sábado, setembro 21, 2013

ESTER NAOMI PERQUIN


ESTER NAOMI PERQUIN nasceu em Utrecht em 1980. Reside em Roterdão, cidade da qual é a poetisa oficial (nomeada em 2011 por um período de 2 anos). Em 2006 concluiu o curso de escritora na Amsterdamse Schrijversvakschool, na variante Poesia. A fim de pagar os estudos, Ester Naomi Perquin trabalhou como guarda prisional durante 4 anos. Essa experiência profissional reflecte-se na temática de grande parte dos seus poemas. No último livro que publicou, Celinspecties (Inspecções às Celas) todo o livro se centra à volta da prisão em geral, e dos seus habitantes em particular. Assinalados pelo nome próprio e a inicial do apelido, eles desfilam numa galeria de tipos, motivações, vivências, atitudes e crimes. Esse desfile faz-se sem juízos ou preconceitos. Ester Naomi Perquin estreou-se em 2007 com o livro de poesias Servetten halfstok (Guardanapos a meia-haste) que recebeu o prémio de estreia da revista Het Liegend Konijn. No ano seguinte, o mesmo livro arrecadou o prémio Eline van Haaren destinado a poetisas até aos 35 anos. Servetten halfstok foi ainda nomeado para dois prémios prestigiosos: o prémio C. Buddingh (2007) e o prémio Jo Peters (2008). Namens de ander (Em nome do outro) foi o seu segundo livro a ser publicado, em 2009. Ganhou o prémio de poesia Jo Peters (2010) e o prémio J.C Bloem (2011) seguidos de mais prémios. O terceiro e último livro chama-se Celinspecties. Publicado em 2012, já recebeu um prémio em 2013.

Em mais uma excelente colaboração de Maria Leonor Raven-Gomes (nota introdutória e traduções), eis quatro poemas de Ester Naomi Perquin. Muito obrigado, Leonor!



De Namens de ander (Em Nome do Outro)


PREVIAMENTE

Na primeira existência aprendes logo o formato,
célula após célula desenrola-se em meadas organizadas, planta membros,
és reduzido lentamente a um conceito de seis letras.

Esqueces-te de como era ser perfeito. Permaneces assim brevemente,
reconheces as oportunidades no decorrer do tempo, roças-te à
coincidência, armas-te com a razão e o tempo,
até demarcas uma vida anterior.

No momento em que te divides
desapareces simultaneamente
em dois amantes.

Muitas vezes é esse o fim, vêem-se demasiado tarde,
é como se houvesse um estranho obstáculo ou
as suas míseras vidas se desenrolassem em cidades incompatíveis.

Por vezes, revelas-te contumaz, encontras com exactidão
a fenda, deixas-te repentina e imprevisivelmente
voltar a fundir-te num só.


§


RISCOS


O nosso quarto habitual. As paredes erguem-se tal qual
como combinado. A janela desdobra-se, completa

com os cortinados fechados. Poderia ser ao princípio da noite ou
ao fim do dia. Penumbra inalterável.

algumas chalaças sobre a luz do dia que menos e menos suporta.
O odor a madeira e a tangerinas muito maduras.

Olha, ali surgem os armários, a cama de casal delineia-se
com os seus lençóis e os cobertores,

a colcha com a mancha exactamente no mesmo sítio. Lá
em baixo recompomos as nossas caras, sentamo-nos à mesa

e a vista enche as ombreiras: quintas, três árvores a abanar.
Sabemos de antemão o que iremos agora comer:

a entrada, que é sempre um desapontamento, o bife e a tarte de maçã.
Estamos mais velhos, entretanto podemos pagar

uma coisa melhor. Aqui chove a maior parte do ano.
O perigo maior envolve-nos com

o mesmo lugar, o mesmo quarto. Arriscamo-nos a ter hábitos,
amamo-nos. Repetimo-nos.


§


De Celinspecties (Inspecções às Celas)


BEM-VINDO DE VOLTA


Sei como eles passam o portão à noitinha.
As mãos ainda côncavas de acariciarem
as cabeças dos filhos, as costas dobradas.

Trazem na roupa o exterior e cheiros a comida,
pêlos de cão, cerveja, o cheiro a mulher quente e
últimos cigarros juntos, lençóis enxovalhados.

Olho para os homens a lavarem-se
deixando para trás sabão, pó e saudades.

Sei que as mulheres ficam junto aos portões.
Os casacos abotoados até ao pescoço,
As mãos nos bolsos, cabeças curvadas.

Como os homens avançam em silêncio.


§


DENTRO DOS LIMITES


Habituas-te à tua forma. Às paredes construídas de paciência, à altura do tecto cheio de manchas estranhas, ao chão pegajoso; imperturbável, a tua respiração sonda o espaço e retorna, as tuas mãos acham no escuro o interruptor, os cigarros, como te movimentares, habituas-te a fumar no escuro, quem vês mais nitidamente são os teus filhos, pedalam em bicicletas de pneus furados, pegam em ferramentas sem terem ninguém que lhes ensine, atiram aos pássaros errados, raspam as faces com a tua navalha embotada. Habituas-te. Debaixo dos cobertores a tua mulher revolve-se nua, sente-la próxima, estendida, em dimensão real, tentas tocar-lhe, habituas-te a um corpo que ninguém mais toca e tu mais e mais perdido à volta dela, difícil de consolar. Habituas-te à vista como a uma história, a quem ta leu naquela altura, quase adormecido, já naquela altura, muitos anos atrás, praticamente não compreendeste o significado, tal como te esqueceste de muitas coisas e habituas-te à imagem que fabricas depois: salteadores aparecem e cantam, há um homem com uma gadanha, uma mulher numa torre, de braços abertos como se estivesse à espera de cair, no entanto a espera dela é voluntária, ri-se. Habituas-te. A que em breve, corajosamente alguém virá socorrê-la, derrotar os ladrões e dar cabo do homem com a gadanha. Habituas-te ao impulso de a meter para dentro. A ficar hesitante ao princípio, em seguida, aos teus hábitos, a uma relação com a luz sobre os lençóis, à porta de ferro, à torneira que pinga, aos buracos dos cigarros nas cortinas, aos teus posters nus que se oferecem, ao rosto omnipresente que se debruça quando escurece, ao bafo da justiça, às conversas dos outros e à música ao longe, ao facto de tudo provocar estalidos, ao desaparecer vagaroso de um passo no corredor, a ter medo habituas-te, à tua nudez completa, sémen na mão, caracol que és. A matutar habituas-te, à inutilidade da respiração contínua habituas-te, ao constante cismar habituas-te.




sexta-feira, setembro 20, 2013

Notas sobre livros (13)

JAIME ROCHA
Mulher Inclinada com Cântaro, s. l.
Volta d' Mar, 2012


por JOÃO PAULO SOUSA


Da obra de Jaime Rocha pode dizer-se que possui uma admirável capacidade de criar figuras e situações que constituem quadros de grande intensidade dramática, para tal não precisando de muito mais do que de um enquadramento feito por sugestões e alusões, muitas das vezes apostando decisivamente na dimensão visual dos referidos quadros. Detectável nos diversos géneros literários trabalhados pelo autor, esta característica permite aproximar os seus livros uns dos outros, em especial os de poesia e os de ficção narrativa. No caso concreto deste pequeno volume, o leitor depara-se com um poema dividido em dezoito partes, cada uma devidamente numerada, compondo uma cena em que o apelo dos sentidos é evidente, mas requerendo também o forte contributo da imaginação. É, aliás, sob esse signo que a obra se inicia, ao ser lançada uma pergunta que podemos considerar como o motor imaginativo do livro:


