domingo, janeiro 30, 2011

MILAN DJORDJEVIĆ

Nos poemas de MILAN DJORDJEVIĆ (Belgrado, 1954) coexistem surrealismo e realidade, imaginação e autobiografia, entre visíveis influências dos eslovénios Dane Zajc e Tomaž Šalamun, bem como alusões a Walt Whitman e Frank O’Hara. Filho de mãe comunista, filha rebelde de uma família de classe alta jugoslava, e pai arquitecto, anti-comunista, Milan estudou numa escola de arte para se fazer pintor mas acabou por se tornar um dos poetas contemporâneos mais respeitados da Sérvia. Um grave acidente (atropelamento numa passadeira em Belgrado, em 2007), deixou-o em coma durante semanas, porém após um longo período de reabilitação voltou a escrita com poemas onde o negrume está mais patente. Charles Simic acaba de traduzir para inglês “Oranges and Snow” (Princeton Univertsity Press, 2010), uma colecção de poemas de Djordjević que abarca poemas retirados de todos os seus livros, de onde seleccionei estes quatro textos que transporto (em duplo salto, portanto) para português.



GRANDE E PEQUENO

para Anne-Lise Gautier

O poeta Bashô ensina que os famosos feitos
dos lideres militares ensanguentados dão em nada
enquanto o pulo de uma rã pode durar séculos.

Nuvens negras e chuva chegam desde o Atlântico.
O sol saira mas agora, sobre Saint-Nazaire
Grãos de gelo caem do céu como arroz escuro.

Os poetas são criaturas quase sempre sem conteúdo,
homens que dizem coisas tontas e inverosímeis,
loucos e faladores que imaginam o que lhes apraz.

E no entanto, no entanto, sussurram acerca de milagres,
discorrem sobre o que os outros nem sequer suspeitam,
de modo que suas palavras ardem na escuridão, fosforescendo.

O poeta japonês Bashô ensina-me
que o que está perto pode ser assustadoramente distante e que uma jornada
para um lugar longínquo traz-nos para mais próximo de nós próprios.

Sobre o Atlântico, o céu escureceu,
o granizo caiu ainda há momentos, e agora a cidade brilha
nos raios de sol sob o céu claro.


§


PÃO


Tem a forma da bondade.
Quão pacientemente aguarda
na tábua de madeira.

Com felicidade esperando o rápido veredicto,
uma faca no dorso
ou ser fatiado em pedaços.

O mundo inteiro é um pão.
Morde-o
como se ele fosse o corpo do filho único de Deus.

Vá, avança e fá-lo,
quebra a crosta
e o silêncio cairá.

O silêncio do principio,
Ah, o silêncio ardente
enquanto o mundo acaba.


§


DOIS POMBOS


Vejo-os pousados no fio eléctrico
negro, estirado sobre a nossa rua.
É um dia sombrio, chuvoso, o céu está cinza.
Vejo-os apertados um contra o outro.
A chuva cai suavemente e molha suas penas.
Eles mal movem as cabeças,
e nunca se entreolham entre si.
É o amor ou o calor o que os mantém unidos?
Estarão protegendo-se dos frios pingos de chuva?
Não faço ideia, apenas reparo
na proximidade de seus corpos
sobre aquele arame negro e espesso,
dois seres plumosos cinza
unidos numa única pergunta.
Quando a seguir me acontece olhar para fora,
vejo o arame vazio,
como se de repente ambos tivessem levantado asas,
deus sabe para onde e porquê.


§


NUVENS BRANCAS



Nuvens da Toscânia, nuvens da Úmbria.
Pálidas nuvens brancas pintadas por
Piero della Francesca e Bellini.

Nuvens que passam no céu claro
enquanto como todos os outros
eu navego para a minha morte,

animem-me com a vossa brancura,
rompam o meu silêncio com o vosso trovão,
despertem meu sangue com a vossa chuva,

para que eu possa ver claramente o passado escuro,
o ruidoso presente, o mudo futuro
num abismo sem cume nem fundo.

1 comentário:

Curiosa disse...

adorei a coletânea de seu blog ... virei seguidora ... abraço grande ...