sábado, junho 09, 2012

MANUEL ANTÓNIO PINA (4)

Apresentação de “Todas as palavras - poesia reunida”, de Manuel António Pina - Feira do Livro do Porto, 8 de Junho de 2012

por João Luís Barreto Guimarães



Uma das poucas características que diferencia romancistas e poetas é o facto de aqueles escreverem vários livros ao longo da vida, enquanto que os poetas escrevem apenas um; um livro único, vendido em fascículos, que saem de 2 em 2, de 4 em 4, de 10 em 10 anos, intitulado “Poesia reunida”, ou “Todas as palavras”, ou “Poesia Toda”, ou “Poesia Completa”, ou algum outro título pomposo e incisivo - habitualmente um verso da obra em questão, - que falha sempre em se constituir como um mínimo denominador comum que resuma a obra.

Pessoalmente, como acredito com Jorge de Sena e outros, que “Toda a poesia é circunstancial”, nas duas reuniões a que procedi até hoje (em 2001, na Gótica, dos três primeiros livros, e agora na Quetzal, dos primeiros sete), sempre dei enfase não apenas ao ano em que cada livro saiu mas também, como agradaria mais a Egito Gonçalves, ao intervalo de anos em que os poemas foram escritos. Porque, em maior ou menor grau, poesia é biografia.

E, se é verdade que há obras que ganham corpo por justaposição ao longo de uma vida literária - alguns de nós preferindo reuni-la de trás para a frente, outros da frente para trás, - outros poetas há como Charles Baudelaire, ou Walt Whitman, ou Konstandinos Kavafis que ao longo das suas vidas foram publicando, com maior ou menor dificuldade, exactamente o mesmo título, não por justaposição de livros, de fascículos - e por favor desconfiem sempre dos poetas que vos oferecem um fascículo novo a cada seis meses, – antes por estrita justaposição de poemas: “As Flores do Mal”, no caso do francês, “Folhas de Erva”, no caso do americano e “Os Poemas”, no caso do grego.

Ao poeta que reúne a sua obra ao fim de 20, ou 40, ou mais anos de ofícina, coloca-se sempre a questão de a rever não com o “olho da mente”, como diria o bardo inglês, mas com as mãos. Refiro-me ao eliminar de poemas, ou mesmo ao eliminar de livros inteiros. Wisława Szymborska, a Nobel polaca de 1996, rejeitou liminarmente os seus dois primeiros títulos, iniciando a reunião da obra com “Chamada para Yeti” (1957), onde o abominável homem das neves surge como personificação de Estaline. Os dois primeiros livros rejeitou-os fundamentalmente por razões políticas: para poder publicar no inicio da sua vida adulta, numa Polónia então sob o jugo soviético, tivera de se inscrever no Partido Comunista Polaco, e de se render aos encantos do realismo socialista, fase engajada do seu trabalho com a qual, muito antes dos eventos do Solidariedade e da Polónia democrática, deixara de se identificar. Nenhum desses poemas foi posteriormente recuperado. A lição a tirar deste pequeno apontamento histórico é o quão vã se pode revelar a tentativa de colar o poema a uma agenda, quão tola é a poesia que serve interesses, que não espera pacientemente o seu tempo e vez; quão inútil pode ser o poema que se põe em bicos de pés. Por uma razão muito simples: o texto poético deve aspirar à universalidade e a existência de uma agenda escondida, qualquer que ela seja, apenas serve o particular. Este é um dos erros mais frequentes do jovem poeta.

Diferente motivação moveu Eugénio de Andrade – e não me socorro destes dois nomes maiores por mero acaso, nesta homenagem a Manuel António Pina, - ao rejeitar os seus dois primeiros títulos “Adolescente” e “Pureza”, recuperando somente uma mão cheia de poemas para a quasi-plaquete “Primeiros Poemas”, que passou a anteceder “As Mãos e os Frutos”. A dada altura do seu percurso, ao deter-se na juvenília que produzira, Eugénio terá rejeitado os referidos poemas por razões de matutidade. Outros casos existem, felizmente mais raros, em que o conjunto da obra é submetido a uma completa metamorfose - que surpreenderia o próprio Gregor Samsa, - como ainda recentemente ocorreu com um conhecido poeta da geração de MAP, dando origem a outra coisa que não uma simples colecção de livros. Outra coisa ainda. E essa coisa, não é necessáriamente mais linda.

