sábado, Maio 12, 2012

LUÍS FILIPE PARRADO



LUÍS FILIPE PARRADO nasceu no Seixal em 1968. É professor do ensino secundário. Acaba de publicar um excelente primeiro livro de poemas, “Entre a carne e o osso”, na editora Língua Morta, de Lisboa. Trata-se de um surpreendente livro de poesia contemporânea, que percorre em tom biográfico e confessional, as primeiras décadas do autor, através da construção de uma personna literária que nos fala de dentro da vida, de dentro dos dias, com o distanciamento, porém, suficiente para evitar o derramamento lírico. A ironia, o uso da sinédoque e da metonímia, algum humor, servidos por entre um lírismo áspero, seco, contido, bem como um certo tom disfórico e desiludido na conclusão dos poemas são as principais armas de que o poeta se serve para dar corpo a uma original poesia figurativa que faz a transição, na perfeição, entre a lírica portuguesa surgida nos anos 90 e a poesia mais recente, surgida depois de 2000, quer pelos temas que escolhe (o espaço da família e da cidade, as coisas enquanto naturezas-mortas, enquanto objectos solitários), quer pelo tom terno mas dorido, desencantado mas indesistente. Um hino à tradição, ao ofício, à originalidade. Um pouco como regressar de novo ao que de mais básico a poesia tem para comunicar com o leitor: a emoção inteligente, a razão emocionada. Ler este pequeno livro de 32 poemas deveria ser obrigatório para quantos gostam de poesia portuguesa contemporânea, de José Tolentino Mendonça, a José Miguel Silva. À editora Língua Morta, pelo decisão de editar Luís Filipe Parrado, os meus agradecimentos. A partir de agora, nenhuma história da poesia portuguesa recente ficará completa sem a referência a Luís Filipe Parrado. O livro encontra-se à venda na Livraria Letra Livre (bem como no stand dessa livraria na Feira do Livro de Lisboa). Aqui ficam três poemas, com a devida vénia.



SOBRE OS DOIS ADOLESCENTES QUE ESTA TARDE ATRAVESSARAM A RUA DE MÃOS DADAS

Foi depois do fim das aulas.
Passaram o portão de ferro da escola
e deram as mãos
para atravessarem a rua.
E, de mãos dadas, formaram
uma corrente
tão poderosa, tão compacta,
que o trânsito teve mesmo de parar
e ficou completamente imobilizado. Não vou ceder
agora à tentação
de afirmar que assisti
à materialização de um milagre,
afinal é coisa
que deve estar sempre a acontecer,
em algum lugar, ao fim
da manhã ou da tarde, logo
depois das aulas,
dois adolescentes dão
as mãos, atravessam a rua, bloqueiam
a circulação rodoviária
de uma cidade.
Mas pensa nisso por um segundo,
pensa na força dessa corrente.


§
COM UNHAS E DENTES

Estar vivo
é abrir uma gaveta
na cozinha,
tirar uma faca de cabo preto,
descascar uma laranja.
Viver é outra coisa:
deixas a gaveta fechada
e arrancas tudo
com unhas e dentes,
o sabor amargo da casca,
de tão doce,
não o esqueces.


§
O QUE MAIS AMO

Não sou capaz de estranhas paixões
e amo, como muitos, o vento forte
que agita a roupa estendida nas cordas,
as bicicletas ferrugentas
de pneus furados
esquecidas em garagens e arrecadações,
a água fresca que mata a sede
ao mais miserável dos homens.
Mas se, como outros, amo os dias de intensa luz
e o descuido dos pássaros no ar,
ninguém ama como eu
as estrias do teu ventre,
a primeira casa de dois filhos.
de todas as coisas prodigiosas que conheço
são elas o que mais se parece
com os rasgos abertos por um arado
na terra crua deste mundo.


1 comentário:

Isabel Branco disse...

https://soundcloud.com/user239763254/157-programa-luis-filipe