Uma mulher com um cântaro.
O que faz uma mulher com
um cântaro? (p. 7)


De certo modo, é como resposta à perplexidade instituída nesta pergunta que se desdobram as dezoito partes do poema, uma resposta assente na vertente visual e pictórica, que a primeira parte anuncia e a última vem confirmar. Assim, se, no início, o «cão ladra, remexe na areia, / de costas, como um pintor que / deixou no papel um cesto de limões / e uma garrafa» (p. 7), no final, o regresso ao estado primordial encontra uma justificação equivalente:


Como se os acontecimentos do dia
estivessem dentro de uma pintura,
por detrás das tintas. (p. 24)


Os acontecimentos do dia apagam-se como se não tivessem existido, mas apenas depois de criarem no leitor uma tão forte impressão que os leva a tornarem-se mais verdadeiros do que muitos factos supostamente reais. Dito de outro modo, o que Jaime Rocha constrói nos quadros intermédios é a sugestão de uma história de fidelidade e de perda, marcada por uma relação umbilical e até mesmo paroxística com a natureza. Ora, do ponto de vista estético, é preciso que o leitor identifique ou reconheça essas impressões, que as tome como suas, e isso é conseguido graças ao processo de aproximação do ponto de vista da mulher ou mesmo do cão. Repare-se como tal efeito se desencadeia sem excesso de informação, quase de um modo elíptico, na parte do poema referente à descoberta do corpo do náufrago:


[…] Nesse Outono,
o corpo dele surgiu na praia já metade
comido pelos peixes____________

É ele, disse a mulher,
o meu náufrago.

E o cão salta em seu redor como se
tivesse chegado a um lugar de incêndio,
a uma zona de felicidade.

A mulher inclina-se então sobre
o cântaro, tapada por um lenço,
e bebe a água, toda a água, deixando
os lábios colados ao barro. (p. 18)


O comportamento que quase classificaríamos como ingénuo do cão – mas desmentido por aquele «como se» e pela referência à «zona de incêndio» – e a atitude na aparência insólita da mulher descendem directamente da crua descrição do náufrago e do determinante possessivo com que a mulher nos lança para o interior da sua perspectiva («o meu náufrago»). Subtilmente instalado nesse ponto de vista, o leitor não quer saber de razões nem quer encontrar explicações; toma como sua a angústia daquelas figuras e, precisamente por dispensar qualquer tipo de leitura psicologista, reconhece-a como uma verdade antiga, capaz de o atingir com uma intensidade inesperada.


quarta-feira, junho 12, 2013

MARTÍN LÓPEZ-VEGA

MARTÍN LÓPEZ-VEGA nasceu em Llanes, Asturias, em 1975. Licenciado em Filología Espanhola pela Universidade de Oviedo, estudou literatura portuguesa na Universidade do Minho e obteve a bolsa Valle-Inclán da Academia de Espanha em Roma, en 1999. Crítico literário e tradutor, tem numerosos livros de poesia publicados. A arte poética que se segue foi traduzida do castelhano por Jorge Sousa Braga para o Poesia Ilimitada, do blogue de Martín López-Vega Rima Interna.



O CRÍTICO E OS POETAS

O verdadeiro poeta está só. Os que andam em manada são o coro.

É impossível que um poeta aceite uma crítica de um libro seu como construtiva. A única coisa que o poeta quer é construir o seu ego e os andaimes do seu ego: uma corte de aduladores o mais numerosa possível.

Para o poeta não há críticos que tenham encontrado defeitos no seu livro: só críticos que não conseguiram compreender a sua riquíssima complexidade.

Tudo se pode dizer de outra maneira, mas não existe nenhuma que não seja susceptível de ser interpretada de forma retorcida. A não ser que se diga “Isto é uma maravilha” ou “Isto é uma merda”...

Citar é retirar do contexto. Se um verso descontextualizado soa ridículo é porque já era ridículo no seu contexto.

Qualquer um com o mínimo de talento pode ridicularizar qualquer coisa; mas há coisas que se ridicularizam a si mesmas.

Se um crítico lê algo que lhe parece um disparate, deve dizer que lhe pareceu um disparate, embora correndo o risco de se expor a mostrar que não percebeu nada. Se o poeta decidiu publicar os seus disparates, porque iria autocensurar-se o crítico.


Se numa crítica alheia um amigo te anima a ver insultos encobertos, desconfia do crítico só depois de teres desconfiado do amigo


Nunca insultes o crítico que te colocou reparos: ele sentirá que lhe estarás outorgando uma medalha.

O critério do crítico-poeta não pode ser ler, estudar, incensar os livros que se pareçam com os seus, sob pena de se converter num bonsai: se lê apenas aquilo que lhe é familiar, nunca crescerá. Mas isso tão pouco quer dizer renunciar ao sentido crítico. Nem tudo é bom apenas por ser diferente, embora tudo o que é redundante seja sempre mau.

O mau poeta entretém-se com aquilo que considera a sua voz, faz trinados como uma cantora de ópera antes de sair de cena. O poeta verdadeiro morrerá procurando essa voz, tratando em vão ignorar que é o silêncio.

Qualquer crítica literária é ideológica. A primeira sintonia (ou a falta dela) que o crítico sente com um livro tem a ver com a sua visão do mundo e a sua atitude perante ela. Nesse primeiro encontro violento tem a sua origem o resto do diálogo do crítico com o texto.


Tenta ser boa pessoa e bom crítico. Mas não mistures as duas coisas. Se como crítico és boa pessoa encher-te-ão a casa de livros com versos horríveis. Se como pessoa és bom crítico, ficarás só.

Não abuses da ironia: as pessoas pouco inteligentes não têm sentido de humor e a maioria delas transformam-se em poetas.

Não confundas os leitores de poesia com os poetas. Por muito que digam que não, os primeiros são muitos mais e é para eles que escreves. Nem uns nem outros te cobrirão de glória, mas ao menos os primeiros não te darão cabo da paciência.

Um crítico que nunca foi insultado é um crítico que nunca acertou em nada.


04/03/2013

domingo, junho 02, 2013

THOMAS MÖHLMANN

 
THOMAS MÖHLMANN estudou Neerlandês na Universidade de Amesterdão. Estreou-se em 2005 com o livro De vloeibare jongen (O Rapaz Liquefeito), na editora Prometheus. Foi nomeado para o prémio C. Budding para a melhor estreia em poesia neerlandesa. Em 2007 ganhou o prémio Lucy B. & C.W. van der Hoogt. Em 2009 surgiu o seu segundo livro na editora Prometheus: Kranen open (Torneiras Abertas) eleito como Escolha do Clube de Poesia e nomeado para o prémio de poesia Jo Peters em 2010. Thomas Möhlmann trabalha para a Stichting Nederlands Letterenfonds (Fundação de Letras dos Países-Baixos), é redactor da Poetry International Web, Lyrikline e da revista de poesia Awater, da qual foi co-fundador. Foi autor de várias colectâneas de poesia e organizou diversos programas de poesia. O seu novo livro de poemas será editado dentro em breve. Em O Rapaz Liquefeito, o poeta cria um universo fantasioso, com as suas próprias leis onde tudo é possível e cujas personagens são “figuras” para o povoar. São sobretudo as imagens que interessam e, ainda, experimentar as fronteiras entre a fantasia e a realidade. O segundo livro, Torneiras abertas é um livro mais maduro, uma continuação desse universo interseccionado, mas mais directo e onde as personagens adquirem um eu e uma história.
 
