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domingo, março 21, 2010

ONÉSIMO TEOTÓNIO DE ALMEIDA acerca de EMANUEL FÉLIX

«Escolhi o poema 'As raparigas lá de casa', do meu falecido amigo, o poeta Emanuel Félix, que ainda há dias o Eugénio Lisboa recitava numa entrevista na Antena-1. O Emanuel é um grande poeta mas, porque publicou quase só na ilha (hoje tem um livro traduzido para inglês - 'The Possible Journey', tradução de John M. Kinsella, 2002), não é devidamente conhecido no Rectângulo


Emanuel Félix nasceu e faleceu em Angra do Heroísmo (24-10-1936 / 14-2-2004). Poeta, ensaísta, autor de contos e crónicas, crítico literário e de artes plásticas, foi considerado o introdutor do concretismo poético em Portugal, que cedo rejeitou, tendo passado pela experiência surrealista. Fundou e foi co-director da revista Gávea (1958). Foi co-director da revista Atlântida. Iniciou os seus estudos nos Açores, tendo, porém, feito quase toda a sua preparação técnico-profissional no estrangeiro, designadamente no Instituto Francês de Restauro de Obras de Arte (Paris), na Escola Superior de Belas-Artes de Anderlecht e na Universidade Católica de Lovaina, onde se especializou no Laboratório de Estudo de Obras de Arte por Métodos Científicos do Instituto Superior de Arqueologia e História da Arte da mesma Universidade. Os seus principais livros de poesia são o 'Vendedor de Bichos', Lisboa, 1965; 'Seis Nomes de Mulher', Angra do Heroísmo, 1985; 'O Instante Suspenso', Angra do Heroísmo, 1992; 'A Viagem Possível', Lisboa, 1993 e 'Habitação das Chuvas', Angra do Heroísmo, 1997, onde se inclui o poema "As raparigas lá de casa".


AS RAPARIGAS LÁ DE CASA

Como eu amei as raparigas lá de casa

discretas fabricantes da penumbra
guardavam o meu sono como se guardassem
o meu sonho
repetiam comigo as primeiras palavras
como se repetissem os meus versos
povoavam o silêncio da casa
anulando o chão os pés as portas por onde
saíam
deixando sempre um rastro de hortelã
traziam a manhã
cada manhã
o cheiro do pão fresco da humidade da terra
do leite acabado de ordenhar

(se voltassem a passar todas juntas agora
veríeis como ficava no ar o odor doce e materno
das manadas quando passam)

aproximavam-se as raparigas lá de casa
e eu escutava a inquieta maresia
dos seus corpos
umas vezes duros e frios como seixos
outras vezes tépidos como o interior dos frutos
no outono
penteavam-me
e as suas mãos eram leves e frescas como as folhas
na primavera

não me lembro da cor dos olhos quando olhava
os olhos das raparigas lá de casa
mas sei que era neles que se acendia
o sol
ou se agitava a superfície dos lagos
do jardim com lagos a que me levavam de mãos dadas
as raparigas lá de casa
que tinham namorados e com eles
traíam
a nossa indefinível cumplicidade

eu perdoava sempre e ainda agora perdoo
às raparigas lá de casa
porque sabia e sei que apenas o faziam
por ser esse o lado mau de sua inexplicável bondade
o vício da virtude da sua imensa ternura
da ternura inefável do meu primeiro amor
do meu amor pelas raparigas lá de casa



Onésimo Teotónio Almeida nasceu no Pico da Pedra, S. Miguel, Açores, no dia 18 de Dezembro de 1946. Professor Catedrático no Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros da Brown University, Providence, Rhode Island, EUA, de que foi director de 1991-2003. Lecciona na Brown desde 1975. Doutorado em Filosofia pela Brown University (1980), é Fellow do Wayland Collegium for Liberal Learning, um Instituto de Estudos Interdisciplinares na Brown University, onde lecciona uma cadeira sobre Valores e Mundividências. Publicou contos, teatro, crónicas, ensaios e prosemas. Entre as suas obras mais conhecidas encontram-se os livros "(Sapa)teia Americana" (1ª ed. 1983; 2ª ed. 2000, Lisboa, Salamandra), "No Seio Desse Amargo Mar" (Lisboa, Salamandra, 1991), "Que nome é esse, ó Nézimo? – E outros advérbios de dúvida" (Lisboa, Salamandra, 1994), "Rio Atlântico" (Lisboa, Salamandra, 1997), "Viagens na Minha Era" (Lisboa, Temas e Debates, 2001) e "Livro-me do Desassossego" (Lisboa, Temas e Debates, 2006). Fundou e dirige a editora Gávea-Brown. Desde 1979 mantém um programa sócio-cultural no Portuguese Channel, da Whaling City Cable-TV, de New Bedford, Massachusetts.


Leia mais sobre Onésimo Teotónio de Almeida, aqui.

domingo, março 14, 2010

PEDRO PAIXÃO acerca de LUÍS DE CAMÕES


«O que mais gosto neste poema», diz
Pedro Paixão ao Poesia Ilimitada, «é o que mais aprecio em qualquer poema e na literatura em geral: conjuga sublimemente a verdade com a beleza. Todos os grandes poemas e canções de amor, de que este é um excelente exemplo, são tristes e tingidos de melancolia, porque o amor promete o que não pode: durar eternamente.»



Quem ora soubesse
Onde o Amor nasce,
Que o semeasse!


De Amor e seus danos
Me fiz lavrador;
Semeava Amor
E colhia enganos;
Não vi, em meus anos,
Homem que apanhasse
O que semeasse.


Vi terra florida
De lindos abrolhos,
Lindos pera os olhos,
Duros pera a vida;
Mas a rês perdida
Que tal erva pasce
Em forte hora nasce.


Com tanto perdi,
Trabalhava em vão:
Se semeei grão,
Grã dor colhi.
Amor nunca vi
Que muito durasse,
Que não magoasse.



Pedro Paixão
nasceu em Lisboa em 1956. Estudou em Lisboa, Lovaina e Heidelberga. Doutorou-se aos 29 anos. Foi co-fundador do jornal O Independente. Fundou, com Miguel Esteves Cardoso, a empresa de publicidade Massa Cinzenta. Publicou vinte livros de ficção e dois álbuns de fotografia. Escreveu dois textos para teatro e um para ópera. Não é membro de qualquer associação, clube, partido ou igreja. Nunca votou. Praticou Karate Do. Nada no mar quase todos os meses do ano. Tem um filho. É casado pela quarta vez. Vive em Santo António do Estoril.

sexta-feira, março 12, 2010

INÊS LOURENÇO acerca de RICARDO REIS

«Pese embora a minha grande admiração pela escrita de poetas de outras línguas», refere Inês Lourenço ao Poesia Ilimitada, «continuo a achar que Fernando Pessoa é um caso à parte em qualquer literatura. No poema «Autopsicografia», ele tira logo o tapete às interpretações mais ou menos impressionistas e biográficas do fazer poético, revelando o lado ficcional da escrita e a prevalência do sujeito poético ou eu-lírico, sobre o sujeito biográfico. Isto foi uma enorme inovação, inserida no Modernismo, de que muito boa gente, ainda hoje, não tomou consciência. E, quem não tomou consciência disso, nada percebe da poesia actual. Muito mais poderia acrescentar sobre heteronímia ou o «drama-em-gente»; mas isso já está sobejamente descrito e estudado. Como poema preferido, lembro-me de uma ode do heterónimo Ricardo Reis que muito aprecio.»




Não só quem nos odeia ou nos inveja
Nos limita e oprime; quem nos ama
Não menos nos limita.
Que os deuses me concedam que, despido
De afectos, tenha a fria liberdade
Dos píncaros sem nada.
Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada
É livre; quem não tem, e não deseja,
Homem, é igual aos deuses.



Inês Lourenço nasceu no Porto em 1942. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses) pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Publicou diversos livros de poesia entre os quais "Os Solistas", "Um Quarto com Cidades ao Fundo – poesia reunida (1980-2000)", "A Enganosa Respiração da Manhã", "Logros Consentidos", "Disfunção lírica", entre outros. Coordenou e editou desde 1987, os Cadernos de Poesia – Hífen, com 13 números editados, publicação de carácter inter-geracional, em que participaram com colaborações inéditas, grande parte dos poetas portugueses actuais, bem como poetas de outras línguas. É a autora do blogue "Logros Consentidos".


