Ontem, 6 de Junho, na Feira do Livro do Porto, Manuel António Pina apresentou o meu último livro "A Parte pelo Todo", no âmbito de uma mesa submetida ao tema "Aquele que escreve é também eternamente escrito". O que se segue é o texto que li na ocasião e que pretendo partilhar com os leitores do Poesia Ilimitada sobre a poesia de Manuel António Pina.
ANÕES AOS OMBROS DE GIGANTES
dedicado a Manuel António Pina, poeta gigante
O tema que nos é proposto esta noite (“
Aquele Que Escreve É Também Eternamente Escrito”), é particularmente pertinente quando falamos da obra de
Manuel António Pina, não apenas porque são seus os versos “
aquele que escreve / é também eternamente escrito” ou numa outra variante “
Também aquele que escreve / é escrito para sempre”, mas porque na sua poesia - e na sua
técnica de escrita, se posso usar este termo, – é perceptível a questão das famílias literárias, ou, usando uma expressão mais visceral, da consanguinidade literária.
Manuel António Pina (jornalista, poeta, cronista, ficcionista, dramaturgo, escritor de literatura infantil), é um daqueles escritores que já não se apresenta em colóquios como este pelos livros que escreveu, mas pelos prémios que recebeu: o
Prémio da Critica da Associação Internacional de Críticos Literários, por “
Atropelamento e Fuga” (de 2001), os
Prémios da Associação Portuguesa de Escritores A.P.E. e da
Fundação Luís Miguel Nava, pela obra “
Os Livros” (de 2003), prémios que destaco de entre outros porque dizem respeito a duas obras de extraordinária maturidade que consagraram
MAP como um dos maiores poetas portugueses actualmente a escrever e a editar.
Após uma fase inicial, a partir de 1965-1966 (sob a pena de falsos heterónimos como
Billy The Kid de Mota de Pina ou
Clóvis da Silva, ou
Slim da Silva que “
Aos 50 anos descobriu a irresistível vocação de falar sobre o que não conhecia”), onde a sua obra revisita o surrealismo, a escrita
Beat, um certo niilismo, sendo possível encontrar versos directamente colhidos, como escreveu
Shakespeare, do “
olho da mente” (“
the mind’s eye”):
“Só me faltavas tu para me faltar tudo”
“O braço que falta ao mendigo é o que o sustenta”
é a partir do anos 80, sensivelmente, que a sua escrita se renova enquanto discurso criativo, enigmático, subversivo, irónico e auto-irónico, de forte cariz analítico e filosofante, tendo no provocado cotejo de contrários – com vista à problematização do “
eu”– e na morte ou principalmente na pequena morte quotidiana, temáticas recorrentes.
A questão dos “
múltiplos” na obra poética de
Manuel António Pina é um dos aspectos mais fascinantes e prende-se intimamente com o tema desta palestra.
Jorge Luís Borges, uma referência seminal para
MAP escreveu “
Eu sou todos os livros que li, todas as pessoas que conheci, todos os lugares que visitei, todas as pessoas que amei”. E é, de facto, impressionante o rol de autores cuja obra ou cujos versos é possível entrever na obra de
MAP, mesmo para um leitor médio de poesia como sou, quer através da técnica da colagem, uma técnica vanguardista à década de 60 (quando outros se perdiam com a linguagem da linguagem) – lembremo-nos (como bom exemplo) de
Rauchenberg, na pintura, uma década antes - técnica hoje chamada no mundo da música de
samplagem, quer também o que
MAP intitula de metamorfoses, no sentido de transformações de poemas, por vezes artes poéticas, que não assumem ainda o pendor
kitsch de pastiche ou paródia, antes o de homenagem e afecto:
Holderlin, Breton, Camões, Laforgue, Baudelaire, Blok, Quevedo, Yeats, Mallarmé, Fernando Lemos, Pound, Antero, Shakespeare, Nietzsche, Bataille, Hugues, Apollinaire, assim mesmo, sem qualquer ordem geográfica ou cronológica, somente ao fluir das leituras e da escrita que escreveram e que assim se vê eternamente lida para voltar de novo a ser escrita. Para ser re-escrita.
São referências intertextuais que surgem naturalmente no decurso da sua obra, não por pedantismo ou petulância, que não restem dúvidas, - aquele que os cita refere igualmente como referências
Bob Dylan ou os
Beatles, oriundos da música popular anglo-saxónica,
Hugo Pratt, vindo da banda desenhada, ou até a Bíblia (como veremos mais adiante), - antes surgem por pura honestidade intelectual, deste que assegura:
“Igual aos deuses (com pouco me contento)
de livros e silêncio me alimento”
Existe porém nesta obra um grupo mais estrito onde a afinidade literária é significativamente maior, no tom (talvez), nos assuntos (seguramente), e na técnica (por vezes). Diria até que se trata de uma afinidade visceral, fraternal, tal é a consanguinidade literária com este grupo de poetas acerca de cujos livros – e pensando em
MAP -
Borges bem poderia sublinhar a sua máxima de que é bem mais importante para um autor reler (e reler e reler) do que ler:
T. S. Eliot, Alexandre O’Neill, Mário Cesariny, Cesário Verde, Camilo Pessanha, Rilke, Lewis Caroll, Ruy Belo e os maiores, para
MAP, de entre todos,
Jorge Luís Borges, ele mesmo, e esse outro poeta contra quem, suspeito,
MAP escreve e escreveu – "
matando o pai?" - chamado
Fernando (de Campos Caeiro Reis Soares) Pessoa.
