segunda-feira, março 01, 2010

JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES

(para Joaquim Manuel Magalhães)

Atónito.

É como me sinto depois de ter terminado a leitura do último livro de Joaquim Manuel Magalhães,Um Toldo Vermelho” (Relógio d’Água, Lisboa, 2010), com o qual o poeta afirma excluir e substituir toda a sua obra poética anterior. Nesse volume, que passa assim a constituir a verdadeira obra completa do Autor, - a única que a partir de agora reconhece como sua, - são escassas e esparsas as semelhanças com os poemas que conhecíamos de "Consequência do lugar" (Relógio d'Água, 2001), "Os dias, pequenos charcos" (Presença, 1981), “Segredos, sebes, aluviões” (Presença, 1985), “Uma luz com um toldo vermelho” (Presença, 1990), “A poeira levada pelo vento” (Presença, 1993) ou, mesmo, “Alta noite em alta fraga” (Relógio d'Água, 2001). Quando se esperava (??) que o Autor republicasse a sua obra completa num só volume com inevitáveis revisões próprias de uma releitura, ou em alternativa, aproximasse os 4 livros (do meio) publicados pela Presença, eis a surpresa completa.

Em certos casos, o que sobra desses livros são somente cortinas, títulos, certas dedicatórias. A parte pelo todo, portanto, a metonímia suprema. Releve-se que o Autor não apresenta este como sendo um livro complementar à sua obra, uma leitura por escrito da mesma, uma súmula última por agora, mas como uma substituição. E tratam-se, na verdade, na esmagadora maioria dos casos, de poemas completamente novos onde o tom mais lirico, realista, narrativo que lhe conhecíamos, dá lugar a um registo sintático pedregoso, uma escrita sabotada e minimal, com um léxico riquíssimo, numa toada por vezes abstracta (a espaços até barroca), significativamante diversa da voz a que nos tinha habituado enquanto leitores. Bom, não exactamente da voz: os sinais de desalento e desconforto social permanecem, e parecem mesmo exacerbar-se fruto da economia, da síntese e da contenção levadas a cabo. A poesia, porém, é que passa a existir agora muito mais na tensão frásica e vocabular entre os versos (que, de tão coevos, optam por seguir o acordo ortográfico), do que na toada prosaica a que nos havia acostumado. Trata-se do mesmo nome, claro, Joaquim Manuel Magalhães, mas é outra a escrita: outro o poeta.

Uma coisa parece-me desde já, ser verdade: para o bem ou para o mal, estamos perante o happening poético do ano. Não se trata aqui de alguém que escreveu uma obra nova sob pseudónimo ou heterónimo. Trata-se de, em nome do mesmo nome, ser outra coisa, muito diversa, reescrevendo tudo quando havia publicado até então, mantendo somente o pilar da estrutura - como escreve Rui Lage no seu primeiro comentário a este post, - o esqueleto. Daí que a pergunta óbvia surja célere: o que pretende Joaquim Manuel Magalhães com isto? Reescrever a sua obra contra alguém? Contra a crítica, que o espartilhou num rótulo que pretende agora rejeitar? Contra os epígonos que se seguiram, dos quais se pretende libertar? Ou contra si próprio, contra a sua própria obra?

É que esta opção não deixa lugar para meios termos: este seu gesto de vanguarda, como há muito tempo não se via na poesia portuguesa - o reescrever de uma Obra completa (!!) sob o signo da alteridade, - ou é próprio de um “louco” que pretende destruir a sua obra, ou é fruto de um “génio”, altamente criativo. O tempo, como sempre, o dirá. Por agora, não há como folhear o livro com os próprios olhos. Será que estéticamente esta escrita funciona tão bem como a primeira? Ou, dirão outros, que importância tem a estética quando se fala de poesia?

De uma forma ou de outra, estamos perante uma súmula absolutamente inesperada - mesmo se vinda de J.M.M., - onde o poeta, repito, rasura quase por completo o seu programa do “regresso ao real” em formato prosaico e narrativo, presenteando-nos agora com uma obra bem mais hermética, que rejeita tutelas posteriores (deixando assim "orfã" uma geração inteira para quem era o guru), obra essa sobre a qual paira agora uma revisitada aura herbertiana.