Em mais uma colaboração de Maria Leonor Raven-Gomes (nota introdutória e traduções do original), eis quatro poemas de Thomas Möhlmann retirados de De vloeibare jongen (O Rapaz Liquefeito). Muito obrigado, Leonor.
 
 
 
O Rapaz Liquefeito

I

Depois de largar as roupas e os velhos adornos,
ligeiramente curvado, acocorado, ele juntou-se ao rio.
Enquanto as penas secam

ele
dobra
as suas
pequenas
palavras

em barcos, quedando-se a olhar
frases bem formadas, em silêncio amoroso.

Levantar-se, perder gradualmente a forma
agora e esperar até se poder embalar
por entre as paredes finas
da sua pele, como se estivesse num aquário tombado.

Coloca um passarinho morto
à superfície do braço
para conservar um segredo que ele próprio inventou
antes de ser levado pelas águas.




II

Ela flutua de olhos abertos, a boca
quase tão descorada como as pedras
e ele veste-a com tudo o que tem

transportando-a até ao término
soubera ele onde, com os braços
que se recusam a tornar-se carne, a ela,

a sua irmã transformada num pano encharcado,
ele marulha na sua face inchada
para mais um aceno, um relampejo no olhar.




III

‘Era aqui que devias ter aninhado, meu passarinho,
e aqui as ondas quebraram o último pedaço de fita,
um remoinho adornou o último barquinho
e contudo nada mais fizeste salvo inchar e empalidecer
e esboroar-te sucessivamente em bocadinhos mais pequenos e descoloridos,
partículas cada vez mais e mais pequenas.’

‘Tudo ficará mais leve, querido mano,
quase não há mais nada intacto entre nós,
mais um pouco e já não distingues a diferença
nem a relação que nos separa
retoma – um beijinho – o teu segredo, recupera as palavras
e deixa-as – um beijinho – rolar pelos teus lábios secos.’


§


Ele procurou por muito tempo

Cada passo diminui e aumenta o número de possibilidades
mas não as possibilidades que ele procura
tem de haver outro caminho que não este, mas assim que ele o toma,
tem de haver outro caminho. Abordou pessoas

apresentou-se sob nomes diferentes e perguntou se
as pessoas sabiam onde estavam. No mar alto, no umbigo do mundo
à beira de jardinzinhos bem-tratados: ninguém sabia.
Onde o ar era tão rarefeito que ele tinha vertigens, onde

o ar denso lhe cortava a respiração, onde todos
se ofendiam mutuamente, onde ninguém se atreveria ir,
onde todos deveriam ter estado: ninguém sabia.


§


Ele tem tempo

Lá fora um motorista espera pacientemente, por ti por mim?
Há um outro sítio a que não chegamos por um triz
prometo não abrir antes de a campainha tocar
enquanto tudo ficar como está, a campainha não toca

ele tem a porta fechada, continua sentado e à luz fraca
acende um cigarro, deixa escapar o primeiro fumo sem um suspiro
não olha mas liga o motor, na consciência tranquila que a única coisa
que poderíamos fazer era levantarmo-nos e abrir um pouco

as cortinas. O teu motorista? O meu? Deveríamos estar
mais indiferentes ou mais em pânico. Soam passos
próximos, afastam-se, desaparecem e, umas ruas além
aproximam-se passos, hão-de se afastar desaparecer e

o último fumo desaparece subindo em espirais no carro
silencioso frente à nossa porta. Há um outro sítio onde
nos reencontraremos, mesmo que toquem à campainha,
mesmo que um de nós acene ao outro para o tranquilizar.


§


As pessoas dormem em toda a parte

Caídos onde estiveram outrora
a testa encostada ao braço
o rosto voltado para a terra, respirando calmamente.

Sobre a terra, debaixo de cobertores quentes
sob tectos sólidos, enlaçados uns nos outros
à sorte, enrodilhados em si mesmos

enquanto o mundo se abre qual mão
enquanto os dedos procuram outros dedos
outros dedos procuram outros e os peixes

embalam o mar para o acalmar e os navios as suas cargas
e a rádio embala o pai e, como um tecido macio,
o pai a mãe, os candeeiros a noite.

Porque velas. Por que razão alguém
está de vigília, alguém está presente.

 

sábado, junho 01, 2013

Notas sobre livros (12)

IMMANUEL KANT
Observações sobre o Sentimento do Belo e do Sublime seguido de Ensaio sobre as Doenças Mentais
(Betrachtungen über die Schönheit und Erhabenen e Versuch über die Krankheit des Kopfes, 1764)
Lisboa, Edições 70, 2012


por JOÃO PAULO SOUSA


Os dois ensaios que se reúnem neste pequeno volume não têm apenas em comum a data das respectivas edições inaugurais, mas resultaram ambos de uma dedicação kantiana à análise antropológica. No primeiro caso, esse trabalho foi feito com base nas duas categorias estéticas indicadas no título; no segundo, o filósofo procurou esboçar uma taxonomia da loucura, recorrendo a dois mecanismos – o princípio da progressividade e o da inversão – para explicar a formação das patologias mentais. A introdução clara e bem informada de Pedro Panarra, que também assina a tradução, prepara o leitor para o confronto com a estrutura e o ponto de vista dos dois textos kantianos, embora não o previna – nem é certo que devesse fazê-lo – para a curiosa amálgama entre observações luminosas e frases preconceituosas ou, pelo menos, inegavelmente datadas. Sirva de exemplo o primeiro ensaio, organizado em quatro capítulos, que conduzem o leitor de uma apresentação geral dos conceitos de belo e de sublime para a sua utilização como elementos distintivos do homem e da mulher ou dos caracteres nacionais; é aí, no uso das duas categorias estéticas como linhas decisivas de demarcação, que Kant parece cair nas armadilhas de um pensamento que tem tanto de fulgurante como, em alguns momentos, de profundamente banal. Observações como as que se seguem dificilmente poderiam merecer outros epítetos:


O estudo laborioso ou a reflexão penosa, ainda que uma mulher neles progrida longamente, estragam os méritos peculiares do seu sexo, e se a raridade desta condição a converte em objecto de fria admiração, ao mesmo tempo, debilita os encantos que lhe permitem exercer o seu ascendente sobre o sexo oposto. A uma mulher que tenha a cabeça atafulhada de grego (…) ou que sustente discussões fundamentadas acerca da mecânica (…), parece que apenas lhe falta uma boa barba, pois com ela o seu rosto talvez consiga expressar melhor a profundidade a que aspira. (p. 59)


Descontados estes sinais de um reaccionarismo que serve sobretudo para nos lembrar como nem os melhores espíritos de uma época conseguem ficar imunes às ideologias do seu tempo, o primeiro ensaio deste volume é extraordinariamente sagaz na composição de tipos sociais a partir das noções de belo e de sublime. No decurso da sua leitura, ocorreu-me frequentemente que as caracterizações definidas por Kant também se poderiam aplicar ao modo como os escritores se relacionam com a literatura. Tome-se, como ponto de partida deste raciocínio, a afirmação de que na «natureza humana nunca existem qualidades louváveis sem que existam ao mesmo tempo degenerações dessas qualidades» (p. 40). Desta ideia há-de resultar a definição do melancólico, não «assim chamado por, estando privado das alegrias de viver, se consumir numa taciturnidade sombria, mas porque quando os seus sentimentos se intensificam excedendo um certo limite, ou quando ganham uma direcção errada devido a certas causas, estes podem mais facilmente conduzir a este estado do que a qualquer outro» (p. 47). Na óptica de Kant, o «indivíduo de constituição melancólica preocupa-se pouco com os juízos alheios (…) e baseia-se unicamente na sua convicção»; se é verdade que «os motivos que o impelem a agir têm a natureza de princípios», não o é menos que a «sua firmeza não raro degenera em obstinação» (p. 48).