Leia mais no Poesia Ilimitada sobre Inês Lourenço, aqui.




segunda-feira, março 01, 2010

JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES

(para Joaquim Manuel Magalhães)

Atónito.

É como me sinto depois de ter terminado a leitura do último livro de Joaquim Manuel Magalhães,Um Toldo Vermelho” (Relógio d’Água, Lisboa, 2010), com o qual o poeta afirma excluir e substituir toda a sua obra poética anterior. Nesse volume, que passa assim a constituir a verdadeira obra completa do Autor, - a única que a partir de agora reconhece como sua, - são escassas e esparsas as semelhanças com os poemas que conhecíamos de "Consequência do lugar" (Relógio d'Água, 2001), "Os dias, pequenos charcos" (Presença, 1981), “Segredos, sebes, aluviões” (Presença, 1985), “Uma luz com um toldo vermelho” (Presença, 1990), “A poeira levada pelo vento” (Presença, 1993) ou, mesmo, “Alta noite em alta fraga” (Relógio d'Água, 2001). Quando se esperava (??) que o Autor republicasse a sua obra completa num só volume com inevitáveis revisões próprias de uma releitura, ou em alternativa, aproximasse os 4 livros (do meio) publicados pela Presença, eis a surpresa completa.

Em certos casos, o que sobra desses livros são somente cortinas, títulos, certas dedicatórias. A parte pelo todo, portanto, a metonímia suprema. Releve-se que o Autor não apresenta este como sendo um livro complementar à sua obra, uma leitura por escrito da mesma, uma súmula última por agora, mas como uma substituição. E tratam-se, na verdade, na esmagadora maioria dos casos, de poemas completamente novos onde o tom mais lirico, realista, narrativo que lhe conhecíamos, dá lugar a um registo sintático pedregoso, uma escrita sabotada e minimal, com um léxico riquíssimo, numa toada por vezes abstracta (a espaços até barroca), significativamante diversa da voz a que nos tinha habituado enquanto leitores. Bom, não exactamente da voz: os sinais de desalento e desconforto social permanecem, e parecem mesmo exacerbar-se fruto da economia, da síntese e da contenção levadas a cabo. A poesia, porém, é que passa a existir agora muito mais na tensão frásica e vocabular entre os versos (que, de tão coevos, optam por seguir o acordo ortográfico), do que na toada prosaica a que nos havia acostumado. Trata-se do mesmo nome, claro, Joaquim Manuel Magalhães, mas é outra a escrita: outro o poeta.

Uma coisa parece-me desde já, ser verdade: para o bem ou para o mal, estamos perante o happening poético do ano. Não se trata aqui de alguém que escreveu uma obra nova sob pseudónimo ou heterónimo. Trata-se de, em nome do mesmo nome, ser outra coisa, muito diversa, reescrevendo tudo quando havia publicado até então, mantendo somente o pilar da estrutura - como escreve Rui Lage no seu primeiro comentário a este post, - o esqueleto. Daí que a pergunta óbvia surja célere: o que pretende Joaquim Manuel Magalhães com isto? Reescrever a sua obra contra alguém? Contra a crítica, que o espartilhou num rótulo que pretende agora rejeitar? Contra os epígonos que se seguiram, dos quais se pretende libertar? Ou contra si próprio, contra a sua própria obra?

É que esta opção não deixa lugar para meios termos: este seu gesto de vanguarda, como há muito tempo não se via na poesia portuguesa - o reescrever de uma Obra completa (!!) sob o signo da alteridade, - ou é próprio de um “louco” que pretende destruir a sua obra, ou é fruto de um “génio”, altamente criativo. O tempo, como sempre, o dirá. Por agora, não há como folhear o livro com os próprios olhos. Será que estéticamente esta escrita funciona tão bem como a primeira? Ou, dirão outros, que importância tem a estética quando se fala de poesia?

De uma forma ou de outra, estamos perante uma súmula absolutamente inesperada - mesmo se vinda de J.M.M., - onde o poeta, repito, rasura quase por completo o seu programa do “regresso ao real” em formato prosaico e narrativo, presenteando-nos agora com uma obra bem mais hermética, que rejeita tutelas posteriores (deixando assim "orfã" uma geração inteira para quem era o guru), obra essa sobre a qual paira agora uma revisitada aura herbertiana.

Não deixa de ser irónico que numa altura em que até Gastão Cruz se havia aproximado dos encantos do prosaismo (mas com qualidades), eis que Joaquim Manuel Magalhães surge com um novo programa, revisitando territórios mais ao gosto da Poesia 61. Isto porque me parecem agora poemas que trabalham muito mais sobre a matéria da linguagem (tendo como ponto de partida a linguagem de que eram feitos os primeiros), do que directamente sobre a matéria do real (tendo como ponto de partida as coisas do mundo que os haviam despoletado).

Quais eram as chances de se prever isto?


§


«(...)
Melhor seria que não me lessem nunca
os que por costume lêem poesia.
Muito além deles conseguir falar
ao que chega a casa e prefere o álcool,
a música de acaso, a sombra de alguém
com o silêncio das situações ajustadas.

Não ser lido por quem lê. Somente
pelos que procuram qualquer coisa
rugosa e rápida a caminho de uma revista
onde fotografaram todo o ludíbrio da felicidade.
Que um poema meu lhes pudesse entregar.
ademais da morte,
um alívio igual ao de atirar os sapatos
que tanto apertam os pés desencaminhados.
(...)»

10ª e 11ª estrofes de "Sangramento", 3º poema de "Alta Noite em Alta Fraga" (2001)



»(...)
Melhor não me lesse
quem por dever.
Conseguisse a adesão
do acaso. Lagar,
um ludíbrio.

Oferta de alívio, o atacador
solta o sapato desencaminhado.
E entretém em inferior engenho
o tédio prévio ao vídeo
e ao embaraço.
(...)»

4ª e 5ª estrofes do 4º poema de "Alta Noite em Alta Fraga", último livro de "Um Toldo Vermelho" (2010)


§§


Poucas vezes a beleza terá sido tanta
como no lustro preto dos sacos de lixo
à porta dos hotéis, dos armazéns, das casas de comida
nas mais pequenas horas da noite em Londres.
Estão amontoados fechando o esterco,
os lençóis com sangue, os restos apodrecidos,
adesivos negros que parecem afagos.
Os homens ao lançá-los nas fornalhas
são erguidos a imaginações malditas,
à feroz acção de deuses nos vulcões,
ao odor sacrílego de alquimistas mortos.
Ir na luz eléctrica e ver esses maços de treva,
essa cor quase molhada dos plásticos
a parecer verniz, a parecer chamar-nos,
a dar-nos o sebo como se fosse a arte,
tem um fervor que finda o pequeno mal, a vida.

1º poema de "Logros", segunda parte de "Vestígios" (1977), livro incluído em "Consequência do Lugar" (2001).


*

Recolhe o júbilo dos invólucros de látex.
Na sujidade
a fita adesiva um afago.

Bolça-os à fornalha
nauseabunda,
doma o clamor bonançoso,
incinera.

Cadinho hermético,
operário do soturno.

6º poema de "Consequência do Lugar", segundo livro de "Um Toldo Vermelho" (2010)


§§


Conta-se que, a Giacometti era necessário esconder as esculturas em que ia trabalhando sob pena de transformar as esguias figuras humanas que urdia numa fina haste metálica, instável e quebradiça, quase já sem qualquer figuração discernível, tal era a sua obcessão lapidativa por não dar nunca a obra por terminada.