Porque a dicotomia entre o “
eu” e o “
outro”, (ou os “
outros”,) num processo de ciciante afastamento e aproximação, em que o “
eu” se diz “
múltiplo” descobrindo-se e ocultando-se no “
outro” ou nos “
outros”, esta dicotomia, dizia, aparece a cada verso na poesia de
MAP. O “
eu” (seja o poeta narrador ou uma
persona literária) confronta-se assim por um lado com a “
memória” de si mesmo que re-lembra, re-conta e re-nova, ao mesmo tempo que engloba a "
memória" do “
outro”, ou dos "
outros" em si. Igualmente presente na sua obra leio a dissociação corpo-mente, como se, a tempos, a mente descrevesse acções ou o pensamento do próprio corpo onde se insere, falando porém de um ponto de vista exterior a ele.
Borges, Pessoa e possivelmente
Roberto Juarroz sentir-se-iam eternamente reescritos se pudessem ler
MAP.
Um dos instantes mais ternos em que a sua poesia plasma na perfeição o que acabo de referir acontece no poema
KINDERGARTEN, onde o poeta escreve:
“As filhas brincam fora de o quê?
que infinitamente se interroga?
O fora de elas é dentro
de que exterior centro?”
ou neste outro poema de “
Cuidados Intensivos” (de 1994), que ficciona uma Última Ceia de Cristo
sui generis, instabilizando o papel do narrador/poeta naquela mesa de 13 mas também, de forma mais abrangente e transfigurada, questiona o seu peso pessoal no seu círculo de influência – ou poderia ter escrito, o lugar que a fé ocupa nas suas crenças pessoais -, mas também, se quisermos, interrogando os valores da
Honestidade e da
Justiça pelas quais tudo no mundo se rege ou se não rege, tudo isto através de um salto temporal histórico de séculos tão característico do pluralismo pós-moderno, onde o poeta é, à vez, o “
eu” e os seus “
múltiplos”: os apóstolos, o servo, um pecador, São Tomé, que duvidou, São Pedro, que descartou, São João, enternecido, Judas, que o traiu, e o próprio Cristo, como que dizendo “
eu sou todos os outros”:
D’APRÈS D. FRANCISCO DE QUEVEDO
Também eu ceei com os doze naquela ceia
em que eles comeram e beberam o décimo terceiro.
A ceia fui eu; e o servo; e o que saiu a meio;
e o que inclinou a cabeça no Meu peito.
E traí e fui traído,
e duvidei, e impacientei-me, e descartei-me;
e pus com Ele a mão no prato e posei para o retrato
(embora nada daquilo fizesse sentido).
Não subi aos céus (nem era caso para isso),
mas desci aos infernos (e pela porta de serviço):
comprei e não paguei, faltei a encontros,
cobicei os carros dos outros e as mulheres dos outros.
Agora, como num filme descolorido,
chegou o terceiro dia e nada aconteceu,
e tenho medo de não ter sido comigo,
de não ter sido comido nem ter sido Eu.
Como se o Real não passasse – utilizando a conhecida metáfora da
cebola – de um pequeno globo de camadas concêntricas onde cada camada desconhece ainda quantas placas de sedimentação protege para dentro, e quantas a protegem por fora. Agrada-me este conceito de poesia enquanto
arqueologia do Real, como forma de des-tapar, des-cobrir, des-cascar, deixando apenas a última camada, que chamaria de
fina camada de pudor, sob pena de à custa de tanto descascar, como à cebola, levar o leitor às lágrimas do sentimentalismo, o que deve ser evitado.
Queria fechar a comunicação lembrando ainda, à vista do tema “
Aquele que escreve é eternamente escrito” que o mau poeta copia descaradamente os versos de outros; o bom é o que rouba com classe e ainda tem o topete de intitular o acto com o pomposo epítome de “
intertextualidade”. E queria louvar o papel do poeta que respeita a tradição e sobre ela trabalha. O dito de
Bernard de Chartres, que viveu no século XII, relatado pela primeira vez no
Metalogicon de
John of Salisbury é sobre isso mesmo significativo:
“
Frequentemente sabemos mais, não porque tenhamos avançado pela nossa habilidade natural, mas porque somos apoiados pela força mental de outros, e possuímos riquezas que herdámos dos nossos antepassados. Bernard de Chartres costumava comparar-nos a insignificantes anões encarrapitados nos ombros de gigantes. Ele assinalou que nós vemos mais e mais longe do que os nossos predecessores, não porque nós tenhamos uma visão mais perspicaz ou maior altura, mas porque nós somos levantados e levados em cima da sua gigantesca estatura.”
Anões aos ombros de gigantes, portanto, como nos lembra
Matei Calinescu. É como me sinto perante
MAP. A inspiração, desenganem-se os românticos, não passa de leitura, ofício e tradição. O meu desejo é que um dia alguém me roube tão bem como eu o roubei a si,
Manuel António, tão bem como suspeito, - apenas suspeito, - que o
Manuel António soube roubar a outros.
Porto, Feira do Livro, 6 de Junho de 2009.