Nenhuma dessas situações ocorreu com Manuel António Pina: a sua poesia já nasceu madura. MAP já reuniu a sua obra poética em três momentos, e fê-lo sempre com a atitude inclusiva de não rejeitar nenhum dos seus poemas, o que me apraz realçar. Porque esse tipo de opção tem a vantagem de deixar perceber um percurso, um caminho, os alicerces de uma poética, da sua formulação à complexidade. E que percurso é esse, em MAP? Qual a importância do caminho, na poesia de MAP?

Uma das características mais evidentes que esta releitura realça - e que simultaneamente mais seduz na poética de MAP, - é a visão de mundo, o ponto de vista, a perspectiva, a posição de permanente dúvida e questionamento em que a personna que fala nos seus poemas, se posiciona:

“Kindergarten" : "As filhas brincam fora de o quê, / que infinitamente se interroga? / O fora de elas é dentro / de que exterior centro? // Quem está lá aqui / assistindo a isto e a mim, / e às filhas brincando e ao jardim? / Que coisa essencial em qualquer sítio perdi? // Também eu ou alguém brincou há muito tempo / em outro jardim, brincando. / Sem que palavras lá estando? / Fora de que memória não me lembrando?” (p. 147)

É lícito interrogarmo-nos se entendemos o poema: o poeta está dentro ou fora do jardim? Ele observa as filhas, ou é observado? Vê realmente o jardim, ou relembra apenas imagens da infância, na memória do passado? Qual a chave de leitura deste poema, desta poesia? Como entender esta indefinição, aceitando as hesitações deste jogo de espelhos?

Dir-se-ía que em MAP tudo pode ser a coisa, e o seu contrário. Mas simultaneamente? Não será isso da ordem do ilógico, do absurdo, do surreal?

Esta abertura a múltiplas possibilidades – que não desagradaria a Pascal, - materializa-se logo desde o início da obra, com a apresentação de várias “Segundas Pessoas” como Billy de Kid de Mota de Pina, Clovis da Silva ou Slim da Silva, o que provoca um efeito surreal onde aparentemente (com Cesariny): “Falta aqui uma grande razão”. Mas uma vez entendida - e de certa forma superada, - a lição heteronímica de Pessoa e proposta uma chave de leitura para estes poemas, facilmente se percebe que esta poética não é de natureza surrealista.

Porque a chave de leitura destes poemas, definida logo desde o primeiro verso, é a seguinte: o seu grande tema é a identidade - do poeta, das coisas, dos animais (“entre estando e sendo”, p. 275); o seu sistema é a dúvida; a sua figura de eleição o paradoxo.

Começemos pela identidade: como sabemos, no conceito de alteridade (ou outridade) está implicita a ideia de que todo o homem interage com outrém; o que equivale a dizer que só é possivel afirmar a existência de um "eu" mediante a assunção da existência de um “outro”, à partida diferente. Dessa forma, o individuo é igual a si próprio – é ele próprio, – e é diferente do outro.

Na sua poética, MAP não permite nunca que se estabeleça uma fronteira definitiva de identidade entre o “eu” e o “outro”, recorrendo com naturalidade, refira-se, quer na poesia quer no seu discurso coloquial quotidiano, à dúvida - o que não desagradaria a Descartes, - para definir a identidade do poeta. Escreve MAP:

“O meu trabalho / é destruir, aos poucos, tudo o que me lembra.” (p. 17);

“Procuro o sentido / (...) para o liquidar.” (p. 17);

“transformo-me no que me proponho destruir.” (p. 68).

Slim da Silva, um falso heterónimo que criou, ajuda-nos a entender esta posição:

“A minha situação é um pouco a de quem anda à procura de uma pessoa e encontra outras. Estou sempre a começar e a acabar tudo, e tenho um sentimento de flutuação em qualquer sítio fora de qualquer sítio. É sempre outro quem está a escrever isto, e às vezes alguém conhecido! Escrevo à máquina porque a minha letra, ou lá de quem ela é, não me sai bem. É melhor parar de falar também sobre isto – quem quer que esteja a fazê-lo – para não correr o risco de, em vez de Escrever, fazer Psicologia...” (p. 90).

