quarta-feira, janeiro 04, 2006

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

À semelhança de alguns leitores deste blog – e de tantos leitores de poesia em geral, – também não me parece indispensável conhecer o contexto em que um poema foi escrito para o poder compreender. Até porque, o poema resultante de um momento de inspiração do poeta pode ter muito pouco a ver com essa epifania. Não quer isso dizer no entanto que paralelamente não me agrade conhecer a biografia de um autor como informação complementar. Afinal de contas, quem resiste a não querer saber que William Carlos Williams, por exemplo, terá sido pediatra de… Allen Ginsberg?

Por isso têm razão, na minha modesta opinião, Vincent Bengelsdorff quando comenta que o poema é “mais universal” sem a explicação - o que vejo como positivo, - e Jorge quando diz que se é verdade que se ganhou “uma referência, um ponto de partida”, também se perdeu alguma “liberdade de interpretação” - o que sinto como negativo.

Mas uma coisa é contexto, outra é o texto. Diferente parece-me ser o caso do uso de alusões por parte de um poeta. Aí, não vejo alternativa senão procurar informação adicional. A alusão é uma referência indirecta a uma pessoa, um lugar ou uma coisa, seja fictícia, histórica ou actual, usada no contexto de uma obra. Há quem goste de lhe chamar, depreciativamente, name-dropping. Lloyd Cole, por exemplo, confessou-me que detestava que lhe chamassem name-dropper. Dizia-me que se em “Rattlesnakes” cantava “she looks like Eva Marie Saint in On the Waterfront/ she reads Simone de Beauvoir in her American circumstance”, não o fazia meramente por estilo mas porque a alusão lhe poupava diversos adjectivos: era mesmo assim, através do recurso à alusão, que pretendia caracterizar aquela personagem feminina.

As alusões, no entanto, podem afastar os "preguiçosos" da poesia. Para entender uma alusão temos por vezes que vasculhar por informação que desconhecíamos. Isso não deve ser sentido como um sinal irreparável de falta de cultura, antes sim como um incentivo à pesquisa e ao conhecimento. Dou dois exemplos. Começei a interessar-me pela obra de Vermeer, ao ponto de agora constituir uma verdadeira paixão, depois de ter lido o seu nome num poema de Luís Quintais. E mais este exemplo ainda: Há um poema no primeiro livro de João Miguel Fernandes Jorge (Bombarral, 1942), Sob Sobre Voz, – poeta cuja obra estimo ao ponto de também eu ter escolhido quatro nomes para me nomear em poesia, – que pode bem ilustrar este ponto:


22

Quero falar de Amadeu,
talvez nascido a 11 ou 12
de novembro. Era 1919 e
tinha já então muito de

velho. As mulheres gostaram
dele (seduzindo-o na sua
própria vida de cigano) e
do outro lado da montanha

percebiam como sabia de
crisântemos, azuis (do
mesmo azul das dunas).

Ainda o visitam, mas o
tempo de Amadeu é agora
uma ilha perdida de Bocklin.


Este é um dos muitos poemas de João Miguel Fernandes Jorge que ainda hoje trago por compreender integralmente, no entanto, a sua obra exerce sobre mim um inexplicável fascínio. O poema encerra duas alusões directas a um (possivelmente dois) pintores: Arnold Bocklin - e ao seu famoso quadro A Ilha dos Mortos, de 1886, (o quadro preferido de Adolf Hitler, by the way), - e Amadeu. Sendo o poema de João Miguel Fernandes Jorge, também crítico de arte, a primeira vez que o li julguei tratar-se de Amedeo Modigliani (1884-1920), mas para além da discordância ortográfica (Amadeu/Amedeu) que logo à partida excluia essa possibilidade (a João Miguel Fernandes Jorge jamais escaparia tal gralha), o italiano nasceu a 12 de Julho. Seria interessante que assim fosse porque, a par da sua vida errante (“sua/ própria vida de cigano”), Modi era também conhecido pelo seu imenso sucesso entre as mulheres. Descartado que estava Modigliani, pensei depois que se pudesse tratar de Amadeu Souza-Cardoso (1887-1918), mas o pintor de Manhufe nasceu a 14 de Novembro e faleceu, de influenza, a 1918. O Amadeu do poema continuava vivo para além de 1919. Acatei portanto que se tratava de um personagem cujos dados biográficos me seriam desconhecidos o que, diga-se de passagem, nenhum brilho retirava ao poema. Voltei-me então para a alusão a Bocklin, essa tida como bastante provável.

