segunda-feira, agosto 02, 2010

NUNO ROCHA MORAIS

Nuno Rocha Morais (Porto, 1973 – Luxemburgo, 2008) licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses e Ingleses) na Faculdade de Letras da Universidade do Porto em 1995. Foi jornalista de O Comércio do Porto tendo em 1999 integrado a equipa de tradutores da Comissão Europeia, no Luxemburgo, desempenhando desde 2007 as funções de coordenador linguístico do Departamento de Língua Portuguesa. Conheci Nuno Morais em 1994 no Café Corsel, enquanto escrevia Lugares Comuns, após uma entrevista que me solicitou para a revista Hey!, a propósito de Este Lado para Cima (Limiar, 1994), o livro que eu tinha acabado de publicar na editora de Egito Gonçalves. Entusiasta mas reservado para os seus próprios assuntos, nunca me disse que escrevia, que era poeta, facto que apenas agora vim a descobrir graças à edição de parte da sua obra levada a cabo por Joana Matos Frias. Os poemas que se seguem respiram Europa por todos os poros, e foram retirados do seu único livro "Últimos Poemas", publicado póstumamente pelas Quasi, em Maio de 2009. De uma maturidade assinalável.



A dança lê o espaço
E só onde pousa o corpo
Não é o vazio.
Conheceis o deslumbre
De um mundo que só existe
A cada gesto.


§


Quando a meia-noite começa a beber as almas,
Quando os copos ganham fundo
E para muita desta fauna nocturna
O mundo parece mais próximo do fim,
Eis chegada a hora de Jean-Claude;
A hora escondida pelo dia inteiro,
A hora de ajudar Maria, a bela de serviço,
Nas últimas tarefas do bar antes do fecho.
Não importa o que digam:
Se é demência de velho, se é ridículo,
Se é patético, se é risível, se é confrangedor.
Deixar esses juízos para as vidas secas
Que se comprazem nos aforismos sobre a solidão,
Como há tanta e como é triste. Que lhes preste.
Jean-Claude nada pede a Maria,
Ou apenas, tacitamente, que se deixe amar um pouco.
Maria nada oferece a Jean-Claude,
Salvo um arisco e moreno deixar-se amar,
Um deixar-se amar fugindo, como de ninfa.
Este é um amor que merece muitos amigos.
Todas as noites, à saída, alguém descobre uma lágrima
No rosto de Jean-Claude, mais pura
Do que um sapato de cristal numa escadaria.


§


UM DITADOR FAZ A BARBA

Ao príncipio, é apenas um córrego
Em solo feroz, acicatado,
Mas também uma ternura no dorso da fera
Que, em aparência, se deixa possuir
Pela metamorfose da cordura.
A lâmina protagoniza uma estação -
Ao espelho, tabuleiro cósmico,
Persegue todos os vestígios
Da anterior.
Há uma vegetação em fuga
De cardos e cerdas, por entre espumas.
Os poros são agora um solo arável, macio,
E o rosto emerge como uma civilização.
Todas as manhãs, ao fazer a barba,
Há este prazer da tirania
Na matança dos inocentes,
Num massacre de camponeses.


§


Deveria ser dado que morrêssemos
Com um amor ainda vivo em nós,
Como deveria ser dado a um pássaro
Morrer naturalmente em pleno voo.


1 comentário:

Luís Filipe Nunes disse...

Tem um erro; o correcto é postumamente. Na verdade, não conheço nenhuma palavra que termine em mente e leve acento.

É mais que justo lembrar o Nuno e os que partem mas deixam a «mordedura que queima,(d)o corpo que já não aceita o que se respira.»