Ou seja: a personna que fala nos seus poemas – quem quer que ela seja, apetece dizer – tem a exacta noção de que a identidade é algo da ordem da indefinição.

“Já tudo é tudo.” (p. 12);

“O sentido de tudo / confunde-se com tudo” (p. 72).

Em todas as coisas que o rodeiam, na sua particular visão de mundo, parece assim estabelecer-se um infindável cortejo de contrários – que não desagradaria a Parménides - em que o poeta tudo questiona do que está à sua volta, tudo põe em causa, progredindo por avanços e recuos, acabando por não escrever nunca o verso definitivo que permitiria aos seus leitores distinguir entre principio e fim, palavras e silêncio, centro e periferia, presença e ausência, imobilidade e movimento, dentro e fora, esquecimento e lembrança, infância e presente - até mesmo poesia e prosa - num não mais parar de contrários que alimentam de paradoxos a linguagem com que MAP constrói o poema. Porque:

“Já tudo é tudo.” (p. 12);

“O sentido de tudo / confunde-se com tudo” (p. 72).

A poesia de MAP inquieta-nos, também porque não nos dá esse consolo, o conforto da definição. Obriga-nos, poema a poema, a entrar no jogo - como uma boneca russa de onde saisse uma boneca russa de onde saisse uma boneca russa - obrigando-nos a questionar, embalando-nos com um muito peculiar uso do ritmo, com uma falsa rima de proximidade, onde os verbos (ser, estar, lembrar, morrer) assumem um papel chave, jogo esse, deixem-me dizê-lo, da ordem do génio:

“O braço que falta ao mendigo é que o sustenta.” (p. 45);

“Só me faltavas tu para me faltar tudo” (p. 13).

Se é verdade que “toda a poesia é jogo” (Miroslav Holub), então as possibilidades deste jogo em particular revelam-se infindáveis. Com a vantagem de MAP nos respeitar enquanto leitores: para que não nos aconteça cair demasido fundo no poço da abstracção, o poeta procura exemplos concretos que lhe permitam materializar uma resposta à nossa dúvida. E não, o poeta não está a zombar connosco. O que se passa é que ele próprio não sabe a resposta. A nossa dúvida também é a dele: será o poeta ele mesmo ou a sua sombra no chão? Ele próprio ou a sua imagem ao espelho? Ele ou o ausente do casaco, vestido aos ombros de uma cadeira? O que está aqui ou o que está para lá da porta? O que vive na casa ou o nocturno intruso? O que existe hoje, agora, ou o da infância, da memória, do passado?

“eu sou o lugar onde tudo isto se passa fora de mim” (p. 78);

“Quando eu falo quem sou eu que estou a falar?” (p. 92);

“Que coisa morreu / na minha infância / e está lá a ser eu?” (p. 115);

“Talvez estas lágrimas / não me pertençam nem este momento / nem este sentimento de este sentimento” (p.112).

“Já tudo é tudo”. Talvez então a resposta seja aceitar este contrato de leitura, subir para o caminho, e fazer com o poeta o percurso por onde ele já segue, em amena literatura, com Jorge Luís Borges. Talvez porque, também, como compete à poesia, o mais interessante seja aceitar a proposta do autor - não lhe impondo a nossa vontade - e prosseguir para hipóteses ainda mais interessantes, da ordem do metafísico, que vão surgindo ao longo do livro com naturalidade, porque a imensa cultura e inteligência de MAP o aloja sempre no terceiro estrato do poema, o mais profundo, aquele onde sentidos (olhar, audição, o 1º estrato), e oficina (2º estrato), se mesclam com as outras artes, a pintura, e escultura, a literatura e as ciências, muito particularmente em MAP, a física, a matemática, a astronomia, a religião. É quando, súbitamente, esse incessante jogo de divisões e subdivisões nos projecta para outros universos, e um verso nos recoloca perante a hipótese de reencarnação, do dejá-vu, da existência da alma enquanto entidade própria separada do corpo, da sensação de quase-morte:

“Já aqui estive, já fiz esta viagem, / e estive neste bar neste momento” (p. 158);

“O corpo tem abóbadas onde soam os / sentidos se tocados de leve ecoando longamente / como memórias de outra vida. (p. 312).