Joaquim Manuel Magalhães terá partido, parece certo, das versões que conheciamos para as trabalhar e sintetizar e exaurir nos poemas mais reduzidos e condensados que nos apresenta agora. Porém, por paradoxal que pareça, o Autor parece por vezes escrevê-los a partir da memória que guarda da situação que os originou, porque o que existe em comum com a versão primeva - e note-se que nem todos os poemas foram trabalhados, muitos foram pura e simplesmente abandonados, - são apenas dois ou três substantivos fortes, uma ou duas ideias chave, às quais o Autor se agarra e tenta - e a maior parte das vezes consegue, - eliminar qualquer réstia de acção ou movimento ou circunstancialidade, delapidando-as do seu teor prosaico e narrativo, fixando-as no tempo e tornando-as tanto quanto possivel estáticas e herméticas (quem faz isto muito bem é Gil de Carvalho), como se nesta sua obra completa, mais do que salvar poemas antigos, o Autor tentasse salvar a memória daquilo que informou a escrita de alguns deles: um gesto, o pequeno acontecimento, um amor.

Nesse sentido, e também porque se trata de uma súmula com menos poemas do que a soma dos poemas publicados nos seus livros anteriores (evidenciando-se assim um duplo trabalho de sintese quer no número de poemas, quer na extensão de cada um), julgo que este "Um Toldo Vermelho", para ter alguma chance de despertar outro sentimento que não o que, por exemplo, Rui Lage descreve no seu comentário, - fruto da inevitável comparação, - deverá ser lido longe, muito longe de qualquer um dos livros agora eliminados, ou seja, como se de uma obra outra, sem imagem em espelho, se tratasse. Mesmo que, merçê desta exaustiva e furiosa delapidação - que naturalmente deixa de fora elementos "explicativos" de ligação, exactamente esses que o Autor quis conscientemente eliminar, - se imponha, paradoxalmente e a espaços, o cotejo com a versão original para melhor os contextualizarmos, para que melhor comuniquem e possam ser compreendidos. Isto assumindo que se mantem no poeta, o desejo de comunicação com o leitor.

Por esta altura, e pelo número de vezes a que já voltei a este post durante a semana, já se deve ter percebido que me sinto pessoalmente ofendido com Joaquim Manuel Magalhães por ele me ter feito isto. Porém, o que me parece que o futuro vai reservar a este livro, é vir a ser um mero apêndice acerca da obra que estimávamos, que mais cedo ou mais tarde virá a ser recuperada. Quem já foi submetido a uma apendicectomia sabe, por experiência própria, qual é o destino que os cirurgiões destinam aos orgãos dispensáveis. No absurdo, o poeta até poderia ir pelas bibliotecas do país, a rasgar cada um dos seus livros disfarçado de agente da Leya, mas nunca poderia apagar a nossa memória. Onde fica no meio de tudo isto o nosso juízo crítico como leitores, se o poeta nos quer levar a ler uma obra que apreciamos menos, que nos proporciona um menor apelo aos sentidos, perante a qual exibimos uma resposta mais tímida e envergonhada, se todos temos lá em casa bem ao alcance da mão, as linhas que nos proporcionam o inverso do que acabei de escrever?

Juan Ramón Jiménez fez uma coisa parecida que nunca foi tomada em conta pela crítica: reescreveu toda a sua imensa obra poética... em prosa, numa altura em que achou que o verso já não tinha razão de ser. Essa crise de Juan Ramón Jiménez nunca foi compreendida - Jaime Gil de Biedma chegou inclusivé a escrever que Juan Ramón fôra idiota por depois de ter escrito uma obra poética tão intensa, não ter percebido a diferença com a prosa...), não aceitando ver naquela atitude, por exemplo, um ataque do poeta ao fundo último da poesia, como expressão do seu tempo e do próprio indíviduo. De uma forma ou de outra, gostando-se mais (?) ou menos destas versões, parece-me precipitado interpretar este gesto com ligeireza. É algo que custou ao poeta um esforço hérculeo e o deve ter ocupado por muitos meses.

Eis em mais um díptico, o célebre poema onde J.M.M. descreve (descrevia..., habituemo-nos) a operação STOP que o interpelou quando regressava da tipografia com João Miguel Fernandes Jorge, com a mala do carro cheio de "Cartucho"s, mas lidos desta vez pela ordem inversa:



28 DE SETEMBRO DE 74

A tourada
bandarilhava intervenção.
Alucinavam de reaça,
prejudicavam o trajecto
do retiro barbitúrico
à da Rainha D. Leonor.
Uma fila burguesa alterada,
mafia do Spínola.

Guardiões à bagageira.
Pacotes e rótulo,
cordel a rematar.)
«Livralhada, finório.»
O controladeiro popular empreendeu.
Um obeso coçava tomate.
Balda de treino no rizoma do PC.

Ateimei. Debandaram.

6º poema de "Gaita militar", incluído na segunda parte do livro "Traço", de "Um Toldo Vermelho" (2010)


§§


28 DE SETEMBRO

Começou tudo na tourada.
Isto é, como devia ser. O curro
predispunha à intervenção.
Essa urgência de voltar à mesma
havia de turbar o meu regresso
a Lisboa. Barreiras CDE de resistência
coscuvilhavam bagagens à procura
de calibres, uma fila maçada
de automóveis burgueses era vista
como homens de mão do Spínola.
No meu vinham cartuchos,
perto de duzentos com poemas,
rótulo nominal e fio com chumbinho.
O polícia popular não entendeu,
«São livros, meu senhor!»
Outros dois não queriam crer.
Eu ateimei. Acabou tudo a rir-se.

5º poema de "Escritos militares", 8ª parte de "Os dias, pequenos charcos" (1981)



O poeta pode dar-se ao luxo de burilar significativamente o poema original, reduzindo-o à sua essência quase como se de um resumo se tratasse - uma parafrase, ainda poética, - porque sabe que conhecemos de antemão o contexto primeiro do mesmo. Porém, lê-los pela ordem inversa resulta numa experiência de leitura completamente diferente.

E poderiamos viver só com a segunda versão? Poder... podiamos. Mas não era a mesma coisa.


«Lembro-me de toda a areia
até chegar ao ouro»


«Há bilhetes de autocarro
muito tristes, olha este, a despedida.»


requiem por "Uma luz com um toldo vermelho" (autografado por si, Joaquim).


segunda-feira, dezembro 07, 2009

JOSÉ MIGUEL SILVA (2)

José Miguel Silva (Vila Nova de Gaia, 1969) é um dos mais interessantes poetas portugueses da actualidade, em parte devido à extraordinária força da sua voz poética, uma voz culta e literata que chega a ser politica de tão incómoda e inconformada - denunciando num registo de crueza e ironia (por vezes sarcástica) a corrupção moral da sociedade, - em parte também pela clareza e comunicabilidade dos seus poemas de raiz realista (ou hiper-realista) que ocasionalmente revistam uma infância e uma adolescência dificeis, quase sempre num tom desencantado - a tempos ressentido, - mas onde a surpresa, a creatividade, a originalidade e um fino humor funcionam, a cada passo, como instrumentos de identificação com o leitor contemporâneo. Rui Lage fala mesmo num "olhar mordaz e impiedoso, denunciando um homem reificado e alienado, mas sem a ingenuidade de procurar redimi-lo". O poeta, que chegou a cursar filosofia (c.f. "Faculdade": "Daqui a quatro anos já serás / formado em miudezas / de futuro gradeado e / o mundo vai abrir-se, já o sabes, / num esgoto cor de prata."), trabalha actualmente como prolifico tradutor não apenas no dominio da poesia (Shakespeare, Edgar Lee Masters) mas principalmente da ficção (Iris Murdoch, Don Delillo, Virginia Woolf, Alice Munro, entre outros). Aqui estão quatro poemas (não podem ser mais porque mesmo para a "devida vénia" haverá um limite...):


OBRA POÉTICA
O Sino de Areia, Gilgamesh, Porto, 1999
Ulisses Já Não Mora Aqui, &etc, Lisboa, 2002
Vista Para um Pátio seguido de Desordem, Relógio d'Água, 2003
24 de Março, Gilgamesh, Porto, 2004
Movimentos no Escuro, Relógio d'Água, Lisboa, 2005
Walkmen (com Manuel de Freitas), &etc, Lisboa, 2008


PEDRAS E MORTEIROS (2002)

"Todos os poetas são judeus"
M.Tsvietaieva


Essa dos poetas, Senhora, com vocação
para apanhar no pelo, tem quase tanta graça
como a outra, de chamar vítimas às vítimas
oficiais do século XX. Como se a história
fosse um prato congelado e a moral
o restaurante onde se come mais barato.

