos transportar ao nível da figuração através do uso de uma imagem. “A imagem”, escrevia Pound, "é aquilo que nos apresenta um complexo intelectual e emocional num dado instante do tempo”. É claro que nem todos os poetas partilham desta opinião - que não representa meramente uma opinião mas toda uma corrente literária, o Imagismo. Não era o caso de William Carlos Williams. O poeta de Rutherford secundava Pound e acrescentava "No ideas but in things”, com o que queria defender que as coisas do nosso mundo, - nomes, substantivos - deviam compor uma boa parte do poema, não as ideias vagas, as abstracções. As imagens, porém, podem ser de outro tipo. O célebre poema de T.S.Eliot (1888-1965), “The winter evening settles down” (1917), de “Preludes”, que se inicia com os versos:


“The winter evening settles down
With smell of steaks in the passageways.”

“O entardecer de inverno vai descendo
Com cheiro a bifes nos corredores.”


invade-nos com uma imagem olfativa nada agradável que teria sido com certeza muito ao gosto do nosso Cesário, umas boas décadas antes. Ou podem ser imagens auditivas, como acontece no poema “Uma Inocência” (2002), de Luís Quintais (Angola, 1968), onde recorre ao uso de uma onomatopeia (palavra que soa de forma similar ao seu significado):


“Aves devoram o lixo.
Debatem-se sob o peso da gula
investindo ciladas, disposições

de onde se isenta a alma.
Flap, flap, flap, fazem asas
no negro plástico. (…)”


Termino com uma breve nota a um tipo especial de poesia onde o valor de uma imagem constitui o estado da arte: o haiku. O haiku – não por acaso muito ao gosto dos Imagistas – é um poema de origem oriental que teve em Basho, Buson e Issa, três dos seus grandes mestres. Neste género, a imagem surge-nos de forma concentrada e concisa, geralmente inspirada na natureza, como acontece neste poema de Jorge Sousa Braga:


NENÚFARES (1998)

Um nenúfar flutua
na mesma água
que a lua


Até amanhã.

6 comentários:

embaixador disse...

Caramba muito bem expresso o seu pensamento. Jesus! será q estamos tendo um ressurgimento de valores, talentos? Tenho a honra de lhe dizer, deste humilde ser, q vc conseguiu expressar a beleza da poesia e do romance, da escrita num plano geral. Mas eu tenho como definição além do q disseste q o poeta é o q consegue em poucas palavras passar tudo o q deixaste. Já o romancista é quem se alonga. O poeta é sintatico,não achas o mesmo? Boa semana Parabéns

amigo celestial disse...

Um amigo me confessou: disse-me ele, q a sonortdade das palavras pintam a tela da visão de acordo com o ingrediente principal o amor, a emoção , o sentimento q o escritor pinta as suas telas, na alma de cada pessoa. Muito bom, excelente,. Parabéns.
Estou chegando no sapo,
com a proposta de ser um ouvido
para os q não possuem com quem falar
e um ombro amigo para tentar consolar os aflitos.
Bastara entrar em contato.
Eternizamos este momento,
muito grato por dele participar,
pois nunca mais outro igual havera.

Anónimo disse...

És mesmo a pessoa mais indicada para dar lições «de Letras».Além disso, os exemplos são excelentes,os poetas citados...Parabéns.

Reboliço disse...

Obrigada por mais esta lição. Não é por acaso que o ramo preto com pétalas, do Pound, aparece quase a encimar um post que termina com haikus.

Sámot disse...

Ciao,

Pardon, me non Portugisé...! I like your blog. The humanitarians are rare enough now-a-days.

We may even prevail somewhat!

"Dans le petit bar, c'est la qu'elle régne.
On voit flamber sa toison d'or,
Sa bouche est comme un fait qul saigne,
Mais on dit que son coeur est mort"

"A l'enseigne de la fille sans coeur", Gilles.


But my favourite is this I think, Patrick Kavanagh's 'Shancoduff':

My black hills have never seen the sun rising,
Eternally they look north towards Armagh.
Lot's wife would not be salt if she had been
Incurious as my black hills that are happy
When dawn whitens Glassdrummond chapel.

My hills hoard the bright shillings of March
While the sun searches in every pocket.
They are my Alps and I have climbed the Matterhorn
With a sheaf of hay for three perishing calves
In the field under the Big Forth of Rocksavage.

The sleety winds fondle the rushy beards of Shancoduff
While the cattle-drovers sheltering in the Featherna Bush
Look up and say: ‘Who owns them hungry hills
That the water-hen and snipe must have forsaken?
A poet? Then by heavens he must be poor.'
I hear and is my heart not badly shaken?




Ah Paddy Kavanagh was the man to set your clock by! Well I'm afraid this might be all too Irish for you, but for that I can only apologise for not knowing Portugese. Perhaps some day I'll pick up a few phrases.
Til then, abiento, ciaou bella et bon chance!

Barretoivoski disse...

Este amigo brasileiro chega ao seu blog pelo Google. A qualidade dos textos é boa, muito explicativa. Acho, no entanto, que a imagem só existe em uma forma e uma construção.