Eis aqui traçada uma curiosa linha de demarcação entre duas possibilidades de encarar a literatura por parte dos escritores (e não seria difícil pensar em casos concretos, nomeadamente de poetas portugueses contemporâneos), ainda que alguns não assumam a perspectiva que, na verdade, é a deles; refiro-me aos autores que recusam ceder a qualquer tipo de compromisso com o que consideram indigno de ser enquadrado na arte tão elevada que julgam compor e aos que aceitam (embora não o reconheçam) qualquer cedência desde que ela lhes garanta o destaque num palco onde acreditam poder brilhar por longo tempo. Os primeiros tendem a adoptar um tom colérico, próprio da degeneração do sublime detectada por Kant, tornam-se temíveis, pois a «ofensa e a injustiça suscitam nele[s] uma sede de vingança» (p. 49); quanto aos segundos, facilmente compostos a partir das características dos anteriores, que lhes são completamente opostas, nem à categoria do belo podem almejar, dado que se dispõem a acatar qualquer tipo de promiscuidade em que a sua suposta arte seja envolvida, desde que, por esse meio, obtenham as contrapartidas mediáticas a que tanto aspiram.

Noutro plano, contudo, deverá colocar-se o «indivíduo de temperamento sanguíneo», possuidor, segundo Kant, de «um sentimento predominante do belo», que poderíamos aqui apresentar, usando ainda as palavras do filósofo alemão, como um autor que «conhece mal a tranquilidade satisfeita» (p. 49).

sexta-feira, maio 31, 2013

TJISKE JANSEN

TJISKE JANSEN nasceu em Barneveld, Holanda, em 1971. Depois de uma infância e juventude problemáticas (a partir dos 12 anos foi colocada em várias famílias de acolhimento), finalizou o liceu com louvor e licenciou-se em Artes Plásticas e Teatro na Escola Superior de Artes em Arnhem. Frequentou ainda o curso de Neerlandês na Universidade de Nijmegen, não o finalizando, porém. Obteve grande reconhecimento na Holanda com o seu primeiro álbum de poesia Het moest maar eens gaan sneeuwen (Está na altura de começar a nevar) em 2003. O seu estilo caracteriza-se por uma linguagem simples e lacónica. Os temas que a ocupam têm muito a ver com a sua história pessoal: infância e a juventude (sobretudo a sua, despojada de afecto), a (falta de) vida em família, a figura paterna, recordações. Outros temas são o amor, o mar, um certo desencanto com a vida em geral e, contos clássicos a que dá sempre uma volta ao texto original. Tjiske (pronuncie-se Tchisca) Jansen costuma apresentar-se em festivais de poesia onde lê excertos do seu trabalho.

BibliografiaVanuit de lucht (2001, colectânea); Het moest maar eens gaan sneeuwen (2003); Het moest maar eens gaan sneeuwen (2004) – (incluindo CD onde TJ lê os próprios poemas); Je hebt alles en je hebt mij (2004) - CD CD em colaboração com o violinista Jasper le Clercq, Koerikoeloem (2007, prémio Anna Bijns, 2009)

Em mais uma excepcional colaboração de Maria Leonor Raven-Gomes (nota introdutória e traduções do original), eis cinco poemas de Tjiske Jansen. Muito obrigado, Leonor.



A cidade ainda está em silêncio.
Encostadas uma à outra e a um muro
duas bicicletas dormem.


§


Gosto de Ícaro que sabia que a cera se iria derreter e no entanto voou em direcção ao sol.
Gosto daquela rapariga que reparou como era azul a barba do Barba Azul – era exactamente esse o motivo. Gosto da Bela Adormecida que afinal fazia de conta que dormia.

Gosto da Branca de Neve que achava os anões um bando de neuróticos.
‘Quem é que se sentou na minha cadeira? Quem é que comeu do meu prato?’
E do anão, que não simpatizava lá muito com a Branca de Neve:

‘Quando ela não morava aqui, éramos só sete. E agora? É ver-nos.’
Do gigante que estava arreliado porque toda a gente chamava botas aos seus sapatos.
Não gosto de quem se acomoda no conto. Mas sobretudo

gosto de Ícaro que sabia que a cera se iria derreter e no entanto voou em direcção ao sol.


§


Para os anos dele

Sei qual é cor em que prefere calçar-se.
Sei qual é a cor em que prefere vestir-se.

Porém, caminhar não é o mesmo que dormir
e usar não é o mesmo que acordar.

Portanto perguntei-lhe: qual é a tua cor preferida para dormir,
qual é a tua cor preferida para acordar?

A cor dos teus olhos, respondeu-me. A cor da tua pele.
Não fui à procura. Não necessito de andar à procura para saber que

não existe nenhuma loja que venda edredões nessas cores.
Não há outra solução a não ser dormir

com ele para sempre.


§


ENVELOPE COM FOTOGRAFIAS 3

Tal como o mar me consola com a sua profundeza
porque não consigo contar a água,
pois é maior que toda a terra
por onde as pessoas andam,
porque há peixes a quem esse espaço pertence,
pois ele não é das pessoas,

consola-me não me recordar de lá ter estado,
ter feito isto ou aquilo,
daquele bibe, ou daquele vestido,
daquelas meias até ao joelho, ao lado daquela miúda,
ao colo do senhor com a guitarra,
ao colo da avó quando tinha sete meses.

E nos momentos dos quais não há fotografias,
também lá ter estado.


§


FRAU HOLLE


Prefiro olhar para a lua
do que para as pessoas.
As pessoas
cansam-me de sobremaneira.
As súplicas, os rogos,
os risos, os desejos,
a ignorância,
a curiosidade em saber,
dizendo: ‘amo-te’,
ou pensando-o,
caminhando calçadas
ou de pés nus e calejados,
correndo de um lado para o outro,
as pessoas vestidas de jóias e de música.
Prefiro olhar para a lua
que é sempre a mesma:
indiferente,
fiel.
A lua não necessita de palavras
para dizer:
aqui estou
e amanhã também estarei.
Talvez uma nuvem a encubra,
talvez não me vejas por estares dentro de casa,
por estares a ouvir as tuas canções patetas
ou por teres os olhos nublados de lágrimas,
lágrimas motivadas por pensares que estás só,
mas não estás só,
porque eu estou aqui
e ontem também estive,
e amanhã também estarei.


quarta-feira, maio 15, 2013

Notas sobre livros (11)

