terça-feira, julho 13, 2010

HANS BØRLI

HANS BØRLI (1918-1989) nasceu em Eidskog, próximo da cidade de Kongsvinger, no condado de Hedmark, sudeste da Noruega. Faleceu com 71 anos. De dia exerceu a profissão de lenhador; à noite, enquanto os outros madeireiros descansavam, escreveu poesia. Os seus poemas mais conhecidos (“We Own the Forests” ou “Have You Listened to the Rivers in the Night”, por exemplo), refletem numa linguagem clara e escassamente metafórica, a estreita ligação que manteve com a natureza (aliás, uma das caracteristicas transversais à poesia escandinava), bem como certas particulariedades geográficas e climatéricas do longínquo Norte. A experiência da pobreza e do trabalho árduo, bem como a vivência das florestas e a solidariedade entre trabalhadores tiveram forte reflexo na sua poesia. Leitor compulsivo, foi-lhe mais tarde oferecido um lugar como estudante na academia militar de Oslo, cujos estudos teve que interromper com o irromper da Segunda Guerra Mundial, onde combateu os alemães, tendo sido capturado em Verdal. No final da guerra, regressou a Eidskog, tendo então trabalhado como professor e guarda-florestal. A estreia de Hans Børli na poesia ocorreu em 1945, e durante a vida terá escrito mais de onze mil poemas, dos quais traduzi oito, retirados da antologia “We Own the Forests and other Poems” (tradução do norueguês para inglês por Louis Muinzer), editado pela Norvik Press, em 2004 (2ª edição, 2007), editora fundada em 1984 em Norwich, com o apoio financeiro da Universidade de East Anglia, do Ministério da Cultura da Dinamarca, do Departamento Cultural Noroeguês e do Instituto Sueco.



GOSTO DO MAU TEMPO


Gosto do mau tempo.
Chuva dura no outono.
Neve pesada pelo Natal.
Liberta e alivia
algo congelado e varrido pelo vento dentro de mim.

- deitado num celeiro de feno
quando a chuva bate no telhado de lata,
e a floresta vagueia na névoa cinzenta!
É como finalmente chorar
completa e livremente
depois de uma longa hibernação na terra nua da mente.

Ou deslizando de esquis sobre o paul
num dia de Janeiro,
quando os flocos de neve jorram
pelo espaço como faúlhas brancas.

E o mundo pia,
pia com brancos sussurros
no céu –

Então estás só pela primeira vez,
completa e gloriosamente só.
Sabes que até os teus rastos de esqui
são apagados
assim que vais.

Sim, eu gosto de mau tempo.
Mas a visão do vôo dos pássaros pelo outono
pesa-me na mente.

Estive frequentemente em solo elevado
quando os guindastes guinavam para sul
com o sol por baixo de suas asas cinzentas.
Então soube tristemente
que amo o mau tempo
porque é cinzento

como o esquecimento.

(1949)

§


AS PALAVRAS



Temor das palavras –
eis algo que aprendi.
Versos que escrevi
versos que queimei.

Da dúvida no meu coração
sussurros crueis começam:
"Fraco, escreves
com uma arte emprestada.

A folha é adorável
quando é branca.
Poupa o espaço para a palavra
que não podes escrever".

(1949)


§


NÓS TEMOS AS FLORESTAS


Nunca fui dono de uma árvore.
Nenhum dos meus
alguma vez teve uma árvore –
embora o percurso da minha familia sopre
desde há séculos sob o cume
da floresta.

Floresta na tempestade,
floresta na acalmia –
floresta, floresta, floresta,
através dos anos.

Os meus
foram sempre uma gente pobre.
Sempre.
Filhos de vidas
e noites duras e geladas.

Os estranhos possuem as árvores,
e a terra,
a terra de pedras amontoadas
que meus pais removeram
à luz do luar.

Estranhos
com faces lisas
e mãos bonitas
e carro sempre aguardando
ao portão.

Nenhum dos meus
alguma vez teve uma árvore.
E ainda assim possuímos as florestas
pelo direito hereditário do nosso sangue.

Homem rico,
com teu carro e livro de cheques
e acções na companhia de madeiras de Borregaard:
podes comprar mil acres de floresta,
e mil acres mais,
mas não podes comprar o pôr-do-sol
ou o sussurro do vento
ou a alegria de regressar a casa
quando a urze floresce ao longo do caminho –

Não, nós temos as florestas,
do modo que uma criança tem sua mãe.

(1952)


§


DISTÂNCIA


Levanto-me e olho o céu
numa tarde de primavera sob o vôo das galinholas.
Estranho! A estrela maior
é uma coisa minúscula, pequenina
que a folha do vidoeiro pode cobrir.
– – –
Distância, é a distância
que torna o que é eterno suportável
Ainda bem que lança tão grande sombra,
a pequena coisa que está próxima…

(1958)


§


DEPOIS DE AUSCHWITZ


É difícil
olhar os próprios olhos
depois do que aconteceu
em Auschwitz.
Em Hiroshima.
Em Song My –

MAS NÃO VOLTES O ESPELHO.

Não penses
que aquele inferno teria sido possível
sem tu e eu.

(1972)


§


UMA COISA É NECESSÁRIA


Uma coisa é necessária – aqui
neste nosso mundo díficil
de sem-abrigos e desterrados:

Fixares residência em ti.

Entra pela escuridão
e limpa a fuligem da lâmpada.

Para que as pessoas na estrada
possam entrever uma luz
em teus olhos habitados.

(1974)


§


ENVELHECER



Envelhecer é um comércio triste,
incurável e solitário
como a alopécia.
E o pior é que
nunca consegues dividir
o cordão umbilical esticado
que te liga à juventude.

De repente podes dar contigo
saltando descalço na relva
e pulando em saltos loucos
sobre as alegres nascentes da juventude,
embora realmente estejas sentado numa pedra
apoiando o queixo numa bengala curva
sentindo a osteoartrite rasgar a
marcha dos pés, velhos e pesados.

(1991, publicação póstuma)


§


ESCREVENDO POESIA


De todo, não: não é difícil escrever poesia –
é impossível.
De contrário, pensas que teria persistido nisto
por mais de 40 anos?

Tenta, tenta só
pôr asas numa pedra, tenta
seguir o rasto de um pássaro
no ar.

(1991, publicação póstuma)


4 comentários:

Lp disse...

Valeu a pena a espera: mais um post e um conjunto de poemas (e um poeta) extraordinários.

livia soares disse...

Gostei muito deste blog.
Obrigada pela descoberta.
Um abraço.

Camena disse...

Maravilhoso! Estou aprendendo norueguês, e comprei um livro de poesias dele. Poderias me mandar o poema original "Uma coisa é necessária" ? Gostaria de lê-lo em norueguês. Meu e-mail é camena.costa@hotmail.com
Obrigada e parabéns pelas traduções.

governor disse...

o mundo reside..

bêbados,
que falam verdade
como Bíblias abertas
com vinho verde
e boqui agudos
acervos larvos de egoismos
bestas lacradas nos pés
andaimes nas estradas
e barricudos
assim são...
os néscios apatrias
que nascem sem
o consentimento
divino
ascendência de um século
na loucura dos fins
e das gulas dos beatos
perdidos nas ruas
..oh tempo de fujirdes
fujirdes, de tão intempérie
de tão fossiles
e dardos de odios
e esgoto do desavergonhado
pátio das terras
outrora, lugares calmos
agora lugares de touros
e cornos á mistura

carlos Ac liberal