Entretanto, nós somos acusados de atirar pedras.
Mas vede, Senhora, não são pedras, é o que resta
das nossas casas, abatidas por Golias.
Na mão que lhe estendemos deixou-nos esta funda.
Que mais podemos nós, senão utilizá-la?

Razão tem a pedra na conhecida fábula
da Pedra no Sapato quando diz:
todas as pedras são palestinianas.

de "Ulisses Já Não Mora Aqui", &etc, 2002


§


POEMA COM APÓLOGO MORAL
(2002)

Há quem diga que depois da batalha de Queroneia,
de Los Alamos, do Rapto das Sabinas,
nunca mais se pode escrever com maiúsculas
a palavra "Deus"; que se tornou imoral
a gente queixar-se à lua de uma farpa no dedo,
do infortúnio, do tempo que perdemos na paragem
do autocarro. Quem o diz que não se pode,
não sabe, não entende o que poesia seja.

Era um homem que vivia a profissão de marceneiro.
É conhecida a ligação do marceneiro com as farpas
que lhe entram na pele. Este falava com elas,
contava-lhes casos de sorte e azar, queria-lhes bem.
Entendia que também as farpas são filhas de Deus,
isto é, do amor que sentia pela sua arte.
Um dia um acidente aconteceu na máquina de corte,
esse homem perdeu a mão direita. Não por isso deixou
de sentir farpas alojarem-se na mão perdida,
de falar com elas, de recomendar-lhes
que tivessem juizo, que fossem brincar para outro lado.

de "Ulisses Já Não Mora Aqui", &etc, Lisboa, 2002


§


DIZIAS QUE GOSTAVAS
(2003)

Dizias que gostavas de poemas.
Escrevi-te, numa tarde, mais de cinco.
São muito bonitos, disseste,
hei-de mostrá-los ao meu namorado.
Nunca mais confiei nos versos
nem no gosto feminil.

de "Vista de Um Pátio seguido de Desordem", Relógio d'Água, Lisboa, 2003


§



BRIEF ENCOUNTER - DAVID LEAN (1945) - (2005)

Quando duas almas, e digo bem,
se enamoram uma da outra,
estamos perante um caso fragrante
de romantismo inglês. A princesa,
o dragão e o senhor chapéu de coco:
tanto basta para um drama
em que o remorso é o artista
principal. São assim os infelizes,
não conseguem partir um prato
sem ficar tolhidos pelo sentimento
de culpa. E por isso, sentem eles,
o melhor é estar quieto na berma
do sofá, e ter medo de tudo,
de tudo menos da infelicidade.

de "Movimentos no Escuro", Relógio d'Água, Lisboa, 2005

sábado, dezembro 05, 2009

PEDRO MEXIA (2)

Na Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, "Poemas Portugueses", que a Porto Editora acaba de editar, o poeta e crítico Rui Lage escreve com exactidão sobre Pedro Mexia:

"(...) Pedro Mexia faz da poesia crónica da rotina diária, apontamento do logro existencial, ecrã da solidão doméstica, divã onde reclina os fantasmas do amor e do sexo. Dotado de uma desarmante capacidade de observação do invisível no visível, da memória na matéria, e do cómico no sério, a sua poética, de cunho anglo-saxónico, aposta na descontrução da seriedade, transformando os pequenos falhanços em sabedoria (...). De Pessoa e Sá-Carneiro recupera uma auto-ironia triste, quase niilista, com que desfila, flâneur anónimo e espectral, numa Lisboa descaracterizada."

Pedro Mexia (Lisboa, 1972) faz hoje 37 anos. Bom pretexto para lembrar a sua poesia:




WALLACE STEVENS A CAMINHO DO ESCRITÓRIO (1999)

No caminho, Hartford endurece
ao mesmo tempo que se torna leve.
O outono deixa de ser outono.
Os galos não cantam.
Esse necessário mundo dos objectos
transmuda-se perante o olhar
do homem cansado, cansado mas febril
com tudo o que em si faz
o pensamento imaginante.

Em Hartford é sempre outono,
como em certas prisões. Connecticut amanhece
e surge o poema. Mrs. Halliwell vai anotá-lo
mal chegue ao escritório.

de "Duplo Império", edição do autor, 1999


§


GINA, CIRCA 1988
(2004)

Não ardia, a puta.
Bífidas emanações azuis e escarlate
carcomiam as páginas
de papel plastificado, que porém
se fazima fénix.
Iam sendo queimadas vulvas canibais
com legendas kitsch.
Bando de primos, num esconderijo
com fósforos, desfazendo dificilmente
a Gina que tínhamos comprado
sem intuito sexual.

de "Vida Oculta", Relógio d'Água, 2004


§


NOIVA DE DEUS
(2004)

Como no filme, era noiva de Deus,
confessou-me, ríspida, seu
perseguidor. Os seios
ainda facilmente me oprimem
o fôlego, anos passados.
Eu tentava a pouca arte, a repetição,
mas ela e Deus promessi
sposi (foi isto em Itália).
Álibi, imaginei, sempre generoso.
Mas não: em setembro abandonava
a roupa civil, escondia os cabelos
pretos, ia entregue. Não sei
como se passou: uma década quase,
nem o seu nome. Apenas
um poema como lápide, como
ironia, o volume ainda laico
do seu peito e a última vez
que concorri com Deus.

de "Vida Oculta", Relógio d'Água, 2004


§


Também aqui.

terça-feira, novembro 10, 2009

ADÍLIA LOPES (2)

Em leitura: Dobra, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009, de Adília Lopes.


Também aqui.

segunda-feira, novembro 09, 2009

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA (4)

De "O Viajante sem Sono" (Assirio & Alvim, 2009), por José Tolentino Mendonça:



BICICLETAS


Por muito tempo amarei casas que existam apenas
para guardar uma bicicleta ou os remos de um bote
As casas interessantes não têm pretensão nenhuma
Estão perto de nós na hora necessária
mas a qualquer momento
com mais clareza
afastam-se das certezas que perdemos
e da imensidão que se avista de lá

Um velho provérbio diz:
Se deres um passo atrás, talvez te coloques a tempo
de uma estação clemente


§


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segunda-feira, julho 06, 2009

A. M. PIRES CABRAL

A. M. PIRES CABRAL nasceu em 1941 em Chacim, Macedo de Cavaleiros, Trás-os-Montes. Licenciou-se em Filologia Germânica na Universidade de Coimbra. É autor de uma vasta obra literária onde a poesia não assume o menor papel. "As Têmporas da Cinza" (Cotovia, 2008), é um livro impressionante de maturidade. Esta é a poesia dos grandes temas entre os quais a morte, a frágil condição humana, a fraca matéria de que é feita a carne, a crítica a um deus indiferente perante o peso omnipresente da passagem do tempo. Dois poemas, com a devida vénia, deste livro que curiosamente, foi também finalista da short-list do prémio Correntes d' Escritas 2009:



A MOSCA DO SERVIÇO DE URGÊNCIA


A velha está sentada na sala de espera.
Chegou amparada pela filha, que a depositou ali
enquanto trata dos papéis. A aflição
deve ter sido tão súbita e imperiosa,
que a velha vem descomposta,
não houve tempo para atender a pudores.
Perdeu algures um chinelo.

Está sentada, muito branca, e parece
mascar as dores com as gengivas nuas.

Tem a morte pousada na cara, sob a forma
de uma mosca insistente e de ar atarefado.
Não tem forças para a sacudir.
A mosca aproxima-se da boca, depois parece
interessar-se pelo nariz. Delicia-se
com o muco ao canto do olho, como a criança
que come a ocultas um gelado interdito.
É como se estivesse em casa e percorresse
os aposentos ao sabor dos afazeres.
Cansada do rosto, levanta voo
e vai pousar, desta feita, numa mão.
Mas breve volta atrás, como se se tivesse
esquecido ali de alguma coisa,
e demora-se um pouco a tentar lembrar o quê.

Esfrega uma na outra as patas dianteiras,
celebrando a vitória que logo virá.

A velha já nem se dá conta
desse penúltimo escárnio da morte.
Está visivelmente madura para ela,
pronta a entregar-lhe os destroços do corpo.

