domingo, fevereiro 20, 2011

JOSEBA SARRIONANDIA


JOSEBA SARRIONANDIA nasceu em Irrueta, no País Basco, em 1958 e é formado em Filologia Basca. É membro fundador do grupo literário POTT, que teve uma importancia fundamental no desenvolvimento da literatura basca nos anos 80. A sua colaboração com a ETA levou-o à prisão em 1980, condenado a 18 anos de cadeia, da qual fugiu em 1985 escondido dentro de um sistema de colunas de som após um concerto, desconhecendo-se o seu paradeiro desde então. A espectacular fuga inspirou uma famosa cantiga "Sarri, Sarri" do grupo basco Kortatu. Muito activo literariamente, traduziu entre outros Fernando Pessoa. É um dos poetas cuja obra poética mais influência exerce sobre as novas gerações. Segundo Mari Jose Olaziregi, para Sarrionandia «toda a literatura é, em última análise, metaliteratura. Depois da morte de Deus, e da morte do Autor, a apropriação de textos de outros, das vozes dos outros, tornou-se essencial na era postmoderna». Eis dois poemas de Sarrionandia, trazidos do inglês, retirados do excelente livro “Six Basque Poets” (Arc Publications, Todmorden, UK, 2007, tradução de Amaia Gabantxo, edição de Alexandra Büchler). Com a devida vénia.



UMA PILHA DE SAPATOS QUEBRADOS

A viagem podia ser uma metáfora para a vida.
A morte, uma pilha de sapatos quebrados sob um luar
que brilha somente para si próprio.
Após uma vida de pegadas, as solas
já não se lembram do que pisaram.
Uma pilha de sapatos quebrados, privados de cordões,
porque os viajantes os removeram
para se irem enforcar noutro lugar.


§


PROPOSTA POÉTICA

O destino foi muito cruel
quando fez de nós poetas.
A poesia não é uma arma carregada de futuro,
como esse tal de Gabriel propôs.
Além disso, o futuro – digam lá, a sério –
é pólvora molhada.

Não quero complicar a nossa triste sina,
meus companheiros de escrita,
mas todos temos escrito suficientes versos
brilhantes e medíocres,
quase todos já escrevemos palavras
para as canções de um cantor famoso,

todos já tivemos uma coisa ou duas traduzida
para uma antologia,
quase todos produzimos um argumento
por encomenda,
já recebemos um prémio ou dois
e gozamos da lisonja,

somos todos jogadores, maiores ou menores
do lamacento campo do jornalismo,
todos desfraldamos as velas da memória, tilintamos
os sinos do virtuosismo, e agora,
depois dos poetry slams, etc., o que é que vocês diziam
de começamos a escrever poemas mesmo?


3 comentários:

Camilla disse...

essa peça maravilhosa (segue o link) é baseada na obra de JOSEBA SARRIONANDIA. Depois que a assisti, fiquei em busca por seus versos, mas quase nada achei. Se tiver mais alguma coisa dele e puder me passar, ficarei agradecida

http://www.youtube.com/watch?v=BeIjWKFVHVw

Jânio Lima disse...

Camila acabei o neste blog e adorei a poesia e a história de vida dele. Abraços!http://arspoetica-lp.blogspot.com/search/label/Joseba%20Sarrionandia

Tamborim Zim disse...

Muito.