quarta-feira, janeiro 25, 2006

A (IN)UTILIDADE DA POESIA

ao Jorge Gomes Miranda, dando (talvez) razão ao Francisco José Viegas acerca da (in)utilidade da poesia


A poesia - eu já o deveria saber - não é tópico aconselhável para trazer como assunto de conversa ao local de trabalho. E eu tinha obrigação de o saber. Se excluirmos os colóquios que mantive com o Jorge Sousa Braga durante o internato geral no hospital onde apenas regressei muitos anos mais tarde para levantar o corpo de meu pai ou, as palavras que troquei com Duarte Correia acerca do lento e imerecido sofrimento do Eugénio, contam-se pelos dedos dos pés as vezes em que não fugi de assumir esse delicioso ofício na minha rotina hospitalar. Não queria que fosse assim. Mas, no instante em que pronuncio a palavra maldita, muitos são os que imediatamente fogem em pânico, culturalmente assustados, como se tivessem visto um bolseiro de dança faminto ou, variavelmente, fingindo-se ocupados com alguma tarefa realmente importante, dessas que verdadeiramente importam, dificeis e respeitáveis. Porque a poesia nunca foi coisa séria. A poesia é para quem não tem mais nada que fazer. Por isso, é um absurdo esta minha distracção de trazer poesia a contexto quando travo alguma discussão mais acesa, usando como argumento exemplos daquela que considero uma das artes mais dificeis. É inútil. E tolice. No outro dia, por exemplo, resolvi tomar partido por alguém mais jovem numa questão burocrática tendo por isso sido duramente criticado. Que não era nada comigo, diziam, que não me dizia respeito, que a coisa não me envolvia. Num acesso de paciência - algo que me vai faltando, - e para justificar o meu envolvimento, tentei argumentar com o poema "1938" de Pastor Niemöller, um pastor protestante que foi um dos pilares da resistência moral aos nazis:


Primeiro eles vieram pelos judeus
E eu não falei nada –
Porque não era judeu.

Depois vieram pelos comunistas
E eu não falei nada –
Porque não era comunista.

Depois vieram pelos sindicalistas
E eu não falei nada –
Porque não era sindicalista.

Então vieram por mim –
E não havia mais ninguém
Para falar por mim.


O que eu fui dizer! Que era um absurdo comparar a situação com qualquer genocídio que fosse, afinal a quem é que eu estava a chamar comunista e nazi, enfim! Esta minha outra gente é uma gente sem qualquer capacidade de abstracção, incapaz de apreender num poema uma ideia, o conceito. Outra vez foi com Kavafis e o poema À espera dos Bárbaros, ainda recentemente traduzido por Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis (Relógio d'Água, 2005) e um dos 10 poemas - se me perguntassem - da minha vida. Peço-lhes emprestado final da tradução. Nesse meu consílio, defendia eu que se deveria proceder sem mais delongas a certos melhoramentos nas instalações por forma a optimizar as condições de trabalho e o desempenho dos profissionais. Do outro lado da contenda perguntava-se para quê, já que seria trabalho perdido quando passassemos para as novas instalações, só ainda não se sabia muito bem quando. No poema do de Alexandria, os senadores passam o dia no senado adiando o legislar porque os bárbaros estão para chegar; os oradores não fazem os seus habituais discursos porque os bárbaros estão para chegar; e o tempo passa sem que nada mude, nada se faça, porque tudo será feito seguindo as ordens dos bárbaros. Mas,


(...) anoiteceu e os bárbaros não vieram.
E chegaram alguns das fronteiras,
e disseram que já não há bárbaros.

E agora que vai ser de nós sem bárbaros.
Esta gente era alguma solução.


Erro! De novo me perguntaram a quem é que estava eu a chamar bárbaro. Entreolharam-se espantados querendo saber o que é que eu queria dizer com isso de ser uma espécie de solução. Há um ano, a administração da clínica onde já não trabalho (também por isso), tomou a decisão muito discutivel de encerrar o bloco operatório - tão útil e económico que era - à conta da sua menor rentabilidade em tempos de crise. Fui contra a decisão alegando que o investimento deles estava pago e que se deveria potenciar a sua utilização esperando por melhores dias. Uma vez mais argumentei com um poema, desta feita, A árvore despida, de William Carlos Williams:


A cerejeira despida
mais alta que o telhado
o ano passado produziu
abundante fruta. Mas como
falar em fruta perante
tal esqueleto?
Embora possa estar viva
nela não há fruta nenhuma.
Por isso abatam-na
e usem a madeira
contra este frio cortante.