Consumada a posse daquele território,
a mosca vai no seu voo fortuito
em busca de mais carne a requerer.
Há dezenas de doentes na sala.
Apalpa-os um por um, como se faz aos figos,
para saber qual deve ser comido
em primeiro lugar.

O mais certo é que acabe - mais dia, menos dia -
por devorá-los todos.



§


FARPAS


Tanta farpa cravei por acidente
no meu próprio flanco.

As farpas oscilam a cada passo meu,
lacerando sempre um pouco mais
os rasgões que já trago na carne.

Toma para ti - ò touro divino,
verdadeiro destinatário delas! -
algumas dessas farpas.

Que todas sobre mim são muito peso,
muita dor,
muito sangue empastando sobre a pele,
muita mosca cevando-se no sangue.


domingo, julho 05, 2009

JORGE GOMES MIRANDA (3)

(Leia a crítica do jornal espanhol abc: Objetos parlantes, por Jaime Siles)


O título, como convém, é ambiguo. Começamos a ler os poemas - que têm por título substantivos, - e logo nos assalta a dúvida sobre quem será o narrador: o poeta, autobiográfico, ou uma personna literária. Logo no primeiro poema, “Chávena” apercebemo-nos da existência de um homem como personagem, para mais tarde descobrirmos, vinte e uma linhas depois, que afinal é a própria chávena quem fala: “o chá desce sobre mim”.

"O Acidente" é um livro de poemas que joga com o leitor e o surpreende a cada passo. Ao segundo poema, “Bilhete de comboio”, começamos a desconfiar que o jogo da personificação se vai repetir, que a voz de cada poema irá ser a do objecto cujo significante encima o texto como título. Pela fala do “Bilhete de comboio” apercebemo-nos de que alguém partiu, e ao terceiro poema, pela voz da “Estante”, ficamos a saber que também existe uma criança a rondar por ali. No corpo do quarto texto é o “Lápis” quem informa que a partida aludida no segundo poema terá sido definitiva, - uma morte, portanto - e é um “Relógio”, ao sexto poema, quem nos diz que quem morreu foi uma mulher.

Este processo prossegue, de revelação em revelação, socorrendo-se de um quotidiano familiar e coloquial, mas mais importante do que isso, traçando a arqueologia de uma narrativa, re-construindo o esboço de um episódio, de uma estória, libertando aos poucos informação rasurada, enigmática, tensa, sintética, como é próprio da construção de uma ficção. Como se a complexidade sintática das obras anteriores a esta desse agora lugar a uma prosa fluente e limpa, densificando-se, ao invés, a forma e a estrutura.

Este é um livro conceptual e aí reside a sua originalidade. Não que JORGE GOMES MIRANDA (Porto, 1965) não tivesse já esboçado este internar da poesia na ficção (citarei apenas como dois exemplos “Quatro Mensagens deixadas no Telemóvel” (de “A Hora Perdida”, Campo das Letras, 2003), ou a sequência de dois poemas em forma de "E-Mail" sobre a Guerra do Golfo (“Pontos Luminosos”, Averno, 2004), mas aqui como mais tarde em “Resgate” (Fundação de Serralves, 2008), - neste último cruzando de forma ideal duas narrativas e duas vozes diferentes num só livro, - essa intenção representa todo um programa de escrita. Surpreendente e original, repito.

A razão porque regresso a este livro é a oportuna edição que teve em Espanha na Editorial Quálea, (Torrelavega, Cantábria, 2009), graças à visão, labor e inteligência crítica de José Ángel Cilleruelo que o repescou à vasta poesia portuguesa de hoje e o traduziu para castelhano, assim repondo além-fronteiras com inteira justiça, a atenção que este livro não mereceu em Portugal.

Voltando ao livro: aquele jogo de personificações narra qualquer coisa que não revelarei aqui mas permitir-me-ei escolher alguns dos seus momentos tensos, elípticos, irónicos ou humorados, como quando, por exemplo, o “Bilhete de comboio” lamenta placidamente que “meu destino será permanecer / e um dia despertar, no meio de um livro”, ou a “Lâmina de barbear II” (existe uma primeira “Lâmina de barbear”), enciumada, fala da “casa de banho / onde, sem hesitação ou culpa, / me trocou por outra", ou ainda quando o “Calendário de bolso” pisca o olho ao peso da memória relembrando que “em mim trago também / os dias passados”. Ou, finalmente, quando a “Mala de viagem” se queixa de que ele “Atira a porta de casa / (...) Com maus modos leva-me pela mão" rematando óbviamente com duplo sentido, que só "Por pudor não direi o que trago dentro de mim.

Objectos com sentimentos, portanto, mas também o sentir os objectos olhando uma parcela do mundo com uma fortíssima preocupação ficcional, distanciando-se esta escrita da biografia e do confessionalismo. José Ángel Cilleruelo fala mesmo "de um passo mais no caminho de despersonificação que abriu Fernando Pessoa na poesia europeia: perdida a essência do eu, ganham vida os objectos, as coisas, os acidentes impregnados do rumor do sujeito".

Este é seguramente um daqueles livros que pelos motivos explicados funciona melhor em leitura completa. Mas aqui fica um poema de “O Acidente” (Assírio & Alvim, 2007), que, relembro, foi finalista da short-list de poesia do importante prémio literário Correntes d’ Escritas 2009. Com a devida vénia:



MOLA DE ROUPA

Conservei-me afastada do estendal
durante algum tempo.
Sofro de vertigens, por isso
intimidava-me olhar para baixo,
o pátio vazio, restos de flores secas.
Um prédio com dez andares
e ele tinha logo que viver no último,
tendo como horizonte o mar
de terraços e antenas parabólicas.

Quando, chegado com a roupa
da máquina de lavar,
pega em mim,
de suas mãos eu deslizo para o chão.
Apressado, em vez de me apanhar
imediatamente, escolhe outra;
no final, atira-me para o cesto
de verga.

Não é que seja particularmente ardilosa,
mas verdade seja dita, preferia ser
mola de rés-do-chão,
dessas que faça sol ou chuva
sempre prendem a roupa numa corda
estendida no pátio.
O destino quis-me feita de plástico,
com um coração inclinado à melancolia.
Tenho, no entanto, como divisa
antes quebrar que torcer.

Sonho com o dia em que nas mãos da criança
serei um comboio.


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sexta-feira, julho 03, 2009

RUI PIRES CABRAL (5)

(este post vai dedicado ao meu novo amigo João Paulo Sousa)

RUI PIRES CABRAL (Macedo de Cavaleiros, 1967) acaba de publicar “Oráculos de Cabeceira” (Averno, 2009). Neste seu último livro, o autor permite que a sua voz assuma um registo mais pessoal - sem sombra de confessionalismo, porém - onde o assunto dos amores e do desencontro ("um coração / com defeito"), bem como uma especial capacidade para ver (para re-parar) naquilo que pode constituir material poético passivel de plasmar a contemporaneidade ("esta pomba trucidada pela ambulância"), são transversais a toda uma obra que, se quisermos, pode ser vista e lida como um único poema urbano feito de fragmentos que terminam, quase sempre, em finais disfóricos.

Uma das características que mais aprecio na poesia de Rui Pires Cabral é a qualidade sintáctica com que os poemas se desembrulham, se desenvolvem, numa original teia descritiva (a tempos, mais narrativa), que deixa vincada uma angustiante sensação de incompletude (“como um verso interrompido / nas costas de um envelope”), e a descrença niilista no absurdo da vida (“ou vontade de vingar / o dissabor de viver”).

As viagens (físicas) que caracterizavam os seus primeiros títulos dão agora lugar (porque "As cidades cansam") a uma muito particular viagem por uma lista de leituras (literalmente “abertas ao acaso”) que encimam cada poema, e que decorrendo num ambiente urbano que estava já presente na sua escrita, acentuam agora a perplexidade de uma paisagem sentimental interior que não é particularmente alegre nem feliz, e que a cada passo questiona a vida e os limites da existência, os "encargos / de sombra", sob o signo da solidão. Um desencanto indesistente, portanto: "tinta preta que não sai". Inconformada.