Não deixa de ser irónico que numa altura em que até Gastão Cruz se havia aproximado dos encantos do prosaismo (mas com qualidades), eis que Joaquim Manuel Magalhães surge com um novo programa, revisitando territórios mais ao gosto da Poesia 61. Isto porque me parecem agora poemas que trabalham muito mais sobre a matéria da linguagem (tendo como ponto de partida a linguagem de que eram feitos os primeiros), do que directamente sobre a matéria do real (tendo como ponto de partida as coisas do mundo que os haviam despoletado).

Quais eram as chances de se prever isto?


§


«(...)
Melhor seria que não me lessem nunca
os que por costume lêem poesia.
Muito além deles conseguir falar
ao que chega a casa e prefere o álcool,
a música de acaso, a sombra de alguém
com o silêncio das situações ajustadas.

Não ser lido por quem lê. Somente
pelos que procuram qualquer coisa
rugosa e rápida a caminho de uma revista
onde fotografaram todo o ludíbrio da felicidade.
Que um poema meu lhes pudesse entregar.
ademais da morte,
um alívio igual ao de atirar os sapatos
que tanto apertam os pés desencaminhados.
(...)»

10ª e 11ª estrofes de "Sangramento", 3º poema de "Alta Noite em Alta Fraga" (2001)



»(...)
Melhor não me lesse
quem por dever.
Conseguisse a adesão
do acaso. Lagar,
um ludíbrio.

Oferta de alívio, o atacador
solta o sapato desencaminhado.
E entretém em inferior engenho
o tédio prévio ao vídeo
e ao embaraço.
(...)»

4ª e 5ª estrofes do 4º poema de "Alta Noite em Alta Fraga", último livro de "Um Toldo Vermelho" (2010)


§§


Poucas vezes a beleza terá sido tanta
como no lustro preto dos sacos de lixo
à porta dos hotéis, dos armazéns, das casas de comida
nas mais pequenas horas da noite em Londres.
Estão amontoados fechando o esterco,
os lençóis com sangue, os restos apodrecidos,
adesivos negros que parecem afagos.
Os homens ao lançá-los nas fornalhas
são erguidos a imaginações malditas,
à feroz acção de deuses nos vulcões,
ao odor sacrílego de alquimistas mortos.
Ir na luz eléctrica e ver esses maços de treva,
essa cor quase molhada dos plásticos
a parecer verniz, a parecer chamar-nos,
a dar-nos o sebo como se fosse a arte,
tem um fervor que finda o pequeno mal, a vida.

1º poema de "Logros", segunda parte de "Vestígios" (1977), livro incluído em "Consequência do Lugar" (2001).


*

Recolhe o júbilo dos invólucros de látex.
Na sujidade
a fita adesiva um afago.

Bolça-os à fornalha
nauseabunda,
doma o clamor bonançoso,
incinera.

Cadinho hermético,
operário do soturno.

6º poema de "Consequência do Lugar", segundo livro de "Um Toldo Vermelho" (2010)


§§


Conta-se que, a Giacometti era necessário esconder as esculturas em que ia trabalhando sob pena de transformar as esguias figuras humanas que urdia numa fina haste metálica, instável e quebradiça, quase já sem qualquer figuração discernível, tal era a sua obcessão lapidativa por não dar nunca a obra por terminada.

Joaquim Manuel Magalhães terá partido, parece certo, das versões que conheciamos para as trabalhar e sintetizar e exaurir nos poemas mais reduzidos e condensados que nos apresenta agora. Porém, por paradoxal que pareça, o Autor parece por vezes escrevê-los a partir da memória que guarda da situação que os originou, porque o que existe em comum com a versão primeva - e note-se que nem todos os poemas foram trabalhados, muitos foram pura e simplesmente abandonados, - são apenas dois ou três substantivos fortes, uma ou duas ideias chave, às quais o Autor se agarra e tenta - e a maior parte das vezes consegue, - eliminar qualquer réstia de acção ou movimento ou circunstancialidade, delapidando-as do seu teor prosaico e narrativo, fixando-as no tempo e tornando-as tanto quanto possivel estáticas e herméticas (quem faz isto muito bem é Gil de Carvalho), como se nesta sua obra completa, mais do que salvar poemas antigos, o Autor tentasse salvar a memória daquilo que informou a escrita de alguns deles: um gesto, o pequeno acontecimento, um amor.