Nada! Não consegui que antevissem uma única peça de fruta perante os ramos despidos. Estes tempos modernos da gestão - tão estranhos que são à poesia, - cortam rente nas finanças mas não me levam o sonho. Por isso, de cada vez que lá passo - pelo bloco sem usura - e vejo a cerejeira despida transformada em armazém, não consigo deixar de pensar se aquele monte de entulho, de lá estar há tanto tempo, já não terá criado raízes.


16 comentários:

Mr. D disse...

Para usar uma aliteração pueril: o post está potente! Relembro, a despropósito, a máxima do Joaquim Manuel Magalhães que reza assim: A poesia não importa nada.

Vasco Pontes disse...

É verdade que a palavra poesia até a mim me soa mal, tanto que anda achincalhada.
Mas, por outro lado, o que dizer das almas que ainda vibram com um verso, uma imagem, uma emoção contada num poema ?
Falo por mim, que tenho 3 (três!)leitoras, mas o bem que elas me fazem!

Carlos Estroia disse...

Tirar o entulho pode ser mau para o ambiente, Principalmente para a cerejeira

Rui Lage disse...

Certo, mas já experimentaste algo de similar noutro contexto (digamos assim)profissional? Experimenta com engenheiros, por exemplo. Ou com arquitectos. Ou com os funcionários de uma repartição pública. Ou num jardim escola. Nunca se sabe. Eu no teu lugar não desistia. E sempre tens matéria para um livro, com cerejeiras metidas ao barulho ou não.

Anónimo disse...

Meu caro amigo, talvez este seja um dos posts mais bem conseguidos! Porque é realmente assim... Os dias que correm, são tudo menos poéticos. É um vocábulo quase em desuso. E quem o usa, é no mínimo olhado com desconfiança. Mas estou certa, que sendo paciente terá a sua cerejeira de volta!

Anónimo disse...

Não se apoquente com a "inutilidade da poesia"... Quantas coisas, imensamente úteis conhece, que não têm qualquer encanto? Deixa-la ser assim...

AF disse...

Parabéns pelo blog.

Serafim disse...

Talvez uma das tuas missões no mundo possa ser a de trazer "poesia" a esse quotidiano infernal das pessoas que, na sua maioria não sabe para que se levanta de menhã.

M em Campanhã disse...

sabes, eu acho que se as pessoas não lêem (seja poesia ou não)compreendem muito mal as palavras. como era a frase de Youcernar?

a palavra escrita ensinou-me a compreender a voz humana

e os médicos lêem tão pouco.

Gil disse...

como eu o compreendo... como eu o compreendo...

Anónimo disse...

A [inutilidade] da arte está no Declínio da Mentira do Óscar Wilde escrito há mais de cem anos. Estamos em 2006...

serrata disse...

Muito interessante; muito bom post. Reforça a minha crença na inutilidade da poesia; uma (como direi??) INEVITÁVEL perda de tempo. Crer que um dia será diferente, não tem mal nenhum e fazer por isso também não, muito ao contrário. Mas entretanto, quem não aprende a bem, pode aprender de outra forma; e é preciso, senão ... não há-de tardar muito para que não sobre nem poesia nem poetas.

grace disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
grace disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
grace disse...

Sou professora na noruega e usei de poesia para introduzir um assunto, mas nem todas as pessoas têm poder de abstracao, entao ficaram todos ofendidíssimos com a poesia. Como vcs podem ver poesia ofende nao so ai no Brasil. Recomendo, entre poetas noruegueses Knut Ødegård.
http://poesiailimitada.blogspot.com/

João Luís Barreto Guimarães disse...

Grace, obrigado pelo seu comentário. Na verdade, o blogue é português. O poeta Knut Ødegård já foi alvo de referência aqui no Poesia & Lda. Pode procurar esse post no link "- poetas noruegueses".
Abraço, J