HELDER MOURA PEREIRA
Se as Coisas não Fossem o que São
Lisboa, Assírio & Alvim, 2010


por JOÃO PAULO SOUSA



De todos os títulos de livros de Helder Moura Pereira, talvez seja este o mais programático e, em simultâneo, o que melhor sintetiza as qualidades e os defeitos desta poesia. Constituído por uma oração condicional, ele dispensa, por irrelevância, a subordinante; com efeito, se as coisas não fossem o que são, seriam naturalmente diferentes. Ao mesmo tempo, porém, compreendemos também que elas não podem deixar de ser o que são, e percebemos aqui como, com alguma subtileza, somos lançados para um universo de aceitação, mais ou menos resignada, de algo. Perguntamo-nos, no entanto, sobre o objecto dessa resignação, e a resposta, propositadamente vaga, não deixa, ainda assim, de ser explícita: as coisas. A expressão provém da linguagem oral e direcciona-nos para a aparente coloquialidade da poesia de Helder Moura Pereira, que, não por acaso, incluiu os nomes de Eliot e Larkin no título de outra das suas obras. As coisas são, de certo modo, tudo o que diz respeito aos humanos, e, segundo o título, são o que são. Ora, esta tautologia não pode aqui deixar de ser lida na vertente irónica conferida pelo facto de se tratar de um discurso em segundo grau, ou seja, consciente da posse que exerce sobre uma construção verbal alheia. A tautologia, como já foi dito e repetido, constitui uma dupla morte, da linguagem e do pensamento, ambos negados nessa repetição circular que Roland Barthes classificou como «uma ruptura raivosa entre a inteligência e o seu objecto, ameaça arrogante de uma ordem em que se deixaria de pensar» (Mitologias, Lisboa, Edições 70, 1997, p. 88). Abordá-la em segundo grau significa, então, desmontá-la, ao mesmo tempo que se nega a suposta elevação das questões que são configuradas nesta poesia. A dimensão deceptiva daí resultante está bem patente, por exemplo, no segundo poema da quinta e última secção do livro:


Sento-me no jardim, a fumar
e a olhar para o que vou deixar.
Nunca imaginei que me pudesse
acontecer uma coisa destas,
passo os dedos por objectos
que nunca tocara antes, quero
saber o nome de todas as folhas
destas flores. Se há mãos pretas
são de tinta de jornal (era no tempo
em que os jornais cheiravam
a tinta), ou então as mãos
pareciam escuras, mas não eram,
havia só uma sombra que lhes dava
de dentro da minha perspectiva
inquinada e oblíqua. Os jardins
são coisas perigosas, levam
à ausência de interrogação
sobre o sentido verdadeiro
da vida. Ah, não sabem o que é
o sentido verdadeiro da vida?
Só um momento, que já vos digo. (p. 83)


Para lá do já referido tom deceptivo imposto no final, desenham-se neste poema as principais linhas estruturantes desta obra de Helder Moura Pereira. A aparente equação narrativa inicial é o pretexto para uma reflexão sobre a passagem do tempo, que permite o alargamento semântico de um texto que recusa deixar-se cair no tom altivo e grandiloquente. É a já conhecida desconfiança pela metáfora, talvez explicável pelo medo da ausência; assim, a metonímia torna-se a figura de retórica preferida, porque há contiguidade entre as partes (a referida e a substituída). Passar os dedos por objectos nunca antes tocados é um acontecimento do domínio do concreto que aqui vem substituir a consciência abstracta da perda. Dizê-lo no poema permite, desde logo, uma sugestiva ampliação do seu sentido, ainda mais reforçada quando, como aqui se verifica, o corte dos versos contribui habilmente para esse efeito, mas convém não esquecer que o recuo permanente diante da metáfora é também a recusa de uma possibilidade que a linguagem oferece. Ao proceder-se com insistência deste modo, corre-se o risco de empurrar o discurso poético para uma monótona reiteração, a qual, no limite, poderia mesmo ser incapaz de evitar a queda na redundância e no vazio.

domingo, abril 28, 2013

JORGE LUIS BORGES

JORGE LUIS BORGES
(Buenos Aires, 1899 - Genebra, 1986)



O SUL

De um dos teus pátios ter olhado
as antigas estrelas,
e do banco da sombra ter olhado
essas luzes dispersas
que a minha ignorância não aprendeu a nomear
nem a ordenar em constelações,
ter sentido o círculo da água
na secreta cisterna,
o cheiro do jasmim, da madressilva,
o silêncio do pássaro a dormir,
o arco do saguão, a humidade
- essas coisas talvez sejam o poema.


§


INSCRIÇÃO SEPULCRAL

Para o meu bisavô, coronel Isidoro Suárez

Explodiu a valentia sobre os Andes.
Arrostou montanhas e exércitos.
A audácia foi o hábito da sua espada.
Impôs na planície de Junín
um final venturoso à batalha
e às lanças do Peru deu sangue espanhol.
Escreveu a sua lista de façanhas
em prosa hirta como os clarins belíssonos.
Escolheu o honroso desterro.
Agora é um pouco de cinza e de glória.


§


A ROSA

A rosa,
a imarscescível rosa que não canto,
a que é peso e fragrância,
a do negro jardim na alta noite,
a de qualquer jardim e qualquer tarde,
a rosa que ressurge da mais ténue
cinza pela arte da alquimia,
a rosa de Ariosto ou a dos Persas,
a que está sempre só,
aquela que é sempre a rosa das rosas,
a jovem flor platónica,
a ardente e cega rosa que não canto,
a rosa inatingível.


§


BAIRRO RECONQUISTADO

Ninguém viu a beleza das ruas
até que, pavoroso, num clamor,
se precipitou o céu esverdeado
num abatimento de água e de sombra.
A tempestade foi unânime
e malquisto aos olhares foi o mundo,
mas quando um arco abençoou
a tarde com as cores do seu perdão
e um cheiro a terra molhada
animou os jardins,
pusemo-nos a andar por entre as ruas
como por uma herdade recuperada,
e nos cristais houve generosidades de sol
e nas folhas luzentes
disse a sua trémula imortalidade o verão.


§


FIM DE ANO


Nem o pormenor simbólico
de substituir um dois por um três
nem essa vã metáfora
que convoca um lapso que morre e outro que surge,
nem o cumprimento de um processo astronómico
atordoam ou minam
o planalto desta noite
e obrigam-nos a esperar
as doze irreparáveis badaladas.
A causa verdadeira
é a suspeita geral e confusa
do enigma do Tempo;
é o assombro em face do milagre
de que apesar de todos os acasos,
de que apesar de sermos
as gotas do rio de Heraclito,
perdure em nós alguma coisa:
imóvel,
alguma coisa que não encontrou o que procurava.