Nesse sentido, e também porque se trata de uma súmula com menos poemas do que a soma dos poemas publicados nos seus livros anteriores (evidenciando-se assim um duplo trabalho de sintese quer no número de poemas, quer na extensão de cada um), julgo que este "Um Toldo Vermelho", para ter alguma chance de despertar outro sentimento que não o que, por exemplo, Rui Lage descreve no seu comentário, - fruto da inevitável comparação, - deverá ser lido longe, muito longe de qualquer um dos livros agora eliminados, ou seja, como se de uma obra outra, sem imagem em espelho, se tratasse. Mesmo que, merçê desta exaustiva e furiosa delapidação - que naturalmente deixa de fora elementos "explicativos" de ligação, exactamente esses que o Autor quis conscientemente eliminar, - se imponha, paradoxalmente e a espaços, o cotejo com a versão original para melhor os contextualizarmos, para que melhor comuniquem e possam ser compreendidos. Isto assumindo que se mantem no poeta, o desejo de comunicação com o leitor.

Por esta altura, e pelo número de vezes a que já voltei a este post durante a semana, já se deve ter percebido que me sinto pessoalmente ofendido com Joaquim Manuel Magalhães por ele me ter feito isto. Porém, o que me parece que o futuro vai reservar a este livro, é vir a ser um mero apêndice acerca da obra que estimávamos, que mais cedo ou mais tarde virá a ser recuperada. Quem já foi submetido a uma apendicectomia sabe, por experiência própria, qual é o destino que os cirurgiões destinam aos orgãos dispensáveis. No absurdo, o poeta até poderia ir pelas bibliotecas do país, a rasgar cada um dos seus livros disfarçado de agente da Leya, mas nunca poderia apagar a nossa memória. Onde fica no meio de tudo isto o nosso juízo crítico como leitores, se o poeta nos quer levar a ler uma obra que apreciamos menos, que nos proporciona um menor apelo aos sentidos, perante a qual exibimos uma resposta mais tímida e envergonhada, se todos temos lá em casa bem ao alcance da mão, as linhas que nos proporcionam o inverso do que acabei de escrever?

Juan Ramón Jiménez fez uma coisa parecida que nunca foi tomada em conta pela crítica: reescreveu toda a sua imensa obra poética... em prosa, numa altura em que achou que o verso já não tinha razão de ser. Essa crise de Juan Ramón Jiménez nunca foi compreendida - Jaime Gil de Biedma chegou inclusivé a escrever que Juan Ramón fôra idiota por depois de ter escrito uma obra poética tão intensa, não ter percebido a diferença com a prosa...), não aceitando ver naquela atitude, por exemplo, um ataque do poeta ao fundo último da poesia, como expressão do seu tempo e do próprio indíviduo. De uma forma ou de outra, gostando-se mais (?) ou menos destas versões, parece-me precipitado interpretar este gesto com ligeireza. É algo que custou ao poeta um esforço hérculeo e o deve ter ocupado por muitos meses.

Eis em mais um díptico, o célebre poema onde J.M.M. descreve (descrevia..., habituemo-nos) a operação STOP que o interpelou quando regressava da tipografia com João Miguel Fernandes Jorge, com a mala do carro cheio de "Cartucho"s, mas lidos desta vez pela ordem inversa:



28 DE SETEMBRO DE 74

A tourada
bandarilhava intervenção.
Alucinavam de reaça,
prejudicavam o trajecto
do retiro barbitúrico
à da Rainha D. Leonor.
Uma fila burguesa alterada,
mafia do Spínola.

Guardiões à bagageira.
Pacotes e rótulo,
cordel a rematar.)
«Livralhada, finório.»
O controladeiro popular empreendeu.
Um obeso coçava tomate.
Balda de treino no rizoma do PC.

Ateimei. Debandaram.

6º poema de "Gaita militar", incluído na segunda parte do livro "Traço", de "Um Toldo Vermelho" (2010)


§§


28 DE SETEMBRO

Começou tudo na tourada.
Isto é, como devia ser. O curro
predispunha à intervenção.
Essa urgência de voltar à mesma
havia de turbar o meu regresso
a Lisboa. Barreiras CDE de resistência
coscuvilhavam bagagens à procura
de calibres, uma fila maçada
de automóveis burgueses era vista
como homens de mão do Spínola.
No meu vinham cartuchos,
perto de duzentos com poemas,
rótulo nominal e fio com chumbinho.
O polícia popular não entendeu,
«São livros, meu senhor!»
Outros dois não queriam crer.
Eu ateimei. Acabou tudo a rir-se.