Um poema deste livro, com a devida vénia:



“He loved beauty that looked kind of destroyed”

Gostava dessa espécie de beleza
que podemos surpreender a cada passo,
desvelada pelo acaso numa esquina
de arrebalde; a beleza de uma casa devoluta
que foi toda a infância de alguém,
com visitas ao domingo e tardes no quintal
depois da escola; a beleza crepuscular
de alguns rostos num retrato de família
a preto e branco, ou a de certos hotéis
que conheceram há muito os seus dias de fulgor
e foram perdendo estrelas; a beleza condenada
que nos toma de repente, como um verso
ou o desejo, como um copo que se parte
e dispersa no soalho a frágil luz de um instante.
Gostava de tudo isso que o deixava muito a sós
consigo mesmo, essa espécie de beleza arruinada
onde a vida encontra o espelho mais fiel.


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domingo, junho 07, 2009

MANUEL ANTÓNIO PINA


Ontem, 6 de Junho, na Feira do Livro do Porto, Manuel António Pina apresentou o meu último livro "A Parte pelo Todo", no âmbito de uma mesa submetida ao tema "Aquele que escreve é também eternamente escrito". O que se segue é o texto que li na ocasião e que pretendo partilhar com os leitores do Poesia Ilimitada sobre a poesia de Manuel António Pina.



ANÕES AOS OMBROS DE GIGANTES


dedicado a Manuel António Pina, poeta gigante


O tema que nos é proposto esta noite (“Aquele Que Escreve É Também Eternamente Escrito”), é particularmente pertinente quando falamos da obra de Manuel António Pina, não apenas porque são seus os versos “aquele que escreve / é também eternamente escrito” ou numa outra variante “Também aquele que escreve / é escrito para sempre”, mas porque na sua poesia - e na sua técnica de escrita, se posso usar este termo, – é perceptível a questão das famílias literárias, ou, usando uma expressão mais visceral, da consanguinidade literária.

Manuel António Pina (jornalista, poeta, cronista, ficcionista, dramaturgo, escritor de literatura infantil), é um daqueles escritores que já não se apresenta em colóquios como este pelos livros que escreveu, mas pelos prémios que recebeu: o Prémio da Critica da Associação Internacional de Críticos Literários, por “Atropelamento e Fuga” (de 2001), os Prémios da Associação Portuguesa de Escritores A.P.E. e da Fundação Luís Miguel Nava, pela obra “Os Livros” (de 2003), prémios que destaco de entre outros porque dizem respeito a duas obras de extraordinária maturidade que consagraram MAP como um dos maiores poetas portugueses actualmente a escrever e a editar.

Após uma fase inicial, a partir de 1965-1966 (sob a pena de falsos heterónimos como Billy The Kid de Mota de Pina ou Clóvis da Silva, ou Slim da Silva que “Aos 50 anos descobriu a irresistível vocação de falar sobre o que não conhecia”), onde a sua obra revisita o surrealismo, a escrita Beat, um certo niilismo, sendo possível encontrar versos directamente colhidos, como escreveu Shakespeare, do “olho da mente” (“the mind’s eye”):


“Só me faltavas tu para me faltar tudo”

“O braço que falta ao mendigo é o que o sustenta”



é a partir do anos 80, sensivelmente, que a sua escrita se renova enquanto discurso criativo, enigmático, subversivo, irónico e auto-irónico, de forte cariz analítico e filosofante, tendo no provocado cotejo de contrários – com vista à problematização do “eu”– e na morte ou principalmente na pequena morte quotidiana, temáticas recorrentes.

A questão dos “múltiplos” na obra poética de Manuel António Pina é um dos aspectos mais fascinantes e prende-se intimamente com o tema desta palestra. Jorge Luís Borges, uma referência seminal para MAP escreveu “Eu sou todos os livros que li, todas as pessoas que conheci, todos os lugares que visitei, todas as pessoas que amei”. E é, de facto, impressionante o rol de autores cuja obra ou cujos versos é possível entrever na obra de MAP, mesmo para um leitor médio de poesia como sou, quer através da técnica da colagem, uma técnica vanguardista à década de 60 (quando outros se perdiam com a linguagem da linguagem) – lembremo-nos (como bom exemplo) de Rauchenberg, na pintura, uma década antes - técnica hoje chamada no mundo da música de samplagem, quer também o que MAP intitula de metamorfoses, no sentido de transformações de poemas, por vezes artes poéticas, que não assumem ainda o pendor kitsch de pastiche ou paródia, antes o de homenagem e afecto: Holderlin, Breton, Camões, Laforgue, Baudelaire, Blok, Quevedo, Yeats, Mallarmé, Fernando Lemos, Pound, Antero, Shakespeare, Nietzsche, Bataille, Hugues, Apollinaire, assim mesmo, sem qualquer ordem geográfica ou cronológica, somente ao fluir das leituras e da escrita que escreveram e que assim se vê eternamente lida para voltar de novo a ser escrita. Para ser re-escrita.

São referências intertextuais que surgem naturalmente no decurso da sua obra, não por pedantismo ou petulância, que não restem dúvidas, - aquele que os cita refere igualmente como referências Bob Dylan ou os Beatles, oriundos da música popular anglo-saxónica, Hugo Pratt, vindo da banda desenhada, ou até a Bíblia (como veremos mais adiante), - antes surgem por pura honestidade intelectual, deste que assegura:


“Igual aos deuses (com pouco me contento)
de livros e silêncio me alimento”


Existe porém nesta obra um grupo mais estrito onde a afinidade literária é significativamente maior, no tom (talvez), nos assuntos (seguramente), e na técnica (por vezes). Diria até que se trata de uma afinidade visceral, fraternal, tal é a consanguinidade literária com este grupo de poetas acerca de cujos livros – e pensando em MAP - Borges bem poderia sublinhar a sua máxima de que é bem mais importante para um autor reler (e reler e reler) do que ler: T. S. Eliot, Alexandre O’Neill, Mário Cesariny, Cesário Verde, Camilo Pessanha, Rilke, Lewis Caroll, Ruy Belo e os maiores, para MAP, de entre todos, Jorge Luís Borges, ele mesmo, e esse outro poeta contra quem, suspeito, MAP escreve e escreveu – "matando o pai?" - chamado Fernando (de Campos Caeiro Reis Soares) Pessoa.

Porque a dicotomia entre o “eu” e o “outro”, (ou os “outros”,) num processo de ciciante afastamento e aproximação, em que o “eu” se diz “múltiplo” descobrindo-se e ocultando-se no “outro” ou nos “outros”, esta dicotomia, dizia, aparece a cada verso na poesia de MAP. O “eu” (seja o poeta narrador ou uma persona literária) confronta-se assim por um lado com a “memória” de si mesmo que re-lembra, re-conta e re-nova, ao mesmo tempo que engloba a "memória" do “outro”, ou dos "outros" em si. Igualmente presente na sua obra leio a dissociação corpo-mente, como se, a tempos, a mente descrevesse acções ou o pensamento do próprio corpo onde se insere, falando porém de um ponto de vista exterior a ele. Borges, Pessoa e possivelmente Roberto Juarroz sentir-se-iam eternamente reescritos se pudessem ler MAP.

Um dos instantes mais ternos em que a sua poesia plasma na perfeição o que acabo de referir acontece no poema KINDERGARTEN, onde o poeta escreve:


“As filhas brincam fora de o quê?
que infinitamente se interroga?
O fora de elas é dentro
de que exterior centro?”


ou neste outro poema de “Cuidados Intensivos” (de 1994), que ficciona uma Última Ceia de Cristo sui generis, instabilizando o papel do narrador/poeta naquela mesa de 13 mas também, de forma mais abrangente e transfigurada, questiona o seu peso pessoal no seu círculo de influência – ou poderia ter escrito, o lugar que a fé ocupa nas suas crenças pessoais -, mas também, se quisermos, interrogando os valores da Honestidade e da Justiça pelas quais tudo no mundo se rege ou se não rege, tudo isto através de um salto temporal histórico de séculos tão característico do pluralismo pós-moderno, onde o poeta é, à vez, o “eu” e os seus “múltiplos”: os apóstolos, o servo, um pecador, São Tomé, que duvidou, São Pedro, que descartou, São João, enternecido, Judas, que o traiu, e o próprio Cristo, como que dizendo “eu sou todos os outros”:


D’APRÈS D. FRANCISCO DE QUEVEDO

Também eu ceei com os doze naquela ceia
em que eles comeram e beberam o décimo terceiro.
A ceia fui eu; e o servo; e o que saiu a meio;
e o que inclinou a cabeça no Meu peito.