§


A NOITE DE SÃO JOÃO

O poente implacável em esplendores
rompeu a fio de espada as distâncias.
A noite está suave como um salgueiral.
Vermelhos crepitam
os remoinhos das bruscas fogueiras;
lenha sacrificada
perdendo o sangue em altas labaredas,
bandeira viva e cega brincadeira.
A sombra é amena como uma lonjura;
hoje as ruas recordam
que um dia foram campo.
E toda a santa noite a solidão rezando
o seu terço de estrelas espalhadas.


in

Obra Poética Volume 1, editado pela Quetzal , inclui os livros "O Fervor de Buenos Aires", "Lua Defronte" e "Caderno de San Martín", traduzidos por Fernando Pinto do Amaral.


quarta-feira, abril 03, 2013

ISABEL PIRES DE LIMA sobre ÓSCAR LOPES

«Neófito, a morte não existe»
- lembrando Óscar Lopes


por ISABEL PIRES DE LIMA


Óscar Lopes foi um homem bom. E foi um homem humilde como só os homens sábios sabem ser. Humilde no saber, nas certezas, sempre pronto a rever-se e a ensaiar novas soluções para o mar de interrogações por onde navegava procurando persistentemente respostas, sem que isso implicasse perda de um norte ideológico que toda a vida procurou com perseverança, estudo e abertura de espírito. A vida desafiava-o quotidianamente e todos os planos da realidade o interpelavam, por isso nunca se fechou numa única área do saber, nunca foi rato de biblioteca, embora tivesse sido um leitor compulsivo, nunca se fechou ao chamamento do mundo, quer o mundo fosse a sua escola, a sua cidade, o seu partido, o seu país, o planeta, o cosmos. Tudo o interessava e por isso era tão fascinante ouvi-lo, sempre apaixonado pelo ato de pensar, falar, quer da história duma palavra, como da de um longínquo astro, quer de uma qualquer estrutura linguística, como de um verso de Camilo Pessanha, quer da música que tanto amava, como do último problema de lógica com que se debatia. Amava a humanidade e o mundo tão agreste em que lhe foi dado viver.

A curiosidade intelectual insaciável faz dele, jovem professor de português nos liceus, já com duas licenciaturas feitas, um incansável estudioso da literatura e da língua. Começa por se dedicar à historiografia literária, publicando abundantemente já nos anos 40, mas, depois, a crítica literária da produção contemporânea atrai-o e torna-se um brilhante ensaísta, que publica nas páginas do Comércio do Porto, durante as décadas de 50 e 60, uma crítica extremamente original, atenta à materialidade formal do texto literário, na qual vai construindo o seu conceito singular de “realismo problemático ou dialético”, um realismo longínquo da tradição oitocentista e heterodoxo relativamente ao neorrealismo imperante, que se manifesta sempre que a literatura resiste ao senso comum e produz um alargamento de mundos. Através desse exercício crítico vai afinando o seu conceito de que a leitura tem sempre um carácter provisório. Ler é fazer tentativas, é ensaiar sínteses, pontos de equilíbrio num palco de conflitos que um texto sempre constitui. Por isso, para Óscar Lopes, a leitura de um texto literário constitui um desafio para quem lê: “compreender, realmente, uma obra é compreender-se melhor.”

Esta tentativa de ler com propriedade e instrumentos tão rigorosos quanto possível leva-o a mergulhar mais no estudo da língua. Nos anos 60, num clima intelectualmente adverso, impedido até, por algum tempo, de ensinar, controlado nos contactos, movimentos, correspondência, em clima de grande solidão intelectual, Óscar Lopes torna-se um investigador de ponta no campo da linguística. Escreve, como bolseiro da Fundação Gulbenkian, a inovadora Gramática Simbólica do Português, a partir das experiências que faz com os seus estudantes adolescentes, cruzando formalmente o ensino do português com o da matemática. Quando, com o 25 de Abril, vê finalmente abrirem-se-lhe as portas da Universidade, será no campo da linguística que exercerá o seu magistério. Eu, então jovem assistente universitária, recordo o pasmo com que assisti a algumas das aulas de Linguística Matemática e Computacional que dava nos intervalos que a gestão da Faculdade de Letras do Porto, em quotidiano processo de mudança e democratização lhe permitiam, gestão que ele abraçou com o entusiasmo que punha em tudo.

Claro que todos o lembramos por essa obra fundadora de uma historiografia literária nova, arredada da historiografia positivista imperante, que escreveu a duas mãos com o amigo de sempre, António José Saraiva, a História da Literatura Portuguesa, a qual, com cerca de 20 edições, formou gerações de estudantes em Portugal, no Brasil e um pouco por todo o mundo onde se estuda a literatura portuguesa. Mas ela é apenas a parte com mais visibilidade da obra muito mais vasta e complexa, até muito tarde desconhecida, deste homem do norte.

A bondade já evocada de Óscar Lopes, fruto evidentemente da sua elevada dimensão ética, também decorre em grande medida do ensaísmo que sempre praticou em todos os domínios – ensaísmo no seu sentido etimológico de ensaiar, tentar, encontrar soluções e tentar de novo novas hipóteses. A sua bondade manifestava-se neste espírito de abertura ao conhecimento e ao diálogo com o outro. Das coisas de que mais gostava era de trocar, debater, defender ideias e por isso ouvia o outro com uma disponibilidade sem limites: do aluno principiante ao intelectual ou ao criador de maior renome. Ouvia-os com um interesse genuinamente idêntico conjugando ao máximo os seus próprios preconceitos ou pressupostos ideológicos. O membro do Comité Central do PCP que também foi durante algum tempo não adotava qualquer ortodoxia nas suas opções ideológicas ou epistemológicas.

Um dia, em 1992, Óscar Lopes escrevia a um António José Saraiva doente e desalentado: “Só o enfraquecimento da convicção é que nos pode dar a obsessão da morte. Lembra-te do verso de Pessoa, no poema Iniciação: «Neófito, a morte não existe»(sic). Cada um de nós é muito mais (e muitos mais) do que aquele que se vê. (…) «Neófito, a morte não existe»(sic), a não ser na falta de convicção de verdade ou de valor».

Era assim Óscar Lopes, não acreditando na morte e perseguindo sentidos de verdade para a vida no pensamento.


Depoimento publicado no Jornal de Notíicias de 28.03.2013, reproduzido com autorização da autora.


sábado, março 23, 2013

NOTAS SOBRE LIVROS (10)

BOÉCIO
Consolação da Filosofia (De Consolatione Philosophiae, 524 d. C.)
Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2011


por JOÃO PAULO SOUSA


Poderá, a minha afirmação seguinte, parecer inicialmente estranha a um leitor menos atento às vicissitudes do mundo dos livros em Portugal, mas será fácil prová-la: a Fundação Calouste Gulbenkian é, no actual contexto deste triste país, uma das editoras mais importantes. O conhecimento dos títulos que marcam indiscutivelmente o cânone ocidental serve para que se detecte a ausência de uma vasta quantidade dessas obras na edição portuguesa, em particular quando elas não respondem ao desmemoriado critério da coexistência temporal. Não pretendo discutir aqui o que significa «ser contemporâneo», mas posso dar um pequeno contributo reconhecendo que é possível alguém sentir-se hoje mais próximo de autores como Apuleio (séc. II d. C.) ou Sterne (séc. XVIII) do que da maior parte dos romancistas que publicam actualmente, sem que isso signifique um anacronismo irremediável. Na verdade, só a amplitude das leituras permite que alguém determine efectivamente as suas afinidades electivas e, ao mesmo tempo, conheça melhor o mundo em que lhe coube viver. Ora, tem cabido à Fundação Calouste Gulbenkian a tarefa de suprir algumas lacunas escandalosas no mundo português dos livros; seria fácil elencar títulos integrados no seu plano de edições que confirmassem a minha asserção, mas deter-me-ei apenas num, que possui a admirável capacidade de associar as ciências humanas e a poesia: Consolação da Filosofia, de Boécio.