Ou, perante a hipótese quântica da existência de universos paralelos (Feyman):

“alguma coisa está fora de isto falando de isto” (p. 71);

“Determinei, pois, dois lados: um, admitamos, Real; outro Virtual.” (p. 92);

“Entretanto dobrar-se-ía o mundo / (o teu mundo: o teu destino, a tua idade) / entre ser e possibilidade” (p. 273).

Ou, mesmo, perante a teoria astrofísica do universo em expansão (Hubble), a possibilidade de o passado poder ser reobservado algures no espaço, por um observador que se deslocasse a uma velocidade inaudita:

“tudo crescera comigo: // a casa, o quarto, os livros; / até o céu crescera e se afastara;” (p. 221);

“Entre 10 elevado a mais infinito / e 10 elevado a menos infinito, / uma indistinta presença impalpável na indiferença azul.”

“Em qualquer sítio em mim, em 1952, / alguém passa numa rua eternamente. Alguém ficou lá em mim depois” (p. 121).

E não resisto a lembrar o que escreveram Stephen Hawking e Leonard Mlodinow acerca destes conceitos astrofísicos: “não há nenhum conceito de realidade independente de uma visão ou de uma teoria”; “a observação de um sistema altera a evolução desse sistema” (p. 85). “Embora o realismo possa parecer uma perspectiva tentadora (...) aquilo que sabemos sobre a física moderna dificulta a sua defesa. Por exemplo, segundo os princípios da física quântica, que é uma descrição rigorosa da natureza, uma partícula não tem posição nem velocidade definidas até ao momento em que essas quantidades são medidas por um observador. Por conseguinte, não é correcto afirmar que uma medição dá um certo resultado, porque a quantidade a medir tinha esse valor no momento da medição. Na verdade, em alguns casos, os objectos individuais nem sequer têm uma existência independente, subsistindo apenas enquanto parte de um conjunto de muitos. E, se uma teoria chamada o príncipio holográfico se vier a revelar correcta, nós e o nosso mundo a quatro dimensões poderemos ser sombras na fronteira de um espaço-tempo mais vasto a cinco dimensões”.

“Sombras”. Interessante. Não “o poeta”, portanto, mas “a sombra do poeta". Também Richard Feyman parece estar de acordo com MAP: “o universo não tem uma história única, mas todas as histórias possíveis, cada uma das quais com a sua probabilidade. E as nossas observações do seu estado actual afectam o seu passado e determinam as diferentes histórias do universo” (p. 89). Segundo a Teoria M, a mais actual, o nosso universo não é único: “um grande número de universos foi criado a partir do nada e a sua criação não requer a intervenção de nenhum ser sobrenatural ou deus, ou seja, estes múltiplos universos derivam naturalmente das leis da física”.


“Teoria das cordas” : "Não era isso que eu queria dizer, / queria dizer que na alma / (tu é que falaste da alma), / no fundo da alma e no fundo / da ideia de alma, há talvez / alguma vibrante música física / que só a Matemática ouve, / a mesma música simétrica que dançam / o quarto, o silêncio, / a memória, a minha voz acordada, / a tua mão que deixou tombar o livro / sobre a cama, o teu sonho, a coisa sonhada; / e que o sentido que tudo isto possa ter / é ser assim e não diferentemente, / um vazio no vazio, vagamente ciente / de si, não haver resposta / nem segredo.” (p. 289)