Assumindo Amadeu como uma personagem anónima, exploremos então a alusão a Bocklin que - porque encerra o poema, - o domina. A Ilha dos Mortos é uma têmpera sobre madeira de mogno, 80 por 150 cms, de que existem pelo menos cinco cópias, uma das quais se encontra no Museum der Bildenden Kunste, em Leipzig. Tive oportunidade de a ver em Paris, na tão falada exposição sobre a Melancolia. Foi pintado por Bocklin com o intuito de ser um quadro para sonhar: “Terá que parecer tão silencioso que nos assustemos se alguém bater à porta”. Anna-Carola Kraube, na sua História da Pintura (Konemann, 2000), fala-nos do quadro: “o sombrio porto da ilha aparece como ponto de chegada de todos os acontecimentos e irradia uma calma secreta e inquietante. Será aquilo um lugar de culto ou um jazigo? Quem está no barco: uma figura de sacerdote ou uma alegoria de alma errante? Todas as perguntas ficam propositadamente sem resposta. Os detalhes narrativos destinam-se a provocar um ambiente onde a fantasia predomina, onde reina a tranquilidade solene, a despedida e a nostalgia”.


Já no posfácio à sua Obra Poética 1, João Miguel Fernandes Jorge nos diz: “Agora quero lembrar ainda Aristóteles, quando nos diz que é impossível pensar sem recorrer à imagem. Imagens, fantasmas são o que são estes poemas. Imagens que estão a passar, acabaram de passar, irão passar; ou que não sabemos se alguma vez, sequer, existiram; mas sempre imagem, coisa manifesta.

Estaremos então em condições de arriscar, com a devida vénia, uma breve paráfrase de leitura ao poema 22 de Sob Sobre Voz: “Pretendo agora falar de Amadeu, nascido em data incerta, desde muito novo já se sentindo velho. Amadeu agradava às mulheres, na sua vida nómada, que para lá da sua aparência conseguiam perceber como era sensível. Nunca se esquecem de o visitar, mas fazem-no agora num sítio de despedida e nostalgia.”

Eu sei... eu sei... Peço desculpa a João Miguel Fernandes Jorge pela paráfrase mas reparem que o poema continua todo lá, belo, inteiro, insubstituível. Quem foi mesmo que disse que a poesia era aborrecida?


3 comentários:

Inês disse...

João Luís,

Excelente post. Pela temática, pelo poeta visitado, pelo poema, pela descrição do trabalho amoroso, da recepção de um bom poema. Que aliado ao trabalho amoroso que certamente deu a escrever, - embora não pareça...e aí está o signo da qualidade - põe em evidência a densidade e profundidade do "trabalho poético", para usar a expresaao de Carlos de Oliveira.

Muitas vezes, as referências, em, poesia,como sabemos, são fusões de identidades. O poeta cria identidades, com referências "reais". E lá voltamos nós aquele senhor que foi menino para a África do Sul...

Muitos parabéns por esta nova janela!

Inês Lourenço

rui disse...

Quando vi 1919, lembrei-me de Jorge de Sena, q nasceu nesse ano e q é de particular estima de JMFJ.
Bem sei q não há qualquer referência a JS, mas não pude deixar de fazer a associação institntivamente.

Rui Lage disse...

João, magnífico. Fico ansiosamente à espera de um livro de ensaios. Era um serviço que nos prestavas, não nos desapontes.
O teu blogue é, sem dúvida, o melhor de poesia na web.

Um abraço,
Rui Lage.