E traí e fui traído,
e duvidei, e impacientei-me, e descartei-me;
e pus com Ele a mão no prato e posei para o retrato
(embora nada daquilo fizesse sentido).

Não subi aos céus (nem era caso para isso),
mas desci aos infernos (e pela porta de serviço):
comprei e não paguei, faltei a encontros,
cobicei os carros dos outros e as mulheres dos outros.

Agora, como num filme descolorido,
chegou o terceiro dia e nada aconteceu,
e tenho medo de não ter sido comigo,
de não ter sido comido nem ter sido Eu.


Como se o Real não passasse – utilizando a conhecida metáfora da cebola – de um pequeno globo de camadas concêntricas onde cada camada desconhece ainda quantas placas de sedimentação protege para dentro, e quantas a protegem por fora. Agrada-me este conceito de poesia enquanto arqueologia do Real, como forma de des-tapar, des-cobrir, des-cascar, deixando apenas a última camada, que chamaria de fina camada de pudor, sob pena de à custa de tanto descascar, como à cebola, levar o leitor às lágrimas do sentimentalismo, o que deve ser evitado.

Queria fechar a comunicação lembrando ainda, à vista do tema “Aquele que escreve é eternamente escrito” que o mau poeta copia descaradamente os versos de outros; o bom é o que rouba com classe e ainda tem o topete de intitular o acto com o pomposo epítome de “intertextualidade”. E queria louvar o papel do poeta que respeita a tradição e sobre ela trabalha. O dito de Bernard de Chartres, que viveu no século XII, relatado pela primeira vez no Metalogicon de John of Salisbury é sobre isso mesmo significativo:


Frequentemente sabemos mais, não porque tenhamos avançado pela nossa habilidade natural, mas porque somos apoiados pela força mental de outros, e possuímos riquezas que herdámos dos nossos antepassados. Bernard de Chartres costumava comparar-nos a insignificantes anões encarrapitados nos ombros de gigantes. Ele assinalou que nós vemos mais e mais longe do que os nossos predecessores, não porque nós tenhamos uma visão mais perspicaz ou maior altura, mas porque nós somos levantados e levados em cima da sua gigantesca estatura.


Anões aos ombros de gigantes, portanto, como nos lembra Matei Calinescu. É como me sinto perante MAP. A inspiração, desenganem-se os românticos, não passa de leitura, ofício e tradição. O meu desejo é que um dia alguém me roube tão bem como eu o roubei a si, Manuel António, tão bem como suspeito, - apenas suspeito, - que o Manuel António soube roubar a outros.


Porto, Feira do Livro, 6 de Junho de 2009.

sábado, maio 09, 2009

BÉNÉDICTE HOUART

BÉNÉDICTE HOUART (Bélgica, 1968) acaba de publicar o seu terceiro livro de poemas "Aluimentos" (Cotovia, 2009) e é, para dizer o mínimo, muito original a sua proposta poética. Os assomos de Bénédicte - entre a ironia e o sarcasmo - dão-se a ler dando a ver seu esqueleto, como se de artes poéticas se tratassem, permitindo a autora que o leitor tenha acesso às hesitações da sua voz - à progressão dos próprios poemas, - desembocando estes habitualmente num efeito de surpresa gorando, e bem, as expectativas do leitor. Já assim era em “Reconhecimento” (Angelus Novus, Cotovia, 2005) e em “Vida: Variações” (Cotovia, 2008), numa linguagem que tanto acontece aproximar-se da erudição no mais puro diálogo intertextual com a tradição (de Camões a Pessoa, de Elisabeth Bishop a Sylvia Plath, de Sophia, a Florbela, a Adília, inclusive a Daniel Maia-Pinto Rodrigues, passando por alguma da poesia contemporânea brasileira), como pode assentar em laborações sobre jargões, vernáculo, clichés, provérbios ou o linguarejar popular, estratégia consciente que cria efeitos quer de reconhecimento quer de estranhamento, ainda mais se atentarmos que Bénédicte foi docente universitária de Estética na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Mero preconceito meu. A personna destes poemas são mulheres, (hereges, vividas, velhas, mães, prostitutas), que falam através de poemas que a melhor parte das vezes parece que não querem ser poemas, de tanto simularem desleixo e destilarem irrisão. O jogo, porém, é precisamente esse: desafiar a instituição poética na sua propagada eloquência, com a inteligência de quem sabe manusear a palavra, matéria-prima do poema. Aqui ficam 3 poemas do seu último livro, com a devida vénia:


§


falou-me com duas pedras na mão
eu atirei-lhas de volta
por pouco não lhe rachei a cabeça
parti o vidro duma montra
ficou parecida com uma teia de aranha
chovesse, então, era uma maravilha
veio um polícia e levou-me
bem lhe expliquei a situação
visivelmente não compreendeu
que uma metáfora por vezes
tem consequências pouco legais
multou-me e aconselhou-me
a não reincidir
coisa que fiz logo de seguida


§


o meu cão parece um coelho
eu pareço uma pessoa
por vezes, raras, as coisas parecem ser o que são
há quem se dedique a descortinar
vida fora tal contradição e
no fim, morra, como todos
sem ter percebido nada afinal

é a vida, a própria vida, queira ou não, deus ou outro qualquer


§


a pedicure disse-me que
os meus pés eram bonitos
apeteceu-me saltar-lhe
para os braços, mas
em vez disso, observei-a
não sem admiração
desconhecia que havia tantas
limas para a mesma ocasião
no fim, recusei pagar-lhe pois
o que ela havia dito
não tinha preço
falando, tirou-me uns calos que
há séculos me atormentavam


(aliás, as palavras são de graça
quanto mais beleza
a ninguém pertencem
a ninguém cabe vendê-las)




domingo, março 29, 2009

RUI MANUEL AMARAL


Caravana
(2008), o primeiro livro de Rui Manuel Amaral (Porto, 1973), publicado pela Angelus Novus, de Coimbra (info@angelus-novus.com) é um livro delicioso. Excelente literatura, este livro é todo um programa do absurdo, ou, se quisermos, de um neo-absurdismo que tem todo o sentido e razão de ser nestes tempos políticos em que vivemos.

O óbvio é aqui apresentado com a força de uma surpreendente revelação que passa, entre outras estratégias, por uma bem conseguida tentativa de normalizar o a-normal e aceitar o dis-funcional; pela obsessão pelo detalhe e a reverência pelo pormenor; pelo abuso da hipérbole, do superlativo, do nonsense, da adjectivação e das onomatopeias; pela desconstrução de narrativas que não se furtam a exibir o esqueleto do pensamento; pelos numerosos apartes que numa constante fuga para a frente, pretendendo explicar tudo mais acrescentam à desinformação; por uma escrita que anuncia a proposição seguinte com um suspense reverencial, criando expectativas e nexos lógicos frequentemente gorados em finais de inconclusa insatisfação.

Os títulos roubados ao hiperrealismo e o rol de personagens irreais mas muito concretas na sua biografia, visam criar no leitor efeitos de verdade e verosimilhança. O narrador coloca-se assim ao lado do leitor para afirmar com toda a certeza do mundo a mais improvável das verdades, não sendo infrequente a eliminação dos tempos históricos, o que permite que Platão se torne, a páginas tantas, coevo de Gregor Samsa, por exemplo, não se conseguindo definir muito bem, como aliás convém, onde começa o humor e acaba o sarcasmo, ou pelo menos, a ironia.

Não há, em tudo isto, uma mera atitude superficial de quem quer provocar o riso, fazer humor, mas antes o ímpeto provocador (e social e politico e crítico) de reflectir sobre o amargo da vida e da condição humana, essa que é transversal a todas as épocas e mundos. Tudo isto com a inteligência da tradição, com a dose certa de auto-ironia, com uma qualidade prosaica inegável, o bom gosto de quem leu uma caravana de génios e os sabe homenagear, tanto quanto os sabe subverter: Gogol, Aub, Vian, Lee Masters, Harms, Dostoievski, Kafka, Walser, tantos.