Pois é. Vinham para a apresentação de um livro de poesia, e eis que vos sai a apresentação de um livro de astrofísica. De volta, então, à poesia. Até, sensivelmente 1989, a obra de MAP como que se ocupou de enunciar o seu maior tema (a identidade), e de estabelecer um método (a dúvida), teorizando-os. A partir de “Um sítio onde pousar a cabeça” (1991), começa o festim de intelecção, verso a verso, como se o poeta tivesse aprendido a pintar e agora repetisse as infinitas variações que a sua gramática de signos (espelho, porta, silêncio, casa, quarto, palavra, infância, luz) lhe sugerem. Dicção, portanto. É quando surgem verdadeiras obras-primas como “Numa estação de Metro” (p. 153), “Esplanada” (p. 155), “Schweizer Hof Hotel” (p. 158), “Farewell Happy Fields” (p. 166), “A moral da história, segundo o senhor da cama 2B” (p. 199), “Sérgio” (p. 217), “Café do molhe” (p. 240), “As vozes” (p. 244), “Extrema Unção” (p. 294), até se chegar a essa magnífica orgia de identidade e outridade que é “D’après D. Francisco de Quevedo” (p. 183). Mas também dezenas de outros onde MAP, definida a sua paleta de cores, nos traz um quotidiano onde livros, filhas, ele próprio, até animais, são reais. Os cães (“O nome do cão”, p. 238):

“O cão tinha um nome / por que o chamávamos / e por que respondia, // mas qual seria / o seu nome / só o cão obscuramente sabia. // Olhava-nos com uns olhos que havia / nos seus olhos / mas não se via o que ele via, // nem se nos via e nos reconhecia / de algum modo essencial / que nos escapava // ou se via o que de nós passava / e não o que permanecia, / o mistério que nos esclarecia. // Onde nós não alcançavamos / dentro de nós / o cão ia (...).”

Os gatos (“O segundo gato”, p. 324):

“Em cada gato há outro gato / um pouco menos exacto / e um pouco menos opaco. // Um gato incoincidente / com o gato, iridescente, / caminhando à sua frente / ou a seu lado, / espírito alado / do que é terrestre no gato. // (...) O próprio gato / não sabe / / que anda por ali / algo que não cabe / dentro nem fora de si.”

Mas também, digamos assim, outros assuntos, o menos interessante dos quais não será seguramente o da morte quotidiana, da pequena morte quotidiana, a “morte que nas coisas morre subitamente” (p. 18). Logo no primeiro verso da sua obra MAP escrevia:

“Os tempos não vão bons para nós, os mortos.” (p. 11);

para constatar logo depois que:

“Um morto sonha a minha vida, / vive na minha casa, come a minha comida.” (p. 110);

“Também eu sou outro / transportando um morto.” (p. 117).

Com estes versos, o poeta põe em dúvida o seu próprio estado fisiológico de vivo, ao falar de uma morte repetida que o mais das vezes é cansaço, inércia, desilusão, fadiga, ansiedade, a qual combate com a lição de O’Neill: alguma ironia, algum sarcasmo, mas fundamentalmente um subtil humor com o qual o poeta assiste ao passar dos anos pelo corpo, pela idade:

“A minha juventude passou e eu não estava lá. / Pensava em outra coisa, olhava noutra direcção. / Os melhores anos da minha vida perdidos por distracção!” (p. 153);

“Os amigos (sombras) / morreram de doenças de velhos, / o enfarte, a solidão, ou só / de morte” (p. 213);

“Andava por ali a morte / falando baixo, / subindo e descendo as escadas. // Vi-a muitas vezes hesitando / como se estivesse perdida / também ela, ou como se estivesse viva.” (p. 219).

Já vai longa esta apresentação. MAP é, para mim e em suma, um céptico inconformado que regressa sempre ao inicio, cumprindo um círculo (Elliot), “uma rota circular” (p. 321), insistentemente perguntando ao real que lugar é esse que o envolve, que “sítio escuro” (p. 137):

“Às vezes quase lhe toco / quando não me perturbam os meus pensamentos. / E talvez quando faço / sem dar por isso os gestos de todos os dias / talvez então esteja muito perto sem o saber.” (p. 138).

“Um sítio escuro”. Espaço, lugar, mas também tempo: o próprio tempo, definido com segurança nenhuma:

“Como se a tua voz agora / antigamente me chamasse” (p. 143);

A busca de harmonia não é seguramente um desígnio desta poesia. Como método, este é um processo infindável de procura da verdade sem solução. Tomas Tranströmer falava de “um grande enigma”. MAP fala-nos de um “Mistério [que] não pode ser ocultado nem revelado.” (p. 73), apresentando-o como um fatigante imperativo:

“É duro sonhar e ser o sonho, / falar e ser as palavras!” (p. 137);

“A ideia de isto cansa-me / em qualquer sítio fora de qualquer sítio / onde o meu cansaço é só um conceito.”.

