
GOSTO DO MAU TEMPO
Gosto do mau tempo.
Chuva dura no outono.
Neve pesada pelo Natal.
Liberta e alivia
algo congelado e varrido pelo vento dentro de mim.
- deitado num celeiro de feno
quando a chuva bate no telhado de lata,
e a floresta vagueia na névoa cinzenta!
É como finalmente chorar
completa e livremente
depois de uma longa hibernação na terra nua da mente.
Ou deslizando de esquis sobre o paul
num dia de Janeiro,
quando os flocos de neve jorram
pelo espaço como faúlhas brancas.
E o mundo pia,
pia com brancos sussurros
no céu –
Então estás só pela primeira vez,
completa e gloriosamente só.
Sabes que até os teus rastos de esqui
são apagados
assim que vais.
Sim, eu gosto de mau tempo.
Mas a visão do vôo dos pássaros pelo outono
pesa-me na mente.
Estive frequentemente em solo elevado
quando os guindastes guinavam para sul
com o sol por baixo de suas asas cinzentas.
Então soube tristemente
que amo o mau tempo
porque é cinzento –
como o esquecimento.
(1949)
§
AS PALAVRAS
Temor das palavras –
eis algo que aprendi.
Versos que escrevi
versos que queimei.
Da dúvida no meu coração
sussurros crueis começam:
"Fraco, escreves
com uma arte emprestada.
A folha é adorável
quando é branca.
Poupa o espaço para a palavra
que não podes escrever".
(1949)
§
NÓS TEMOS AS FLORESTAS
Nunca fui dono de uma árvore.
Nenhum dos meus
alguma vez teve uma árvore –
embora o percurso da minha familia sopre
desde há séculos sob o cume
da floresta.
Floresta na tempestade,
floresta na acalmia –
floresta, floresta, floresta,
através dos anos.
Os meus
foram sempre uma gente pobre.
Sempre.
Filhos de vidas
e noites duras e geladas.
Os estranhos possuem as árvores,
e a terra,
a terra de pedras amontoadas
que meus pais removeram
à luz do luar.
Estranhos
com faces lisas
e mãos bonitas
e carro sempre aguardando
ao portão.
Nenhum dos meus
alguma vez teve uma árvore.
E ainda assim possuímos as florestas
pelo direito hereditário do nosso sangue.
Homem rico,
com teu carro e livro de cheques
e acções na companhia de madeiras de Borregaard:
podes comprar mil acres de floresta,
e mil acres mais,
mas não podes comprar o pôr-do-sol
ou o sussurro do vento
ou a alegria de regressar a casa
quando a urze floresce ao longo do caminho –
Não, nós temos as florestas,
do modo que uma criança tem sua mãe.
(1952)
§
DISTÂNCIA
Levanto-me e olho o céu
numa tarde de primavera sob o vôo das galinholas.
Estranho! A estrela maior
é uma coisa minúscula, pequenina
que a folha do vidoeiro pode cobrir.
– – –
Distância, é a distância
que torna o que é eterno suportável
Ainda bem que lança tão grande sombra,
a pequena coisa que está próxima…
(1958)
§
DEPOIS DE AUSCHWITZ
É difícil
olhar os próprios olhos
depois do que aconteceu
em Auschwitz.
Em Hiroshima.
Em Song My –
MAS NÃO VOLTES O ESPELHO.
Não penses
que aquele inferno teria sido possível
sem tu e eu.
(1972)
§
UMA COISA É NECESSÁRIA
Uma coisa é necessária – aqui
neste nosso mundo díficil
de sem-abrigos e desterrados:
Fixares residência em ti.
Entra pela escuridão
e limpa a fuligem da lâmpada.
Para que as pessoas na estrada
possam entrever uma luz
em teus olhos habitados.
(1974)
§
ENVELHECER
Envelhecer é um comércio triste,
incurável e solitário
como a alopécia.
E o pior é que
nunca consegues dividir
o cordão umbilical esticado
que te liga à juventude.
De repente podes dar contigo
saltando descalço na relva
e pulando em saltos loucos
sobre as alegres nascentes da juventude,
embora realmente estejas sentado numa pedra
apoiando o queixo numa bengala curva
sentindo a osteoartrite rasgar a
marcha dos pés, velhos e pesados.
(1991, publicação póstuma)
§
ESCREVENDO POESIA
De todo, não: não é difícil escrever poesia –
é impossível.
De contrário, pensas que teria persistido nisto
por mais de 40 anos?
Tenta, tenta só
pôr asas numa pedra, tenta
seguir o rasto de um pássaro
no ar.
(1991, publicação póstuma)
4 comentários:
Valeu a pena a espera: mais um post e um conjunto de poemas (e um poeta) extraordinários.
Gostei muito deste blog.
Obrigada pela descoberta.
Um abraço.
Maravilhoso! Estou aprendendo norueguês, e comprei um livro de poesias dele. Poderias me mandar o poema original "Uma coisa é necessária" ? Gostaria de lê-lo em norueguês. Meu e-mail é camena.costa@hotmail.com
Obrigada e parabéns pelas traduções.
o mundo reside..
bêbados,
que falam verdade
como Bíblias abertas
com vinho verde
e boqui agudos
acervos larvos de egoismos
bestas lacradas nos pés
andaimes nas estradas
e barricudos
assim são...
os néscios apatrias
que nascem sem
o consentimento
divino
ascendência de um século
na loucura dos fins
e das gulas dos beatos
perdidos nas ruas
..oh tempo de fujirdes
fujirdes, de tão intempérie
de tão fossiles
e dardos de odios
e esgoto do desavergonhado
pátio das terras
outrora, lugares calmos
agora lugares de touros
e cornos á mistura
carlos Ac liberal
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