Mais de 60 micronarrativas ou poemas em prosa poética como lhes prefiro chamar, razão para aqui apresentar três desses textos. Zás!



Ptolomeu Hefestião

Ptolomeu Hefestião resistia imutavelmente a todos os ataques dos homens e à fúria mais terrível dos elementos. Mas era incapaz de resistir ao suave toque de um asfódelo.
Uma bela moral se poderia tirar facilmente daqui, mas não tenho tempo para isso. Bastará dizer que os morangos silvestres, sempre que possível, devem ser acompanhados com chantilly, pois trata-se de um ingrediente que introduz variedade e impede que esmoreça o apetite.


§


História de José Salmasius

José Salmasius era um homem bafejado pela sorte. Quando tinha fome bastava pensar em comida para que um bolo de arroz voasse directa e literalmente para dentro da sua boca. Vou escrever esta frase de novo: quando tinha fome bastava pensar em comida para que um bolo de arroz voasse directa e literalmente para dentro da sua boca. E isto é apenas um esboço daquilo que de facto sucedia, porque normalmente voava para dentro da sua boca toda a espécie de excelentes assados, cozidos, grelhados, estufados, etc.
Sim, concordo que isto não tem muito a ver com literatura, mas a culpa não é minha; limito-me a contar a verdade.
Um dia, de repente, também Salmasius desatou a voar. E voou, voou sem parar. Do outro lado do mundo, um crocodilo bafejado pela sorte estava a pensar em comida. Salmasius quase não sentiu nada. Foi tudo rápido demais.


§


Isto é um assalto!

— Isto é um assalto! — gritou o homem ao mesmo tempo que encostava um caderno de apontamentos à cabeça de uma vendedora, de 21 anos, residente em Mechelen.
A jovem contou que pelas 16h30 de ontem passava na Rue des Bogards, junto aos lavadouros públicos, em Bruxelas, quando foi abordada pelo assaltante, que lhe exigiu pelo menos quatro histórias originais ou o mesmo número de poemas.
Segundo a polícia, a vítima possuía apenas duas histórias e uma lista de supermercado, tudo avaliado em 10.400 caracteres tendo sido obrigada, para completar o valor exigido, a trautear o primeiro andamento do terceiro concerto brandeburguês, imitando uma tuba desafinada. De seguida, o criminoso fugiu na direcção de um automóvel cinzento escuro, onde o esperava um cúmplice que, de acordo com uma testemunha, era «a cara chapada de Mowsle Lockyer». «No mínimo, era o seu irmão gémeo» — acrescentou ainda a testemunha com certa emoção.

domingo, fevereiro 15, 2009

RUI PIRES CABRAL (4)

VICTORIANA

para a Ana Maria e o Rafael


O silêncio e a temperatura dos museus
permeiam toda a cidade. A quantos serviram
estas velhas casas? Hoje são montras de antiqualhas,
folhas roubadas ao calendário da mocidade inglesa
de 1890. Caixas de tabaco, tinteiros de louça,
leques ilustrados com danças de estilo e figuras.
Melhor ou pior, toda a gente desperdiça
a sua vida.
Entretanto o dia acaba a meio da tarde
porque é Dezembro. A esta hora os autocarros
já vão cheios de gente para os arredores, Sydenham,
Whitnash, South Farm, onde as estradas anoitecem
entre casas geminadas e os corvos sobrevoam os quintais
dos imigrantes. Certos sentimentos podem de repente
viciar as cores do mundo. Vêem-se cercas, antenas
e tabuletas, tudo coisas úteis às complicações
do escuro que nos pertence, que sempre
nos pertencerá.


Rui Pires Cabral nasceu a 1 de Outubro de 1967 em Macedo de Cavaleiros. Licenciou-se em História e Arqueologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto em 1990. Vive em Lisboa onde trabalha como tradutor de inglês. "Victoriana" foi extraído - com a devida vénia - do seu livro "Praças e Quintais", Averno, Lisboa, 2003


quarta-feira, setembro 10, 2008

EGITO GONÇALVES

EGITO GONÇALVES
(Matosinhos, 1920 - Porto, 2001)



ESTOCOLMO


A festa endomingava a tarde, ardia
no granito o sol – entre nós
o tempo em sebes frias se arrastava;
lembrávamos ausências, elas formavam
a névoa que envolvia os jogos de água,
Estocolmo foi isso;
a fuga de nós próprios, a tentação
reprimida
de formalizar a ternura. Diálogos
breves como pistas de cinza
para a correspondência com que nos propúnhamos
prolongar o passado. Um esquilo
atravessava a relva sob os cedros
com a vivacidade dos teus olhos. O fulgor
que nos comunicou foi transformado
na alegria perene de que já desistíamos.


Esse esquilo, Monique,
esse relâmpago que fendeu o letago
transformando a luz num estuário denso
ainda o vês? Ou perdeu-se
no regresso da angústia que rasgara,
na falta de resposta
que a paisagem oferecia ao apagar-se?

3.76


in "E No Entanto Move-se", Quetzal Editores, Lisboa, 1995

quarta-feira, outubro 10, 2007

JORGE SOUSA BRAGA




O lançamento dos livros "O Poeta Nu", de Jorge Sousa Braga e "O Século das Nuvens", de Guillaume Apollinaire (versões de Jorge Sousa Braga), decorrerá na próxima sexta-feira 12 de Outubro, pelas 18h30m, no Café Piolho (Café Âncora d'Ouro), na Praça Parada Leitão, 43, Porto). Lerão poemas na ocasião Adolfo Luxúria Canibal, João Gesta, e Rui Reininho.

"Jorge Sousa Braga acaba de reeditar, na Assírio & Alvim, uma nova edição da sua poesia reunida, "O Poeta Nu", acrescentada dos livros "A Ferida Aberta" e "Porto de Abrigo", e de uma sequência de poemas inéditos, "O Lírio que Há no Delírio". Para além da sua obra poética, Jorge Sousa Braga publicou alguns livros infantis, também em verso (entre eles, "Herbário", com ilustrações de Cristina Valadas, que recebeu o Prémio Gulbenkian de Literatura Infantil e foi seleccionado para o Plano Nacional de Leitura), e tem organizado e traduzido várias antologias de poesia, a que acrescenta agora uma segunda versão, revista e ampliada, de "O Século das Nuvens", de Guillaume Apollinaire."


segunda-feira, outubro 01, 2007

RUI PIRES CABRAL (3)


O poeta RUI PIRES CABRAL faz hoje 40 anos. Benvindo aos "-entas", Rui.



REGIONAL BITTERS

O dia está para versos e cerveja amarga.
No sombrio Jug'n'Jester, com bancos
de engordurada madeira e fotografias
das grandes cheias de Leam. Em frente
o largo da igreja paroquial que a chuva
despovoou e à volta os ingleses da vila
num momento fortuito de um enredo maior.
São da minha idade os da mesa de canto,
trocam livros e seguem uma moda própria,
reminiscente de uma juventude literata e boémia
desbaratada nos anos 80. Pergunto-me
que nomes lhes deram e se terão, como eu,
medo de morrer sozinhos. Terão tentado a sorte
nas avenidas de Londres e regressado a casa
para arranjar um emprego na discoteca do mall?
Sim, eles conhecem bem a província da insónia
e do rancor, o pequeno desgosto de saber
onde desembocam as ruas. Mas isto vem afinal
nos braços frios da tarde, dentro da minha cabeça
onde já recomeçou a desfiguração do mundo:
por não me teres acolhido nos meus erros
e nas minhas feridas, nem teres percebido ainda
o quanto esta vida nos pesa e nos trai.

de "Longe da Aldeia" (Averno, 2005)


terça-feira, maio 15, 2007

RUY BELO (3)


MORTE AO MEIO-DIA

No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe,
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer


in “Boca Bilingue” (1966)


quarta-feira, maio 09, 2007

RUY BELO (2)





A MÃO NO ARADO

Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará

Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh! como é triste arriscar em humanos regressos
e equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
e haver árvores ao fim da rua

É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro

É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solidário vento e não o conhecemos
e não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã
Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de Novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tudo isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
É muito triste andar por entre Deus ausente

Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente


in "O Problema da Habitação - Alguns Aspectos" (1962)