Ao ponto de ele mesmo, o próprio poeta, ser afinal também, o método:

“aquele que escreve / é também eternamente escrito” (p. 62);

“Também aquele que escreve / é escrito para sempre.” (p. 115);

“Literatura. Tornámo-nos, tu e eu, e também aquelas terríveis quatro horas da tarde, literatura. Em que outro lugar, em que outra morte, poderíamos nós ter encontrado refúgio? (p. 265).

Sabe, Manuel António (que sei eu?), ainda ontem à tarde (na literatura? na realidade?) Wisława Szymborska se sentou à mesa de um bar (em Cracóvia? nesta cidade?) consigo (tomando chá? bebendo água?) e com a cumplicidade de almas gémeas, trocaram poemas. Wisława leu-lhe:

“Cálculo e elegia” (p. 299): “Quantos dos que conheci / (se é que sempre os conheci) / homens, mulheres / (se é que ainda vigora esta diferença) / passaram este limiar / (se é isto limiar) / atravessaram esta ponte / (se ponte se lhe pode chamar) – // Quantos após uma existência mais curta ou mais comprida / (se é que para eles persiste a diferença), / boa porque começou, / má porque teve um fim / (se é que não queriam tê-lo dito inversamente), / se encontraram na outra margem / (se é que se encontraram / e a outra margem existe ) –// Certeza alguma me é dada / da sorte que os espera / (se comum destino há / ou mesmo até um destino) - // Tudo / (se com esta palavra não crio limites) / deixaram para trás / (se é que não à frente) – // Quantos não saltaram do tempo vertiginoso / para cada vez mais ternamente ao longe se sumirem / (se é que adianta crer na perspectiva) – // Quantos / (se é que a pergunta tem sentido, / se é que é possível alcançar a soma derradeira / antes que o que conta a si também se conte ) / caíram nesse sonho mais fundo / (se é que não há outro mais fundo ainda) – // Adeus. / Até amanhã. / Até à próxima. / Já não o querem / (se é que não) repetir. / Adstritos a um interminável / (se é que não outro) silêncio. / Ocupados só com aquilo / (se é que só) / a que os obriga a ausência.”

Ao que o Manuel António aquiesceu, recostando-se na cadeira, devolvendo com a ponta do dedo os óculos ao ponto mais alto do nariz - esse que os anatomistas gostam de chamam "glabela” - e passando a parte lateral do dedo levemente nos lábios, com um jeito de ombros acertando as abas do casaco, sorriu sorrindo com um sorriso de gato, com um sorriso contaminado de tantos anos a viver com gatos - a comer com gatos, a dormir com gatos, a morrer todos os dias um bocado com gatos - e retribuiu com este poema:

“Schweizer Hof Hotel” (p. 158): Já aqui estive, já fiz esta viagem, / e estive neste bar neste momento / e escrevi isto diante deste espelho / e da minha imagem diante da minha imagem. // Não mudou nada, nem eu próprio; a mão / escreve os mesmos versos no papel obscuro. / Que aconteceu então fora de tudo? / De que esquecimento se lembra o coração? // Algum passado, alguma ausência, / se passam talvez a meu lado, / talvez tudo exista exilado / de alguma verdadeira existência. // E eu, os versos, o bar, o espelho, / sejamos só imagens noutro espelho / diante de algum Deus em cujo lasso / olhar se fundem outro e mesmo, tempo e espaço.”


João Luís Barreto Guimarães
Feira do Livro do Porto, 8 de Junho de 2012

4 comentários:

Rosa Brava disse...

Foi tão bom viajar neste espaço.
Grata pela partilha
Um abraço

Menina Marota disse...

Desculpem ficou o registo errado... :-)
Este é o certo.

Anónima Singular disse...

Gostei imenso da "conversa"! Foi maravilhosa! Muitos parabéns a todos :)

João Filipe disse...

Um olhar profundo e lúcido sobre um grande poeta da língua portuguesa