O seu autor, conforme nos recorda o tradutor Luís M. G. Cerqueira, num prefácio tão informado quão conciso, foi a última das grandes figuras culturais dessa época que nos habituámos a designar como Mundo Antigo. Viveu entre 480 e 524 d. C., ano em que foi executado de forma especialmente violenta, depois de ter caído em desgraça na corte do rei Teodorico e ter sido encarcerado em Pavia. Foi aí, nessa situação de homem que passou de um lugar de topo para a de prisioneiro a aguardar uma execução quase inevitável, que este homem excepcional compôs um dos livros mais célebres da cultura europeia. O narrador da Consolação, que tem as características do próprio Boécio, é visitado na sua cela por uma mulher de estatura indecisa, que «ora se reduzia ao tamanho normal dos homens, ora parecia tocar o céu com o cimo da cabeça» (p. 18); esta mulher é a Filosofia e irá dialogar com ele ao longo de quase duzentas páginas, para o convencer de que a sua situação não é mais digna de desespero do que qualquer outra, ou talvez até menos do que muitas outras. Para o fazer, terá de o afastar dos falsos alívios, entre os quais se conta o da poesia:

Quando viu as Musas da poesia em volta do meu leito e a ditar-me as palavras para os meus lamentos, perturbando-se um pouco, enfurecida e com olhar ameaçador, disse:
– Quem permitiu a estas galderiazecas de teatro aproximarem-se deste infeliz, não para aliviarem com remédios as suas maleitas mas antes para ainda mais as alimentarem com doces venenos? (p. 19)


Poderão estas palavras de inspiração platónica (as referências ao autor de A República são constantes no decurso desta obra) parecer categóricas, mas a estrutura da Consolação desmente essa recusa absoluta da dimensão literária e, em particular, da poética. A cada sequência em prosa segue-se uma sequência em verso (é assim, aliás, que abre o livro), constituindo esta alternância uma forma designada por prosímetro, com antecedentes na literatura antiga. O proprósito, em Boécio, não seria apenas o de introduzir uma variação que tornasse mais agradável a leitura, pois é bem notório como, a partir de certa altura, as sequências em verso condensam a exemplificação dos argumentos com que a Filosofia vai encaminhando o seu interlocutor para o abandono dos valores terrenos e para a dedicação integral a um deus cristão que parece escapar ao modelo mais ortodoxo. Independentemente da importância dessas sequências enquanto partes de um conjunto, algumas delas não podem deixar de ser admiradas como poemas em que a condensação da imagem histórica reverbera como, por exemplo, nos melhores versos de um autor como Kavafis. Atente-se neste final do segundo metro do Livro III, que se segue à defesa da ideia de que todos os seres – reais ou imaginários – procuram o que lhes é natural:


O ramo dobra para baixo o seu cimo,
forçado em dado momento por poderosas forças,
mas se a mão que o verga o largar,
erguer-se-á para o céu, endireitando-se.
Mergulha Febo nas águas hespéreas,
mas de novo, por secreto caminho,
orienta o carro para o sítio onde costuma nascer.
Todas as coisas voltam a procurar
os caminhos que lhes são próprios,
e alegram-se quando a eles regressam,
e não perdura a ordem outorgada a coisa alguma,
a não ser que se trate de algo que ligue o princípio ao fim
e dê estabilidade ao orbe. (pp. 82-83)


A doçura do canto de Boécio alterna com o rigor lógico que conduz o leitor até uma reflexão deslumbrante sobre a importância do tempo como elemento distintivo do humano, não apenas em relação ao animal, mas sobretudo perante o divino. As páginas finais deste livro, em que se procura conciliar a existência do livre arbítrio com a presença de um deus omnipotente e, por conseguinte, conhecedor de todas as decisões humanas, preservam a suavidade do percurso mental que até aí se compôs, graças à fundamental articulação entre o pensamento filosófico e a linguagem poética, tão grata a George Steiner (patente no seu livro A Poesia do Pensamento, já por mim aqui comentado). Ao tempo linear dos humanos contrapõe a Filosofia uma espécie de tempo espacial, em que tudo está presente em simultâneo, independentemente de pertencer ao que os humanos designam como passado ou futuro. Regressamos, assim, ao ponto de partida deste texto, ao esboço de uma reflexão sobre o que seja «ser contemporâneo», e tocamos uma questão afinal decisiva na poesia da modernidade, de que deram conta obras maiores como, por exemplo, The Waste Land (1922), de Eliot, ou os Cantos (a partir de 1925), de Pound, na sua insaciável procura de abarcar múltiplos tempos e lugares.

quinta-feira, março 21, 2013

WISŁAWA SZYMBORSKA (5)


WISŁAWA SZYMBORSKA não precisa de apresentação. No Dia Mundial da Poesia, este blogue tem o prazer de oferecer aos seus leitores mais três poemas traduzidos do polaco por TERESA SWIATKIEWICZ. Três poemas que a poetisa polaca dedicou a três mulheres cujo denominador comum é a desconstrução de protótipos. Muito obrigado, Teresa.



UM MINUTO DE SILÊNCIO POR LUDWIKA WAWRZYŃSKA*
(1975)


E tu aonde vais?
Se ali já só há fumo e fogo!
- Ficaram lá quatro crianças,
vou buscá-las!

Como é possível
assim de repente
desprender-se de si próprio?
Da ordem do dia e da noite?
Das neves do ano que vem?
Dos rubores das maçãs?
Da mágoa do amor
que nunca é demais?

Sem se despedir, nem ser despedida
sozinha a correr acode as crianças,
olhem só, trá-las em braços,
mergulhando no fogo até aos joelhos,
levando o fulgor no cabelo revolto.

Ela, que queria comprar um bilhete,
sair da cidade por um tempo,
escrever uma carta,
abrir a janela após a trovoada,
trilhar o caminho aberto no bosque,
espantar-se com as formigas,
ver como o lago se enruga
com o sopro do vento.

Um minuto de silêncio pelos mortos
perdura às vezes pela noite fora.

Sou testemunha ocular
do voo das nuvens e dos pássaros,
ouço a relva crescer
e sei como ela se chama,
decifrei milhões
de caracteres impressos,
segui com o telescópio
estrelas bizarras,
só que até hoje
ninguém me pediu socorro
e se acaso lamento
uma folha, um vestido, um poema –

De nós próprios só sabemos,
o que nos foi posto à prova.
É isto o que eu vos digo
deste meu coração que desconheço.


*Ludwika Wawrzyńska - professora primária que salvou de um incêndio quatro crianças, vindo a falecer em consequência das queimaduras sofridas.


§


DECAPITAÇÃO
(1967)

Decote provém de decollo,
decollo significa corto o pescoço.
A rainha da Escócia, Maria Stuart,
subiu ao cadafalso com uma blusa apropriada;
a blusa era decotada
e vermelha como uma hemorragia.

Nesse mesmo instante
num aposento solitário
Isabel Tudor, rainha de Inglaterra,
quedava-se à janela com um vestido branco.
O vestido estava vitoriosamente apertado até ao queixo
e era rematado com uma gorgeira engomada.

Pensavam em coro:
«Meu Deus, tende piedade de mim»
«A razão está do meu lado»
«Viver significa tropeçar»
«Em certas circunstâncias a coruja é filha do padeiro»
«Isto nunca mais acaba»
«Isto já acabou»
«Que faço eu aqui, aqui onde não há nada».

Diferença no traje – sim, dela temos a certeza.
O pormenor -
esse é inalterável.


