
A dança lê o espaço
E só onde pousa o corpo
Não é o vazio.
Conheceis o deslumbre
De um mundo que só existe
A cada gesto.
§
Quando a meia-noite começa a beber as almas,
Quando os copos ganham fundo
E para muita desta fauna nocturna
O mundo parece mais próximo do fim,
Eis chegada a hora de Jean-Claude;
O mundo parece mais próximo do fim,
Eis chegada a hora de Jean-Claude;
A hora escondida pelo dia inteiro,
A hora de ajudar Maria, a bela de serviço,
Nas últimas tarefas do bar antes do fecho.
Não importa o que digam:
Se é demência de velho, se é ridículo,
Se é patético, se é risível, se é confrangedor.
Nas últimas tarefas do bar antes do fecho.
Não importa o que digam:
Se é demência de velho, se é ridículo,
Se é patético, se é risível, se é confrangedor.
Deixar esses juízos para as vidas secas
Que se comprazem nos aforismos sobre a solidão,
Como há tanta e como é triste. Que lhes preste.
Jean-Claude nada pede a Maria,
Ou apenas, tacitamente, que se deixe amar um pouco.
Maria nada oferece a Jean-Claude,
Que se comprazem nos aforismos sobre a solidão,
Como há tanta e como é triste. Que lhes preste.
Jean-Claude nada pede a Maria,
Ou apenas, tacitamente, que se deixe amar um pouco.
Maria nada oferece a Jean-Claude,
Salvo um arisco e moreno deixar-se amar,
Um deixar-se amar fugindo, como de ninfa.
Este é um amor que merece muitos amigos.
Um deixar-se amar fugindo, como de ninfa.
Este é um amor que merece muitos amigos.
Todas as noites, à saída, alguém descobre uma lágrima
No rosto de Jean-Claude, mais pura
Do que um sapato de cristal numa escadaria.
§
UM DITADOR FAZ A BARBA
Ao príncipio, é apenas um córrego
Em solo feroz, acicatado,
Mas também uma ternura no dorso da fera
Que, em aparência, se deixa possuir
Do que um sapato de cristal numa escadaria.
§
UM DITADOR FAZ A BARBA
Ao príncipio, é apenas um córrego
Em solo feroz, acicatado,
Mas também uma ternura no dorso da fera
Que, em aparência, se deixa possuir
Pela metamorfose da cordura.
A lâmina protagoniza uma estação -
Ao espelho, tabuleiro cósmico,
Persegue todos os vestígios
Da anterior.
Há uma vegetação em fuga
De cardos e cerdas, por entre espumas.
Os poros são agora um solo arável, macio,
E o rosto emerge como uma civilização.
Todas as manhãs, ao fazer a barba,
Há este prazer da tirania
Na matança dos inocentes,
Num massacre de camponeses.
§
Deveria ser dado que morrêssemos
Com um amor ainda vivo em nós,
Como deveria ser dado a um pássaro
Morrer naturalmente em pleno voo.
A lâmina protagoniza uma estação -
Ao espelho, tabuleiro cósmico,
Persegue todos os vestígios
Da anterior.
Há uma vegetação em fuga
De cardos e cerdas, por entre espumas.
Os poros são agora um solo arável, macio,
E o rosto emerge como uma civilização.
Todas as manhãs, ao fazer a barba,
Há este prazer da tirania
Na matança dos inocentes,
Num massacre de camponeses.
§
Deveria ser dado que morrêssemos
Com um amor ainda vivo em nós,
Como deveria ser dado a um pássaro
Morrer naturalmente em pleno voo.
1 comentário:
Tem um erro; o correcto é postumamente. Na verdade, não conheço nenhuma palavra que termine em mente e leve acento.
É mais que justo lembrar o Nuno e os que partem mas deixam a «mordedura que queima,(d)o corpo que já não aceita o que se respira.»
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