5º poema de "Escritos militares", 8ª parte de "Os dias, pequenos charcos" (1981)



O poeta pode dar-se ao luxo de burilar significativamente o poema original, reduzindo-o à sua essência quase como se de um resumo se tratasse - uma parafrase, ainda poética, - porque sabe que conhecemos de antemão o contexto primeiro do mesmo. Porém, lê-los pela ordem inversa resulta numa experiência de leitura completamente diferente.

E poderiamos viver só com a segunda versão? Poder... podiamos. Mas não era a mesma coisa.


«Lembro-me de toda a areia
até chegar ao ouro»


«Há bilhetes de autocarro
muito tristes, olha este, a despedida.»


requiem por "Uma luz com um toldo vermelho" (autografado por si, Joaquim).


10 comentários:

Rui Lage disse...

Realmente, as chances eram nenhumas. Não é todos os dias que se assiste à destruição calculada de uma das obras poéticas mais interessantes dos anos 70. Para mim, leitor assíduo e admirador da poesia do Joaquim Manuel Magalhães, este "Um Toldo Vermelho" é uma lástima. Mas para outros leitores isto pode ser encarado como a corajosa reducção de uma obra poética ao seu esqueleto, ou melhor, a um montão de ossos desarticulados e dispersos... Algo muito diferente da constante refundição a que Herberto Helder sujeita o seu poema contínuo. A crítica tem aqui um verdadeiro bico de obra. Como ler este gesto de radical liberdade poética...? Adivinha-se muito sangue, suor e lágrimas nos próximos tempos.

hmbf disse...

Pessoalmente, nunca fui grande admirador do Joaquim Manuel Magalhães poeta. Pelo menos, não tanto quanto admiro o seu trabalho "ensaístico". Ao contrário do que o Rui afirma, também não julgo estarmos perante bico de obra algum. Mas é bem provável que se venha a fazer disto mais um caso, entre tantos, da "importantíssima" poesia portuguesa.

Rui Lage disse...

Mas é que nem duvides, Henrique. Se calhar é precisamente esse o propósito, ou despropósito, desta inesperada reescrita da obra do JMM. Fazer correr tinta. E não é precisamente a isso que hoje se reduz a o "debate" em torno da poesia portuguesa, a casos?

manuel a. domingos disse...

“Uma luz com um toldo vermelho” foi um livro que me marcou profundamente (não gosto muito de utilizar esta expressão, mas no caso, não exagero).

Ainda não tive oportunidade de ler este novo livro de JMM. Irei, de certeza, ler. No entanto, convenci-me que JMM termina em "Consequência do lugar". É como um fã dos The Cure (como eu) considerar que a discografia do grupo se prolonga para lá do álbum Wish. Tal é impossível quando se gosta realmente do que está para trás. Penso que irei aplicar o mesmo à poesia de JMM.

nd disse...

E vai-se alimentando o borralho com maneiras só aparentemente opostas. Um regresso ao "épater le bourgeois", no entanto fraquinho, cuja pose de tão visível e vazia já só mexe com tolos.

josé quintas disse...

Seria possível ilustrar a sua perspectiva publicando dois ou três poemas (originais e actualizados) onde essa tendência fosse mais vísivel? Talvez fosse útil para quem, como eu, ainda não comprou o livro.

Jorge Reis-Sá disse...

Caro João, depois das conversas e finalmente on line, a crónica onde ainda lias apenas 150 páginas. É aqui que está: http://www.pnetliteratura.pt/cronica.asp?id=1845
Abraço
Jorge

pdah disse...

atónito é pouco. e de facto, mesmo lendo "sem imagem espelho"... não melhora.

José Carlos disse...

muito bla-bla por haver.
o joaquim está a curtir a sua costeleta dourada!
piu-pius pios é o que nais há?

St Vincent's Head disse...

Mas o que fez o Cesariny a não ser passar as últimas dezenas de anos a boicotar o que fizera antes ?
Achei muito bem escolhidos os versos publicados aqui. Mas não foi o que neles está o que JMM andou a dizer sempre, a poesia não tem qualquer utilidade, preferindo sempre que irrompa fora dos círculos concêntricos habituais ?