§


A MULHER DE LOT
(1976)

Ao que parece olhei para trás por curiosidade.
Mas, para além de curiosidade, podia ter outras razões.
Olhei para trás com pena da malga de prata.
Por distração – ao atar a correia da sandália.
Para não ver mais os ombros justiceiros
do meu marido, Lot.
Com a certeza repentina de que, se eu morresse,
ele não se dignaria parar.
Com a desobediência dos humildes.
Ao escutar se alguém vinha atrás de nós.
Afetada pelo silêncio, na esperança de que Deus mudasse de ideias.
As nossas duas filhas afastavam-se já para além da colina.
Senti em mim a velhice. O afastamento.
A inutilidade da caminhada. A sonolência.
Olhei para trás ao pousar a trouxa no chão.
Olhei para trás receosa sem saber onde pôr o pé.
No meu caminho atravessaram-se cobras,
aranhas, ratos do campo e filhotes de abutre.
Já não eram nem bons nem maus – porque tudo o que estava vivo,
rastejava e pulava num alvoroço gregário.
Olhei para trás por solidão.
Com vergonha de fugir às escondidas.
Com vontade de gritar e regressar.
Ou terá sido somente quando se ergueu um pé-de-vento
que me soltou o cabelo e levantou o vestido,
ficando eu com a sensação de que atrás das muralhas de Sodoma
toda a gente estava a ver e desatara a rir às gargalhadas.
Olhei para trás cheia de raiva.
Para me saciar com a sua imensa destruição.
Olhei para trás por todos os motivos atrás invocados.
Olhei para trás sem querer.
Foi um pedregulho que se virou, rangendo sob os meus pés.
Foi uma fenda que de repente me cortou o caminho.
Na borda um hamster vacilava agarrando-se com duas patinhas.
E foi então que ambos olhámos para trás.
Não. Não. Eu continuei a correr,
rastejando e levantando voo,
enquanto as trevas não desabaram do céu
e, com elas, uma gravilha escaldante e pássaros mortos.
Com falta de ar, dei várias voltas.
Quem o visse, diria que eu estava a dançar.
Não é de excluir que tivesse os olhos abertos.
É possível que tivesse caído com o rosto virado para a cidade.

Tradução de Teresa Fernandes Swiatkiewicz

terça-feira, março 12, 2013

VALERIO MAGRELLI

(este post é para a Margarida Ferra)

VALERIO MAGRELLI nasceu em Roma, em 1957. Os seus poemas são frequentemente construídos a partir de breves apontamentos cujo cerne é um, ou vários, achados formais o mais das vezes surpreendentes, que nos obrigam a rever a forma como olhamos as coisas. A Quetzal publicou o seu livro "A espinha do P", em 1993, inserido na colecção "Poetas em Mateus", revista e apresentada por Maria Carlos Loureiro, de onde foram colhidos, com a devida vénia, estes cinco poemas onde é notória a originalidade, a criatividade e a inovação deste extraordinário olhar poético italiano.



§


Desliza a caneta
para a virilha da página
e em silêncio se recolhe a escrita.
Esta folha tem os confins geométricos
de um estado africano, onde disponho
o alinhamento paralelo das dunas.
Agora desenho
enquanto conto o
que contando se perfila.
É como se uma nuvem
chegasse a ter
forma de nuvem.



§



Um ao pé do outro depois da refeição
estão os copos dos noivos, unidos
numa proximidade nupcial.
Por toda a parte, contagiando
roupas e objectos
o casal trai a sua passagem
e deixa atrás de si
coisas aos pares, binárias, tocando-se
entre si, testemunhos,
pares do mundo.



§



Imaginei muitas vezes que os olhares
sobrevivem ao acto de ver
como se fossem hastes,
trajectos medidos, lanças
numa batalha.
Penso então que dentro de uma sala
há pouco abandonada
esses traços devem ficar
por algum tempo suspensos e cruzados
no equilíbrio do seu desenho
intactos e sobrepostos como os paus
de mikado.



§



Se para te falar devo marcar um número
transformas-te em número,
dispões as linhas
na combinação a que respondes.
O três que se repete,
o nove em terceiro lugar,
indicam algo do teu rosto.
Quando te procuro
devo desenhar a tua imagem,
devo reproduzir os sete algarismos
análogos ao teu nome
até se entreabrir o cofre-
-forte da tua viva voz.

(...)


§



E se as voltas de fechadura
não acabassem nunca?
e se tivesse de ficar toda a vida
aqui fora, a dar voltas à chave?
Faço a cópia das minhas chaves
faço a cópia das minhas cópias
o que gasto para as multiplicar
serve para tirar a cada uma o seu valor
o meu Valério. No perfil dos versos
reproduzo o recorte
dentado das chaves.



§




FRANCO LOI


FRANCO LOI nasceu em Génova em 1930, mas cedo foi viver para Milão, aos 7 anos de idade. Escreve por isso em italiano mas também em dialecto milanês. A sua poesia aborda profusamente a temática da memória e do tempo, através de evocações do lado hedonista da vida, como sejam as mulheres e o usufruto dos frutos da terra, o que o torna um poeta imensamente italiano. A Quetzal publicou em 1993 o livro "Memória", na colecção Poetas em Mateus, revista e apresentada por António Osório, de onde se retiraram, com a devida vénia, estes três poemas.



§



Mariuccia,
as primeira maminhas da minha vida,
sorriso maroto entre as grades da varanda,
tu, de ébano,
olhos de fuinha, a rapariga de sempre,
que sob as franjas da toalha verde, a ternura,
ali, debaixo de uma mesa, como gatos abraçados,
entre os sapatos das mães e das velhas bichanando,
ali, como uma flor em botão que me beijasse,
me oferecia, qual violeta, o belo veludo da sua graça,
a mim, o seu miúdo, que arrastava
com a mãozinha magra para o sótão,
e a voz que nos chamava era o anoitecer...
oh, tardes da rua Cardano,
pátios de neblina, 
sopros de bruma que vêm dos canais,
o Ernesto que aos sessenta chorava pela mãe,
por ela que com a escova lhe fustigava a cara,
ele, sapateiro, embebedava-se com o homem das bicicletas,
e ela, velha, paralítica rameira,
grita: de joelhos!
de joelhos, seu malandro!
não te faças de novas, não mereces o pão!
e em baixo, das retretes, os resmungões sibilavam:
sacana do Ernesto, como um cacho!
e nós que com os garotos vozeávamos:
o Gigi! O Gigi!
passarinhávamos céleres,
e era o vendedor de castanhada que chamava do carrinho
por mim e pela Mariuccia, e pelos mundos secretos.

de "Strólegh" (1975)


§


Poeta, dizem do apaixonado,
poeta, dizem de quem chora ao anoitecer
e de manhã se levanta em desespero.
Mas também se diz poeta quem alegra,
quem sabe falar bem, beber, comer,
e o que canta as mulheres, poeta ainda,
a juventude extasiada.
Mas os que matam nos outros a poesia
fechada à chave, e os afogam
no grande livro da vida... paciência!
Não são poetas, homens de bem não são.
São massa informe, e pronto, e assim seja.

de: "L'Ária" (1981)


§


Oh, Itália louca de gente que se foi,
amigos que se encontravam pelas ruas,
raparigas das frescas, belas pernas, bela raça
que me fazia viver do seu falar,
aves que sobre nós se enamoravam,
canções no sol, bicicletas e eléctricos:
agora estou só e à escuta da memória
que vem do dolorido da cidade,
e dentro tenho, antiga, a paciência,
falo com as árvores e o céu está sobre mim,
leve como o ser vento de um falcão
que a fome traz de longe à nossa vida.

de: "Memória"(1991)